Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Tempo médio para diagnóstico de câncer de mama subiu de 28 para 45 dias em quatro anos no Brasil

Das mulheres identificadas com a doença entre 2014 e 2018, 32% esperaram mais de 30 dias para receber a confirmação; demora tem impacto na evolução da enfermidade e tratamento

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 20h00

SÃO PAULO - Era início de 2017 quando Janaina Oliveira Nunes, de 45 anos, acordou um dia com o mamilo invertido, para dentro do seio. Ela, que sempre fez a autoanálise das mamas por meio do toque, sabia que o sinal era ruim. “Eu fui no posto, falei com o doutor que aquilo não era normal.” A revendedora já suspeitava que poderia ser câncer, mas os médicos, a princípio, não. O diagnóstico veio apenas em agosto de 2019, após longas esperas para realizar consultas e exames por meio do Sistema Único de Saúde no Rio de Janeiro.

Um estudo feito pelo Observatório de Oncologia em parceria com o Instituto Avon, fornecido com exclusividade ao Estadão, mostra que, em 2014, uma mulher levava, em média, 28 dias entre a primeira consulta com um especialista no SUS e o diagnóstico do câncer de mama. Em 2018, o tempo aumentou para 45 dias.

Se considerarmos o período de 2014 a 2018, o tempo médio foi de 36 dias, sendo que em 32% dos casos a confirmação demorou mais de 30 dias, segundo dados do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O estudo completo analisou o panorama do atendimento realizado pelo SUS para o tratamento das mulheres com câncer de mama por meio de informações obtidas de seis diferentes bases de dados secundários e públicos do Ministério da Saúde.

A fim de dar agilidade a esse processo, o governo federal sancionou, em outubro do ano passado, a lei 13.896, que busca garantir o diagnóstico de câncer em até 30 dias após a solicitação médica. Porém, médicos e entidades que atuam em defesa dos direitos de pacientes com câncer avaliam que a legislação nem sempre é acatada e um melhor direcionamento seria necessário para que Estados e municípios cumpram o dever.

“Temos as leis dos 30 e 60 dias, mas infelizmente vemos que nenhuma delas é cumprida. Acho que a  gente precisa cobrar mais e divulgar mais paraas mulheres que elas têm direito tanto ao diagnóstico precoce como ao tratamento e, principalmente, orientá-las a procurar um profissional da saúde para eliminar dúvida ou confirmar em caso de suspeita”, afirma Juliana Francisco, mastologista pela Sociedade Brasileira de Mastologia.

Segundo ela, são diversos os fatores para a demora do diagnóstico. “Pode ser o medo que a mulher tem de fazer os exames, mesmo os de rotina, falta de conhecimento, dificuldade de acesso, não conseguir agendamento próximo ao local de trabalho ou não ter médico no posto para atendê-la.”

A médica destaca que a qualidade dos exames, não apenas em relação ao equipamento, também pode levar a um diagnóstico tardio. “O posicionamento da mama no mamógrafo é a principal dificuldade, que vai afetar a percepção do radiologista e a interpretação da imagem.” Nesses casos, uma alteração importante pode não ser identificada de imediato.

De acordo com o estudo, o tempo para o diagnóstico também aumentou conforme a idade, passando de 32 dias na faixa de 20 a 29 anos até 38 dias para mulheres entre 60 e 69 anos. A análise indica que o intervalo de tempo para confirmação da doença teve aumento de 10,3% ao ano. Segundo Juliana, as implicações do diagnóstico tardio envolvem estágio mais avançado da doença e, consequentemente, custo mais elevado do tratamento.

Entre 2015 e 2019, 368.019 mulheres realizaram ao menos um procedimento de tratamento ambulatorial para o câncer de mama no SUS, com gasto superior a R$ 3,1 bilhões. Deste total de pacientes, 44% estavam com a doença em estágio avançado, o que representou 61% do valor gasto no período. Já 23% tratou a enfermidade após diagnóstico precoce, que significou apenas 15% das despesas.

Tratamento tardio

Após a confirmação do câncer, o tratamento deve ser iniciado em um prazo máximo de 60 dias, conforme prevê a lei 12.732/2012. No entanto, registros do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA-SUS) analisados pelo estudo no período de 2015 a 2019 mostram que o tempo médio foi de 113 dias. Apenas 43% das mulheres diagnosticadas e tratadas iniciaram o procedimento em até 60 dias. Já pelos dados do RHC, a espera média entre 2014 e 2018 foi de 83 dias, com cerca de 50% das pacientes iniciando em até dois meses.

No caso de Janaina, foram quatro meses entre o diagnóstico e a primeira sessão de quimioterapia, em dezembro de 2019. As sessões acabaram em junho deste ano e em agosto a cirurgia foi realizada. Agora, a revendedora aguarda para iniciar a radioterapia.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Eu via que os números iam aumentando, o tamanho dos linfonodos. O câncer é uma doença que se desenvolve muito rápido
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Janaina Oliveira Nunes, de 45 anos

Segundo dados do Painel-Oncologia, do Inca, divulgados em maio deste ano, 50% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama em 2019 iniciaram o primeiro tratamento em até 60 dias enquanto 24,7% começaram com mais de dois meses após a confirmação da doença. Importante destacar que em 25,2% dos casos não havia informação sobre o tratamento.

Baixa cobertura mamográfica

Outro dado que chama atenção no estudo é a baixa cobertura de mamografia em todo o País, principalmente em relação ao público-alvo determinado pelo Ministério da Saúde, que são mulheres entre 50 e 69 anos. Entre 2015 e 2019, cerca de 23% desse grupo etário fez o exame. A cobertura geral caiu 4,4% ao ano.

“A gente sabia que o cenário é bastante crítico. Quando a gente avaliou os dados de todo o atendimento realizado pelo SUS, de certa forma confirmou os resultados de vários estudos clínicos que já apontavam para essa direção. O que surpreendeu foi ver o cenário de piora nos últimos anos. A gente sabia que mamografia tinha baixa cobertura, mas ela vem reduzindo, e o cenário de diagnóstico tardio se agravou”, avalia Nelson Correa, pesquisador e cientista de dados do Observatório de Oncologia.

A mastologista Juliana explica que, além daqueles fatores que dificultam o acesso a uma consulta, a forma como o Brasil atua nessa área é pouco eficiente. “Existe dois tipos de rastreamento: o organizado, que não temos no País, em que o público-alvo é avaliado, rastreado e as mulheres são convocadas para fazer o exame, e o chamado oportunista, em que a mulher é quem vai atrás do exame. Por isso a cobertura é tão baixa, porque depende muito mais da mulher ir atrás do que a gente fazer política pública.”

Esse estudo, mais uma vez, levanta o debate sobre a partir de qual idade as mulheres deveriam iniciar o exame para rastreamento do câncer de mama, algo que já foi discutido em uma pesquisa anterior. Nesta análise, 50% dos diagnósticos em estágio mais avançado foram feitos em pacientes entre 40 e 49 anos, faixa etária que está fora do preconizado pelo Ministério da Saúde, que é de 50 a 59 anos. Nesse grupo, 43% teve confirmação tardia e 27%, precoce.

Subnotificação

Uma informação importante, mas que está ausente nos dados públicos de saúde, é a data da primeira suspeita de câncer, seja por uma alteração na mamografia ou pela percepção de um nódulo na autoanálise. Janaina conta que a primeira médica com a qual se consultou desconsiderou a possibilidade de tumor e apenas receitou um medicamento.

“Eu comecei a pesquisar sobre câncer, sobre o que acontecia se o mamilo entrasse. Fiz mamografias de 2017 a 2018 e ali já falava que eu tinha alguma coisa na mama esquerda”, relata. “Até chegar no médico, eu já sabia que aquilo era câncer, só não sabia se era maligno ou benigno.” Após receber o encaminhamento para o mastologista, a consulta demorou mais dois meses. Depois que o especialista pediu a biópsia, foram mais 30 dias de espera. “A lei dos 30 dias tem de contar a partir da primeira suspeita clínica”, diz a mastologista Juliana.

O ideal seria ter um registro nacional que abrangesse toda a população, com preenchimento mais frequente das informações, avalia o pesquisador Nelson Correa. “Não temos esse registro único com todas essas características. Existem diversas bases  de dados, todas têm qualidade, mas também limitações. Essa ausência de notificação dificulta na gestão de saúde”, afirma.

Questão de raça

O estudo do Observatório de Oncologia mostra que a cor da pele também interfere na jornada da mulher pelo diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Pacientes brancas fizeram a maioria das mamografias aprovadas (39%) em relação a pardas (19%) e pretas (4%). Enquanto 65% das mulheres brancas foram diagnosticadas em até 30 dias, essa proporção foi de 61% para pretas e pardas, que também apresentam mais diagnóstico avançado do que precoce em relação às brancas.

“No custo, acaba sendo maior para pretas e pardas porque o diagnóstico tem estadiamento mais avançado. A cobertura mamográfica é menor, o acesso ao exame acaba sendo inferior e, querendo ou não, menos rastreamento é menos diagnóstico precoce. A gente já tinha ideia dessa disparidade, mas o estudo mostrou isso muito bem. A parte socioeconomia foi ressaltada”, afirma a médica Juliana.

Três perguntas para Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon

Qual a importância de estudos como esse?

A gente sempre fala que clareza é poder e, quando se dá clareza, há tomada de decisões que são importantes para a causa. O Instituto Avon é investidor social no combate ao câncer de mama no Brasil e ao longo de 17 anos investiu R$ 86 milhões. Com estudos, conseguimos direcionar melhor nosso próprio investimento e ajudar o gestor público com informações claras, buscando o aprimoramento do serviço e a efetividade das práticas do cuidado com a saúde da mulher.

Ao longo desse tempo, que avaliação você faz desse cenário do câncer de mama no Brasil?

Tivemos um relatório sobre nossas unidades móveis de rastreamento mamográfico, que chegam a 232 municípios e atende 5% da população de mulheres sob risco, de 40 a 69 anos. Nesses locais, a cobertura é maior e o estadiamento ao diagnóstico é menor. Mas olhando o Brasil, a gente vê deterioração da qualidade da cobertura quanto ao diagnóstico precoce. A nossa esperança é que a maior incidência não se traduza em mais mortes.

Quais as próximas etapas para o estudo?

A gente consegue na base de dados por município ou hospital e fazer leitura analítica para ajudar os gestores públicos a entender onde estão, as principais discrepâncias e as oportunidades. O objetivo é traduzir conhecimento em políticas públicas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.