Teoria econômica funciona para prever reações de chimpanzés

Macacos agem de acordo com as previsões da racionalidade econômica quando o assunto é dividir comida

Carlos Orsi, estadao.com.br

04 de outubro de 2007 | 15h24

Modelos econômicos ainda enfrentam algumas dificuldades em dar conta do comportamento humano, mas pesquisadores do Instituto Max Planck da Alemanha encontraram um grupo que age perfeitamente de acordo com as previsões da economia clássica: chimpanzés. Quando se trata de dividir comida, esses primos do homem "certamente se comportam mais como economistas", diz o cientista Keith Jansen, um dos autores do estudo, publicado na edição desta semana da revista Science.   Jansen e colegas submeteram chimpanzés a uma versão de ultimato - um jogo experimental muito usado para testar reações como altruísmo, egoísmo e senso de justiça.   Nesse jogo, dois participantes têm de dividir um prêmio: se não forem capazes de chegar a um acordo, ambos ficam sem nada. A dificuldade está no fato de que um dos jogadores, o "propositor", só pode fazer uma oferta, e o outro, o "receptor", só tem a opção de aceitá-la ou recusá-la. Havendo recusa, os dois saem de mãos vazias.   A teoria econômica clássica prevê que o desfecho racional do jogo é o propositor oferecer o mínimo possível, e o receptor aceitar qualquer migalha: afinal, mesmo sobras são melhores que nada. Mas não é isso que acontece, ao menos entre seres humanos: propositores tendem a oferecer de 40% a 50% do prêmio, e receptores costumam rejeitar ofertas inferiores a 20%.   Esse tipo de resultado é atribuído a um senso, emocional, de justiça: pessoas não gostam de se sentir fraudadas, e estão dispostas a punir ofertas injustas, mesmo com prejuízo pessoal.   Num levantamento de testes de ultimato feito em 15 diferentes culturas e publicado em 2005, apenas duas mostraram índice zero de rejeição. Em algumas houve até rejeição de ofertas" hiperjustas", nas quais o propositor oferecia ao receptor mais que metade do bolo.   Chimpanzés, em comparação, mostram-se frios e racionais quando o assunto é partilhar uvas passas em laboratório. "Alguns economistas poderiam discutir se os chimpanzés são realmente racionais", diz Jansen, ponderando que parece correto dizer que, ao menos de no contexto da teoria econômica, esses macacos são "mais racionais" que seres humanos.   "Os resultados estão de acordo com as previsões da racionalidade, sejam os chimpanzés racionais ou não, e eles certamente se comportaram tendo em vista apenas seu interesse pessoal, sem consideração pelos outros", afirma o pesquisador.   O jogo de ultimato entre chimpanzés foi organizado de modo que os animais precisassem cooperar para ter acesso a pratos com passas. Apenas um dos macacos era capaz de alcançar a corda que puxava a prateleira com os pratos até o meio do caminho. O outro precisava concordar em puxar daí em diante para que ambos tivessem acesso à comida.   O primeiro chimpanzé, no papel de "propositor", tinha a opção de puxar uma estante que traria oito passas para si e duas para o colega, ou "receptor"; outra com cinco passas para cada um; e outra com dez passas para si e nenhuma para o receptor. O índice de rejeição da proposta 8/2 entre os chimpanzés foi de 5%, contra uma média de quase 50% para situações similares em jogos de ultimato entre humanos.   O ultimato foi realizado com diversas combinações entre as três opções de divisão, 8/2, 5/5 e 10/0. O "propositor" só pareceu ter alguma consideração pelo colega na situação 8/2 contra 10/0, com 54% das propostas dando duas uvas ao "receptor". Que, por sua vez, rejeitou 44% das ofertas de 10/0."Creio que o senso de justiça não se desenvolveu em nenhum outro animal", diz Jensen, a respeito desses resultados. "Mas essa afirmação pode desmoronar no futuro", reconhece, explicando que este foi o primeiro estudo de ultimato em outro animal que não o homem.

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