Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino
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Terapia com células-tronco contra covid-19 grave tem resultados preliminares positivos

Nove pacientes passaram pelo tratamento inédito com sucesso

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 11h00

RIO - O uso de células-tronco adultas no tratamento da covid-19 apresentou resultados preliminares animadores em casos graves de insuficiência respiratória aguda. A nova terapia está sendo desenvolvida por especialistas do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor) e já foi usada com sucesso em nove pacientes. O tratamento inédito está sendo feito com as chamadas células mesenquimais, que apresentam grande capacidade de diferenciação, se transformando em diferentes tipos de células do organismo.

"Os resultados ainda são preliminares e é preciso cautela, mas o que observamos dos primeiros pacientes que passaram pela terapia celular é animador", contou o especialista Bruno Solano, que está à frente do estudo, realizado no Centro de Biotecnologia e Terapia Celular do Hospital São Rafael, em Salvador. "Todos os pacientes estavam entubados, sob suporte ventilatório e em geral observamos em poucas horas uma melhora dos marcadores inflamatórios e nos dias seguintes, uma melhora na oxigenação."

No estudo, que começou em julho, foram avaliados diferentes esquemas terapêuticos: três pacientes receberam uma dose mais baixa de células mesenquimais, quatro deles receberam uma dose intermediária e outros três receberam uma dose alta. Os pesquisadores não observaram nenhum evento adverso grave relacionado à infusão de células mesenquimais, que foi bem tolerada em todos os casos, independentemente da dose utilizada.

Dos dez pacientes, todos com quadro grave de covid-19, necessitando de suporte ventilatório por insuficiência respiratória, cinco já receberam alta após a infusão das células mesenquimais, e os outros quatro seguem internados, mas apresentam uma evolução satisfatória; dois deles já saíram do tubo e respiram espontaneamente.

"Um dos casos que mais nos chamaram a atenção foi o de um paciente jovem, com 30 anos, que estava havia 14 dias em ventilação mecânica e já apresentava grave comprometimento pulmonar e fibrose pelo longo tempo de ventilação mecânica", contou Bruno Solano. "Mesmo assim, ele evoluiu bem após a terapia celular.”

Houve uma morte, 33 dias após a terapia celular. O desfecho foi associado a uma complicação do quadro clínico de covid-19, com uma infecção hospitalar secundária por bactéria resistente a múltiplos antibióticos.

"As células mesenquimais possuem a capacidade de, na presença de um ambiente de lesão, liberar uma série de moléculas que possuem atividade anti-inflamatória e imunomoduladora, além de estimular a regeneração e reparo dos órgãos e tecidos", explicou Solano. "Estas ações já tinham sido demonstradas em várias doenças inflamatórias, o que suscitou a sua potencial utilização nos quadros graves de covid-19."

As células foram administradas por via endovenosa, em duas aplicações com intervalo de 48 horas entre elas, em dez pacientes com pneumonia associada à falência respiratória aguda pela covid-19. Ao todo, os pesquisadores esperam recrutar 20 pacientes. Quinze deles receberão a terapia celular enquanto que os outro cinco ficarão no grupo controle, recebendo apenas o tratamento padrão.

“Acreditamos que este tratamento seja capaz de acelerar a recuperação dos pacientes, reduzir a mortalidade e encurtar o tempo de internação. Esperamos também entender melhor o mecanismo de ação das células mesenquimais", explicou Solano. "Todas estas respostas devem ser alcançadas rapidamente, em linha com a urgência que a pandemia exige.”

Novas terapias com células mesenquimais estão sendo usadas no tratamento de pacientes com covid-19 na China, Europa e Estados Unidos, também com relatos preliminares que atestam sua segurança e eficácia.

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