Terapia com células-tronco mata 8 pessoas em SP

Nos últimos cinco anos, pelo menos oito doentes de esclerose múltipla - de um grupo de 60 - morreram no Brasil em decorrência de tratamentos experimentais com células-tronco humanas. Os casos, segundo um levantamento feito pelo Estado, ocorreram em São Paulo, Ribeirão Preto (SP) e Curitiba. Com a esclerose em estágio progressivo, as vítimas acabariam morrendo de qualquer forma. Mas o fim acabou acelerado pela terapia experimental, que se baseia na destruição do sistema imunológico. Isso fez com que ficassem indefesos diante de infecções fatais. Alerta Essas mortes não chegam a ser um balde de água fria sobre a esperança de doentes com males incuráveis . Mas, diante da farta propaganda em torno de casos isolados de voluntários que responderam bem às células-tronco, servem para alertar que a nova terapia continua limitada aos laboratórios científicos, longe de ser oferecida nos hospitais. "Pode até ser no hospital, mas o doente é uma cobaia. E, como tal, corre todos os riscos de um procedimento que é experimental", explica a farmacêutica Patrícia Pranke, professora de Hematologia e Células-Tronco da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Encontradas nos ossos e no cordão umbilical, por exemplo, as células-tronco são como curingas. Imaturas, elas têm a capacidade de se transformar em diversos tecidos e, na teoria, substituir qualquer estrutura danificada do corpo humano - com novos neurônios, um paraplégico poderia andar; com novas células que produzem insulina, um diabético poderia voltar à vida normal. É daí que vem tanto frenesi. Sem alternativa Um dos doentes que não resistiram ao tratamento foi o adolescente José Tiago Nucci, de Itaquaquecetuba (SP). Após um longo período sem explicação para a falta de equilíbrio ao caminhar, chegou-se em 2001 ao diagnóstico de esclerose múltipla. Ele tinha apenas 15 anos. A doença progrediu com rapidez. Três anos mais tarde, não conseguia enxergar e estava preso à cama. A esclerose múltipla é uma doença auto-imune e degenerativa do sistema nervoso. Por causa de alterações ainda pouco conhecidas, o sistema imunológico destrói o revestimento dos neurônios - o organismo ataca a si próprio. Em 92% dos casos, a doença é controlada com drogas. Parte dos 8% restantes, sem alternativa, se apega às "células coringas". Nesse grupo, José Tiago aceitou ser voluntário num experimento no Hospital das Clínicas de São Paulo. "O que fazer com um filho de 18 anos comprometido? Ouve-se tanta coisa sobre as células-tronco. Tínhamos de tentar tudo para dar-lhe uma condição de vida melhor", conta o pai, Frednei Freire, de 46 anos. O objetivo do tratamento não é substituir os neurônios danificados - embora os cientistas também sigam nessa direção -, mas trocar o sistema imunológico com problemas por um novo, sem o defeito que provoca a reação auto-imune. As células de defesa do organismo derivam das células-tronco que ficam nos ossos. É disso que parte o tratamento. Os médicos retiram as células-tronco do paciente e, com quimioterapia, destroem todo o seu sistema imunológico. Em seguida, as células-tronco são reinseridas no organismo - caso não fossem retiradas, também seriam arrasadas pelo tratamento - e o sistema imunológico começa a ser reconstruído do zero, sem defeito. O objetivo não é curar, mas impedir que a doença continue avançando - é o que ocorre na maioria das vezes. Em alguns casos, os sintomas chegam a regredir (leia o texto acima). Risco conhecido As oito mortes ocorreram poucos dias após a destruição das células de defesa, antes que as novas já tivessem se desenvolvido. Cada doente foi vítima de uma infecção que não causa maiores problemas a uma pessoa saudável, mas pode ser fatal para quem está com o sistema imunológico zerado. No caso de José Tiago, a infecção foi uma pneumonia. A aposentada M., de 49 anos, morreu num experimento semelhante em Curitiba, em novembro. Segundo uma de suas filhas, ela foi vítima de uma bactéria do intestino que infectou o pulmão. Antes do procedimento, os doentes e as famílias são informados dos riscos e aceitam corrê-los. "Embora soubéssemos que pudesse morrer, também sabíamos que havia a chance de a doença deixar de piorar. Conhecemos gente que conseguiu sair da cadeira de rodas", diz a filha. Casos bem-sucedidos, de fato, existem, mas nenhum paciente tem a garantia de que irá fazer parte desse grupo. "Não me arrependo. Se não morresse no tratamento, ela morreria asfixiada. Já estava quase totalmente paralisada pela doença", diz a filha de M. O pai de José Tiago pensa da mesma forma: "Caso não tivéssemos feito essa opção, ele estaria hoje sofrendo, provavelmente num estado vegetativo". Procurada pelo Estado, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) não soube informar quantos experimentos semelhantes estão em andamento no País. Segundo médicos autorizados a realizar o tratamento, o índice esperado de mortalidade no autotransplante de medula óssea é de 10%. Ressaltam que o porcentual está caindo, por causa do aperfeiçoamento da técnica.

Agencia Estado,

31 de março de 2006 | 11h24

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