Efe/Science/Divulgação
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Terapia em roedor melhora sintomas de Alzheimer

Remédio usado para tratar câncer de pele mostrou eficácia na redução das placas que se acumulam no cérebro durante a doença

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo,

09 de fevereiro de 2012 | 23h10

Um remédio para câncer de pele apresentou resultados promissores no tratamento de camundongos geneticamente modificados para desenvolver uma forma de Alzheimer. Em poucos dias, os roedores recuperaram habilidades cognitivas, sociais e olfativas comprometidas pela doença.

O Alzheimer está associado ao acúmulo da proteína beta-amiloide nas células nervosas, especialmente nos neurônios responsáveis pela memória.

Na realidade, todas as pessoas produzem essa proteína, que costuma ser quebrada por processos bioquímicos. Em pacientes com a doença, no entanto, uma forma anômala da proteína beta-amiloide não sofre nenhuma degradação e acaba se acumulando no cérebro.

Muitos especialistas acreditam que esse acúmulo é tóxico para o sistema nervoso e acarreta a morte de inúmeras células - um processo progressivo e, em boa medida, irreversível. No cérebro de uma pessoa com Alzheimer, a proteína beta-amilóide forma as chamadas placas senis, descobertas pelo psiquiatra Alois Alzheimer em 1906, no cérebro da primeira paciente diagnosticada com a doença: a alemã Auguste Deter.

O estudo, divulgado ontem na versão online da revista Science, mostrou que o bexaroteno - um remédio oncológico aprovado há mais de uma década pelo FDA, agência americana de vigilância sanitária - atua diminuindo, de forma indireta, o acúmulo de proteína beta-amiloide.

O bexaroteno estimula a produção da apolipoproteína E (ApoE). Em 2008, o professor de neurociência da universidade americana Case Western Reserve, Gary Landreth, demonstrou que a ApoE facilita a degradação da proteína beta-amiloide. Landreth também é coautor do estudo publicado ontem.

Pesquisa. Nos testes com os camundongos, seis horas depois da administração de bexaroteno, os níveis de beta-amiloide caíram 25%. Depois de três dias, cerca de metade das placas no cérebro dos roedores tinha desaparecido. Os animais recuperaram, por exemplo, a capacidade de montar ninhos com pedaços de papel. Também melhorou a capacidade de perceber e reagir a odores. Nos dias seguintes, o porcentual de redução das placas foi de 75%. "Um resultado tão rápido é realmente surpreendente", afirma Paige Cramer, principal autora do estudo. "As melhores terapias já desenvolvidas até agora para camundongos só diminuíam as placas depois de meses de tratamento."

Humanos. Landreth é cauteloso ao comentar a pesquisa. "Ainda não realizamos nenhum teste clínico em pessoas", pondera o pesquisador. "Antes disso, precisamos descobrir qual é a melhor forma de administrar a droga nos próprios camundongos. Não podemos especular sobre os resultados em humanos."

Ivan Okamoto, coordenador do departamento científico da Academia Brasileira de Neurologia, também considera importante ser cauteloso quanto às esperanças. "Se der certo, ainda levará alguns anos para estar disponível", pondera. "E, no nosso país, temos problemas mais básicos para resolver até lá: cerca de 85% dos casos de Alzheimer ainda não são diagnosticados."

Para Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), a terapia só será revolucionária se evitar o próprio surgimento da doença. "É preciso impedir que as células nervosas morram", afirma o pesquisador. "Depois, o dano cognitivo é praticamente irreversível."

Estímulo elétrico no cérebro ajuda pacientes. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles descobriram que enviar uma descarga elétrica a uma parte do cérebro que tem papel crucial na memória melhora a habilidade de uma pessoa aprender o caminho em um ambiente desconhecido - e se lembrar dele.

O estudo, publicado no New England Journal of Medicine, é pequeno e muito preliminar, feito com apenas sete pacientes com epilepsia. Mas demonstrou que a estimulação cerebral profunda ajudou todos eles, mesmo os que sofriam também de problemas de memória, a percorrerem de forma mais rápida e correta uma cidade virtual.

Como o tratamento também melhorou a performance de pacientes sem nenhum sinal de demência, o estudo pode reavivar um debate polêmico: se é ético ou não aumentar as capacidades mentais de pessoas com saúde perfeita./ AP

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