Terapia popular favoreceu o surgimento de novas profissões de saúde, diz estudo da USP

Carreira de farmacêutico, por exemplo, existia há décadas, mas ganhou credibilidade com novos tratamentos

Agência USP

29 de julho de 2010 | 12h08

SÃO PAULO - Um estudo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP analisou a situação da saúde pública atual, por meio da evolução da profissão de médico e farmacêutico entre os séculos 19 e 20 e das terapias populares existentes desde então.

A terapia popular, segundo a pesquisa, abriu portas para a criação e o desenvolvimento de novas profissões na área de saúde. “O crescimento no número de especializações mostrou que, apesar de importante, a profissão médica não é capaz de atender a todas as necessidades da população”, afirma a autora da tese "Médicos e farmacêuticos na terapia popular: uma trajetória de suas profissões no Estado de São Paulo e na Inglaterra (1815-1930)", Paula Kanikadan, formada em Ciências Farmacêuticas.

A pesquisadora conta que essas profissões já existiam há décadas, mas estão ganhando maior credibilidade agora, graças à demanda por novos tratamentos. O trabalho do farmacêutico, segundo Paula, é um dos que estão cada vez adquirindo mais importância na sociedade. “Um exemplo disso são as propagandas veiculadas na televisão, que dizem para consultar não só o médico, mas também o farmacêutico”, afirma.

Além disso, a necessidade de medidas sanitárias em São Paulo reforçou a necessidade de atuação dos médicos no Estado. “Todos sabem que as epidemias da época traziam uma série de dificuldades para a população. Nesse sentido, novas regulamentações para as profissões acarretaram em mudanças nas práticas médicas. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da ciência e a urbanização contribuíam para que isso acontecesse”, diz a pesquisadora.

Paula também conta que as tentativas por parte dos médicos e farmacêuticos da época de tentar eliminar as práticas populares deram mais força às profissões tradicionais, ofuscando os métodos alternativos. Ainda assim, houve grande dificuldade para frear a produção e a manipulação de medicamentos caseiros e a prática de “conselhos médicos” por parte de leigos.

Paula diz que questões como automedicação e desaprovação de grande parte dos profissionais da saúde em relação à terapia popular foram os fatores que mais estimularam o trabalho.

Segundo ela, a 2ª Revolução Industrial foi uma das razões para incluir a Inglaterra em sua tese. “Por ter iniciado essa revolução, o país mostrou - apesar de bastante inicial - um desenvolvimento da indústria química e, posteriormente, da indústria de medicamentos.” A pesquisadora diz que esse desenvolvimento, mais tarde, influenciaria o Estado de São Paulo, que entre o fim do século 19 e o início do 20, já apresentava mudanças significativas no uso de medicamentos e nas profissões de saúde.

Ajuda mútua

Ainda hoje, apesar da resistência de profissões mais tradicionais em relação à terapia popular, existe a prática da terapia popular. “O conselho do vizinho, o uso de chás e outras práticas alternativas, ou seja, que não seguem a medicina convencional, são alguns exemplos. As ciências médica e farmacêutica andam ao lado das práticas populares de cura de doenças”, destaca.

Também há adaptações que hoje ganharam a confiança de quem adere a diferentes formas de tratamento de problemas de saúde.“Não diria que há uma evolução, mas sim uma manutenção da terapia popular. A Organização Mundial de Saúde está, cada vez mais, estimulando as práticas alternativas de cura", afirma Paula.

"No Brasil, o Sistema Único de Saúde criou uma política nacional de práticas integrativas e complementares, com destaque para a homeopatia, acupuntura, termalismo, meditações, orações, uso de plantas medicinais e fitoterápicos”, enumera a pesquisadora.

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