Terapias com células-tronco geram dilema

Cada vez mais, pessoas buscam tratamentos experimentais no exterior, mesmo sem comprovação científica

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2009 | 22h11

O potencial terapêutico das células-tronco, antes celebrado por todos, está se tornando um tormento para muitos pesquisadores. Ao mesmo tempo que acreditam nesse potencial e trabalham para que ele se transforme em realidade o mais rápido possível, cientistas e médicos se sentem cada vez mais pressionados pela ansiedade dos pacientes – que não estão dispostos a esperar mais dez anos por uma cura – e pelo surgimento de clínicas estrangeiras que, mesmo sem comprovação científica, já oferecem "tratamentos" com células-tronco para todo tipo de doenças e lesões.

 

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É uma faca de dois gumes que os cientistas brasileiros ainda estão aprendendo a manusear. Aqueles que pregam a cautela e o rigor científico são vistos como "do contra", enquanto médicos que vendem terapias experimentais e sem comprovação científica conquistam a admiração e a confiança de pacientes. O dilema veio à tona recentemente numa palestra do neurocirurgião português Carlos Lima, no último dia 24, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

A ideia era promover um debate científico sobre a eficácia de um tratamento à base de células-tronco que Lima oferece a vítimas de lesões medulares em um hospital de Lisboa. Quando dezenas de pacientes e familiares apareceram no auditório da UFRJ, porém, o foco da discussão mudou. A primeira pergunta, feita por um cadeirante ao fim da apresentação, foi emblemática: "Quando é que o tratamento chega ao Brasil?"

 

Em entrevista ao Estado, o neurocientista Stevens Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, disse que Lima não apresentou dados científicos que permitissem avaliar a eficiência da técnica, apesar dos relatos de pacientes que dizem ter se beneficiado da terapia. No dia seguinte, Rehen foi bombardeado com e-mails de pessoas indignadas, com xingamentos e críticas de que ele estava dificultando a vinda do tratamento para o País.

 

"Há um hiato muito grande entre as expectativas dos pacientes e o que a comunidade científica pode oferecer para eles", lamenta Rehen. Ele, assim como vários outros cientistas da área, recebe e-mails quase que diariamente de pessoas se oferecendo para ser cobaias de pesquisa ou perguntando sobre algum tratamento experimental oferecido em países como China, Rússia e Tailândia. "É duro ter de dar uma resposta negativa, mas como cientista, tenho a sensatez e a obrigação de dizer a verdade."

 

A verdade, segundo vários especialistas ouvidos pelo Estado, é que não há como atestar cientificamente a eficácia ou a segurança dos tratamentos vendidos atualmente com células-tronco, porque eles não seguem critérios básicos de pesquisa clínica. Por exemplo, o uso de grupos controle, para comparar a resposta de pacientes com ou sem a terapia. Sem supervisão adequada, não há nem como saber se as células injetadas são mesmo "tronco" ou qualquer outro tipo de célula, como alerta um artigo recente na revista Cell Stem Cell.

 

"Esse é o grande problema: sem os controles básicos de pesquisa clínica é impossível dizer se algo realmente funciona", diz Douglas Sipp, do centro de pesquisas Riken, no Japão, autor de um artigo sobre "turismo de células-tronco" na revista Science. Ele compara a situação à de pacientes que dizem se curar pela fé. "As pessoas dizem que melhoram, mas não há como saber se houve uma melhora clínica verdadeira ou se é só um efeito psicológico."

 

Os sites que vendem terapias com células-tronco estão repletos de relatos de vítimas de lesões medulares ou doenças degenerativas que dizem ter recuperado movimentos ou revertido sintomas. "Eu também poderia encher o site do meu instituto com relatos de pacientes, mas isso não seria ético", diz o pesquisador Antonio Carlos de Carvalho, da UFRJ e do Instituto Nacional de Cardiologia, que coordena um grande estudo clínico com células-tronco adultas para o tratamento de cardiopatias. Cerca de 500 pacientes já passaram pelo procedimento, mas é cedo para tirar conclusões. "Há uma variação muito grande nas respostas", diz Carvalho. "Alguns pacientes melhoram muito, outros não melhoram nada, e não sabemos explicar por quê. Por isso precisamos pesquisar mais."

 

Para a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, é provável que muitos dos efeitos benéficos relatados pelos pacientes que pagam para receber injeções de células-tronco não tenham relação com as células. Em vez disso, podem estar relacionados a outros componentes do tratamento – como fisioterapia ou acupuntura – ou ser resultado de um "efeito placebo" – quando o paciente melhora espontaneamente porque acha que está recebendo uma droga, mas não está. "É uma injeção de ânimo, de esperança, que deixa a pessoa revigorada", diz Mayana. "O efeito pode não ter nada a ver com a células-tronco", reforça Carvalho. "Para mim, isso é enganação. Temos uma responsabilidade muito séria de não iludir as pessoas."

 

Esperança

 

Se as clínicas não conseguem provar cientificamente a eficácia de suas terapias, os cientistas que as criticam, por outro lado, não têm como provar que elas não funcionam. Na dúvida, muitos pacientes preferem apostar no resultado positivo.

 

Foi o que fez a carioca Camila Lima, de 22 anos, vítima de uma bala perdida que a deixou tetraplégica em 1998. Em 2006, ela se submeteu ao tratamento de Lima em Lisboa, no hospital público Egas Moniz. "Desde então melhorei muito", garante ela. Camila diz ter aumentado sua percepção sensorial do corpo e recuperado alguns movimentos nas pernas. "Ninguém nunca disse que eu voltaria a andar", afirma Camila. "Só a garantia de que eu não pioraria já era suficiente para mim. A equipe me passou total confiança."

 

Sua mãe, Anna Lucia, cobra mais agilidade, cooperação e ousadia dos cientistas. "Apoiamos todas as pesquisas, mas, infelizmente, elas andam a passo de tartaruga", diz. "O paciente não pode esperar muito. O sofrimento é grande demais."

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