Prefeitura de Terra Roxa/divulgação
Prefeitura de Terra Roxa/divulgação

Terra Roxa registra chegada do coronavírus, com cinco leitos no único hospital

Primeira pessoa com o covid-19 foi a filha do secretário de saúde da cidade com 8.505 habitantes

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 05h00

O alto-falante da igreja matriz de Nossa Senhora Aparecida, que todo fim de tarde toca a 'Ave Maria', agora também transmite orientações sobre o coronavírus e pede aos moradores que permaneçam em suas casas, em Terra Roxa, na região norte do Estado de São Paulo. A cidade de 8.505 habitantes era, até esta quarta-feira, a menor do interior com caso confirmado da covid-19. Há ainda 12 casos suspeitos e um óbito em investigação, mas o único hospital da cidade, que está sob intervenção municipal, tem apenas cinco leitos para internação.

De acordo com o secretário da Saúde, Antonio Carlos Casemiro Junior, a situação só não é muito ruim porque não há pacientes internados. "Os casos mais graves, temos de levar para o hospital Nossa Senhora Aparecida, em Barretos, que é nossa referência e tem 12 leitos de UTI", afirmou. Anexo ao hospital municipal, o único pronto atendimento tem um consultório para onde as três unidades de saúde da família encaminham pessoas com sintomas.

No Estado de São Paulo, 121 cidades tinham casos confirmados do coronavírus até esta quarta-feira, mas Terra Roxa é a única com menos de 10 mil habitantes. Por ironia, a jovem de 20 anos que apresentou o vírus é filha do agente público que está à frente do combate local à pandemia, o secretário da saúde.  "Fizemos o possível para evitar a chegada da doença, mas aconteceu justamente com a minha filha, que não saiu da cidade. Ainda não sabemos com certeza como ela se infectou", disse.

Ele conta que a filha acordou com tosse e febre no dia 10 de março. Uma semana depois, os sintomas se agravaram e um exame de raio x mostrou inflamação no pulmão. A jovem é funcionária de uma clínica médica que, até fechar devido às medidas de isolamento, atendia pessoas de outras cidades. "Como só se faz exames de casos graves e ela não tinha tido contato com possíveis infectados, a gente não achava que fosse o vírus. No dia 20, depois de apresentar também diarréia, um sintoma diferenciado, fizemos o teste."

A família - Junior, a mulher e as duas filhas - entraram em isolamento. O resultado positivo só saiu depois dos 14 dias da quarentena. A jovem se recuperou. O secretário conta que apresentou sintomas parecidos antes da filha, mas sarou logo e não fez o teste. "Fui a várias reuniões da saúde em Barretos e Bebedouro, onde havia casos. Não tenho certeza de que não peguei o vírus."

Ele passou a usar o exemplo da filha para convencer os moradores a manterem o isolamento, que foi prorrogado até o dia 22. "A cidade é pequena e a maioria das pessoas não tem reserva financeira, então quer trabalhar. Temos 120 comerciantes e uns 20% nos pressionam para reabrir o comércio. Eu digo que estamos fazendo o que o estado inteiro está fazendo."

Segundo o secretário, se abrir o comércio, moradores de cidades vizinhas que estão com tudo fechado vão se deslocar para Terra Roxa. "Estamos com barreiras sanitárias na entrada e na saída da cidade, desinfetando inclusive as rodas dos veículos, mesmo assim o vírus entrou."

O clima na cidadezinha, na margem do rio Pardo, é de preocupação e medo, segundo o comerciante Alex Moreira. Todo fim de tarde, quando a 'Ave Maria' irrompe no alto-falante da igreja, ele encosta o trailer de lanches na praça. Seguindo as regras da quarentena, ele contou por telefone que atende apenas no sistema delivery, um cliente por vez. "Está tão fraco que nem preciso pedir que as pessoas mantenham distância. Já reduzi as compras de pão, hambúrguer e outros insumos. Se continuar assim, fecho e não saio mais de casa. Não vale o risco que estou correndo", disse.

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