NELSON ALMEIDA / AFP
Um passageiro, usando máscaras como medida de precaução para evitar contrair o vírus Covid-19, viaja pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em Guarulhos, São Paulo. NELSON ALMEIDA / AFP

Teste de coronavírus nos EUA retarda o monitoramento da propagação da doença

Pequeno número de casos lança dúvida sobre propagação do vírus em território americano

Carolyn Y. Johnson, Laurie McGinley, Lena H. Sun, The Washington Post

26 de fevereiro de 2020 | 13h27

Problemas com um teste criado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos limitou a capacidade de aumentar rapidamente os exames num momento em que a epidemia entra numa fase mais preocupante em outros países. Especialistas estão cada vez mais inquietos de que o pequeno número de casos registrado no país até agora seja reflexo da limitação dos testes e não da propagação do vírus.

Enquanto a Coreia do Sul realizou mais de 35.000 testes para a doença, os Estados Unidos testaram somente 426 pessoas, não incluindo aquelas que retornaram em voos especiais de evacuação. Apenas uma dezena de laboratórios municipais e estaduais podem atualmente realizar testes além dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta porque os kits do enviados pelo CDC para todo o país há uma semana e meia incluíram um componente errado.

Atualmente as diretrizes baixadas recomendam o teste para um grupo muito pequeno de pessoas - aquelas que manifestam sintomas respiratórios e que viajaram recentemente para a China ou tiveram contato com uma pessoa infectada.

Mas muitos especialistas de saúde pública acreditam que, diante das evidências de que a doença se desenvolveu e se propagou localmente em Singapura, Coreia do Sul, Irã e Itália, é o momento de ampliar os testes nos Estados Unidos.

Especialistas temem subnotificação de coronavírus nos EUA

Os especialistas temem que além dos 14 casos detectados na fiscalização dos agentes de saúde haja outras pessoas não identificadas com o vírus, e apresentavam apenas sintomas de resfriado e gripe. O que os assusta mais é que o vírus começa a se disseminar localmente em países fora da China, mas ninguém sabe se este seria o caso nos Estados Unidos porque aquelas pessoas não foram examinadas.

“Os kits de teste do coronavírus não foram amplamente distribuídos para nossos hospitais e laboratórios. Aqueles que não têm os kits precisam enviar as amostras para Atlanta em vez de realizarem o procedimento no local, desperdiçando um tempo precioso à medida que a doença se propaga”, disse o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, democrata de Nova York.

Em uma audiência no Congresso na terça-feira a senadora Patty Murray, de Washington, pressionou o secretário de Serviços Humanos e Saúde Alex Azar a dizer se o teste do CDC tinha falhas. Ele negou que o teste não funcionou corretamente.

Mas numa conversa com a imprensa quase no mesmo momento, Nancy Messonnier, diretora do Centro Nacional de Doenças Respiratórias e Imunização, agência do CDC, afirmou que estava “frustrada” com os problemas relacionados com os kits de teste e que o CDC esperava enviar uma nova versão para os departamentos de saúde dos Estados e municípios em breve.

“Acho que estamos perto”, disse ela. Acrescentou que a agência vem trabalhando o mais rápido possível no assunto, mas a prioridade é que os testes sejam precisos.

Segundo ela, atualmente uma dezena de departamentos de saúde estaduais e locais conseguem aplicar o teste embora os resultados positivos tenham de ser confirmados pelo CDC. E disse esperar que os testes feitos em laboratórios comerciais em breve cheguem online.

Messonnier afirmou que a agência vem pensando em ampliar seus protocolos para incluir pessoas que chegaram aos Estados Unidos vindas de outros países além da China, diante da rápida propagação do vírus em outros lugares nos últimos dias.

Dificuldade de realização de testes para coronavírus nos EUA

Os laboratórios públicos, exasperados com o mal funcionamento dos testes em face de uma emergência de saúde pública global, adotaram uma medida inusitada, requerendo ao FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos) permissão para desenvolverem e usarem seus próprios testes. No Havaí as autoridades estão tão alarmadas com a falta de capacidade para realizar os testes que pediram permissão ao CDC para usarem kits de teste do Japão. O diretor de um laboratório hospitalar em Boston desenvolveu um teste in loco, mas está frustrado com o fato de o seu laboratório não poder utilizá-lo sem passar por um oneroso e demorado processo de revisão, mesmo se aumentar a demanda.

“É um pedido extraordinário, mas é um período extraordinário”, afirmou Scott Becker, diretor executivo da Association of Public Health Laboratories, que está requerendo ao FDA permissão para os laboratórios criarem e implementares seus próprios testes desenvolvidos em seus laboratórios.

Em um hospital da região do Médio Atlântico, um paciente que retornou recentemente de Singapura, onde 90 casos da doença foram registrados, foi admitido no hospital com leves sintomas respiratórios. O paciente testou negativo para gripe. Como a pessoa apresentava outros sintomas, ela tinha um risco maior de uma doença mais grave se fosse uma infecção por coronavírus.

Embora os médicos suspeitassem que fosse uma infecção por coronavírus e a pessoa tenha sido tratada como se estivesse infectada e colocada em isolamento, ela não foi submetida ao teste.

“Se esta pessoa tivesse retornado da China, eles teriam feito o teste para o coronavírus”, disse o médico. O paciente se recuperou e foi liberado.

Pessoas com casos confirmados podem se registrar para exames clínicos. Para pacientes que necessitam cuidados mais intensivos em uma clínica com uma unidade de isolamento, essa clínica é reembolsada pelo governo federal pelo trabalho, disse a autoridade.

O CDC anunciou há uma semana e meia que adicionaria testes piloto à sua rede de vigilância de gripe em cinco cidades, uma medida com o fim de expandir os testes no caso de pessoas com sintomas respiratórios que não apresentam outros fatores de risco óbvios. As amostras cujo teste for negativo para gripe serão testados. Mas houve um atraso por causa de um problema não especificado com um componente utilizado no teste do CDC. Cerca de metade dos laboratórios estaduais receberam os kits com um dos componentes usados no teste do CDC. O Departamento informou que faria uma nova versão e redistribuiria os kits.

Para os especialistas de saúde pública, esses atrasos e a falta de transparência sobre o que deu errado com o teste é extremamente preocupante. “Temos mais de 700 voos mensalmente entre o Havaí e o Japão e a Coreia do Sul” onde o vírus vem se propagando, disse o governador do Havaí Josh Green, que também é médico. É improvável que o CDC permita aos laboratórios estaduais aceitarem um teste de um outro país, disse ele, “mas trata-se de uma circunstância excepcional”, acrescentou.

Em carta ao FDA, a Association of Public Health Laboratories requereu à agência permissão para criar e usar seus próprios testes.

Como foi declarada uma emergência de saúde pública, laboratórios de hospitais certificados que normalmente têm capacidade de desenvolver e validar seus próprios testes não podem utilizá-los sem solicitar uma “autorização de uso de emergência”, uma barreira importante para aplicar o teste.

“Acho que muitas pessoas, como eu, acham ser muito provável que este vírus esteja circulando em baixo nível nos Estados Unidos, no momento. Não sabemos com certeza porque não o temos visto”, disse Michael Mina, diretor da área de microbiologia no Brigham and Women’s Hospital. Segundo ele, o cenário melhor no caso dos testes de gripe é um tempo de entrega de 30 minutos, mas no momento o envio das amostras para Atlanta para serem testadas para o coronavírus significa uma espera de 48 horas.

Marion Koopmans, virologista do Erasmus University Medical Center, na Holanda, que realizou algumas centenas de testes para mais de uma dezena de países, disse que desenvolver um teste para um novo patógeno é complicado e envolve refinamento e um troca de ideias entre pesquisadores que estão constantemente aprendendo um com o outro.

“Isto é comum no surto de uma nova doença. Ninguém na realidade sabe como ela funciona, de modo que você tem de desenvolver na pressa”.

Mas com os Estados Unidos ainda lutando para aumentar sua capacidade, o teste para o coronavírus foi adicionado ao sistema de monitoramento de gripes na Holanda há duas semanas. O kit foi recentemente distribuído para doze laboratórios de diagnóstico molecular de alto desempenho na Holanda de modo que podem estar prontos para ser ampliados se a demanda aumentar.

Parte do problema nos Estados Unidos é a tensão entre os regulamentos que visam garantir um padrão de alta qualidade dos testes e a necessidade de eles serem realizados rapidamente. Nenhum teste é perfeito e com as fortes chances de se perder ou não identificar um caso, as autoridades querem se certificar de que eles sejam o mais possível acurados e validados pelos laboratórios que os administram. Mas a lentidão reflete também anos de baixo investimento na infraestrutura de saúde pública e uma tendência a desenvolver tratamentos que podem agradar mais o público.

“O sistema de saúde pública não está suficientemente aparelhado para agir rapidamente”, disse Lucina Borio, que foi diretora da área de Medical and Biodefense Preparedness Policy do Conselho de Segurança Nacional e hoje é vice-presidente da In-Q-Tel, investidor estratégico que apoia a comunidade de inteligência dos Estados Unidos. “No decorrer dos anos, devido aos recursos limitados, nós investimos mais em vacinas e terapêutica do que em testes de diagnósticos. A ideia era esta: testes não vão salvar minha vida. Mas o fato é que eles corroboram grande parte da resposta e precisam de muito mais atenção”.

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Coronavírus se desloca pela Europa e Oriente Médio; EUA se preparam para enfrentar epidemia

Centenas de casos confirmados na Itália e dezenas de novos no Irã provocam alerta mundial

The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 12h59

Novos casos do coronavírus surgiram na Europa. Dezenas de novas infecções no Irã intensificam os temores de uma propagação descontrolada do vírus no Oriente Médio. As bolsas de todo mundo caem. As autoridades de saúde nos Estados Unidos alertam que é apenas uma questão de tempo para o vírus invadir as costas americanas. Um clima político tóxico em Washington complica ainda mais o desafio de saúde pública.

Esses alertas persistentes e preocupantes provocaram nervosismo em todo o mundo na quarta-feira, 26, mesmo que a epidemia aparentemente esteja regredindo na China.

Pela primeira vez, mais casos novos foram reportados fora da China do que dentro deste país, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. O número de pessoas infectadas na China na terça-feira era de 411; no resto do mundo foi 427. O número total de pessoas com o vírus chegou agora a 80.980 no mundo todo, com a morte de três mil pessoas.

Na União Europeia, onde as fronteiras são abertas entre as nações membro novos casos foram registrados na Áustria, Croácia, França, Alemanha, Grécia, Espanha e Suíça. Muitos estão ligados à Itália, onde as autoridades vêm lutando para conter uma epidemia que já atingiu pelo menos 325 pessoas, a maioria no norte perto de Milão.

Autoridades do bloco advertiram que os países precisam fazer mais na sua preparação para novos surtos e no sentido de uma resposta mais coordenada.

Três hotéis - na Áustria, na França e nas Ilhas Canárias, na Espanha - foram fechados esta semana depois que hóspedes foram testados positivos para o vírus. As medidas para limitar o contágio diferem de lugar para lugar, mas agrupamentos de pessoas foram os primeiros a serem cancelados em cidades e vilarejos onde o vírus foi detectado.

Na Ásia, as autoridades chinesas alertaram que a queda no número de infectados pode ser apenas temporária, ao passo que dirigentes sul-coreanos ainda estão lutando para conter o maior surto do vírus fora da China. O Exército dos Estados Unidos confirmou que um soldado estacionado na Coreia do Sul foi testado positivo para o vírus.

Com as autoridades de saúde americanas se preparando para uma epidemia de coronavírus nos Estados Unidos, o governo Trump tem sido alvo de críticas de parlamentares republicanos e democratas por suas declarações contraditórias sobre a gravidade da crise, a falta de transparência e uma preparação displicente para fazer face a uma epidemia.

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Coronavírus: Veja o que já se sabe sobre a doença

Centenas de casos confirmados na Itália e dezenas de novos no Irã provocam alerta mundial

The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 12h59

Novos casos do coronavírus surgiram na Europa. Dezenas de novas infecções no Irã intensificam os temores de uma propagação descontrolada do vírus no Oriente Médio. As bolsas de todo mundo caem. As autoridades de saúde nos Estados Unidos alertam que é apenas uma questão de tempo para o vírus invadir as costas americanas. Um clima político tóxico em Washington complica ainda mais o desafio de saúde pública.

Esses alertas persistentes e preocupantes provocaram nervosismo em todo o mundo na quarta-feira, 26, mesmo que a epidemia aparentemente esteja regredindo na China.

Pela primeira vez, mais casos novos foram reportados fora da China do que dentro deste país, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. O número de pessoas infectadas na China na terça-feira era de 411; no resto do mundo foi 427. O número total de pessoas com o vírus chegou agora a 80.980 no mundo todo, com a morte de três mil pessoas.

Na União Europeia, onde as fronteiras são abertas entre as nações membro novos casos foram registrados na Áustria, Croácia, França, Alemanha, Grécia, Espanha e Suíça. Muitos estão ligados à Itália, onde as autoridades vêm lutando para conter uma epidemia que já atingiu pelo menos 325 pessoas, a maioria no norte perto de Milão.

Autoridades do bloco advertiram que os países precisam fazer mais na sua preparação para novos surtos e no sentido de uma resposta mais coordenada.

Três hotéis - na Áustria, na França e nas Ilhas Canárias, na Espanha - foram fechados esta semana depois que hóspedes foram testados positivos para o vírus. As medidas para limitar o contágio diferem de lugar para lugar, mas agrupamentos de pessoas foram os primeiros a serem cancelados em cidades e vilarejos onde o vírus foi detectado.

Na Ásia, as autoridades chinesas alertaram que a queda no número de infectados pode ser apenas temporária, ao passo que dirigentes sul-coreanos ainda estão lutando para conter o maior surto do vírus fora da China. O Exército dos Estados Unidos confirmou que um soldado estacionado na Coreia do Sul foi testado positivo para o vírus.

Com as autoridades de saúde americanas se preparando para uma epidemia de coronavírus nos Estados Unidos, o governo Trump tem sido alvo de críticas de parlamentares republicanos e democratas por suas declarações contraditórias sobre a gravidade da crise, a falta de transparência e uma preparação displicente para fazer face a uma epidemia.

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Ministério da Saúde confirma 1º caso de coronavírus; há 20 outros casos suspeitos

Medidas de controle e prevenção continuam as mesmas; os casos suspeitos estão espelhados em Paraíba (1 caso), Pernambuco (1), Espírito Santo (1), Minas Gerais (2), Rio de Janeiro (2), São Paulo (11) e Santa Catarina (2)

Mateus Vargas e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 12h07
Atualizado 01 de abril de 2020 | 14h44

BRASÍLIA - O Ministério da Saúde confirmou na manhã desta quarta-feira, 26, o primeiro caso de coronavírus no Brasil, como havia sido antecipado na terça, mas informou que as medidas adotadas de vigilância e controle devem continuar as mesmas que já vinham sendo adotadas, uma vez que o País já havia decretado estado de emergência em saúde pública de interesse nacional. Há outros 20 casos suspeitos.

Em coletiva à imprensa, o ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou que neste momento está sendo feito um trabalho de mapeamento para identificar todos os passos e contatos deste primeiro paciente.

O homem, de 61 anos, ficou na Itália entre 9 e 20 de fevereiro. Ele chegou a São Paulo no dia 21 vindo de aeroporto Charles Charles de Gaulle, em Paris, sem sintomas, como tosse, febre ou gripe. No domingo, ele fez uma reunião familiar com 30 pessoas e foi quando começou a sentir os primeiros sintomas; na segunda-feira, 24, ele procurou o Hospital Albert Einstein.

“Em função do nexo com a Itália, o pronto-atendimento teve padrão de excelência. Coletou o material. E ao confirmar que era positivo, fizemos a contra-prova, por controle, mas já adotamos todas as medidas de prática de atenção da saúde”, afirmou Mandetta. O ministro elogiou a rapidez com que o Instituto Adolfo Lutz confirmou a contaminação em apenas algumas horas.

“Mudamos a definição de casos (para incluir mais países em que a origem seria suspeita de risco) às 17h30 da segunda e ele procurou o Einstein às 19h30”, disse Wanderson Kleber de Oliveira, da Secretaria de Vigilância em Saúde. Segundo ele, os 20 casos suspeitos estão espalhados por: Paraíba (1 caso), Pernambuco (1), Espírito Santo (1), Minas Gerais (2), Rio de Janeiro (2), São Paulo (11) e Santa Catarina (2). Já foram descartadas 59 suspeitas

Desses 20, 12 viajaram da Itália, 2 da Alemanha, 2 da Tailândia, um da China e um da França. Um dos casos suspeitos é por contato com o indivíduo que foi confirmado e outro por contato com um suspeito. "Isso mostra que tivemos velocidade para se adaptar as novas definições durante o carnaval. O sistema de saúde está em alerta total", afirmou Oliveira.

Procurada pelo Estado, a assessoria de imprensa da Latam divulgou pela manhã uma nota em que dizia que foi "notificada pela Anvisa sobre o caso mencionado" e tinha passado "informações solicitadas pelas autoridades competentes – incluindo os detalhes do voo, da tripulação e a lista oficial de passageiros". Pela tarde, a assessoria de imprensa retificou a informação e disse que "errou ao informar que a empresa foi notificada pela Anvisa sobre o tema". "A Latam reforça que não foi notificada pela Anvisa sobre esse caso."

Este é o primeiro caso na América Latina.  Segundo o ministro, a confirmação do primeiro caso aumenta a vigilância e os preparativos das autoridades para atendimento no País. “O status sanitário não muda porque já tínhamos adotados as medidas dias atrás. É uma síndrome gripal, mais grave nas pessoas de mais idade. Os jovens são muito poupados”, disse o ministro. 

“Entendo a preocupação da Itália, porque lá tem uma população de muitos idosos. Aqui vamos ver agora como o vírus vai se comportar em um país tropical, em pleno verão. É um vírus novo. É um vírus novo. Pode manter o padrão que já vem se apresentando no hemisfério norte e agora aqui no sul.”

De acordo com Mandetta, pessoas que estavam no mesmo voo que o paciente confirmado e sentados perto dele estão sendo contactadas pela Anvisa para que fiquem atentas a eventuais sintomas como tosse e febre. Caso apresentem esse quadro, mesmo que eles não tenham vindo dos países que estão sob alerta, devem se comunicar com as autoridades de saúde. São considerados de interesse os 16 passageiros que estavam nas duas fileiras da frente ou ao lado do passageiro. 

Pessoas que tiveram contato com o paciente também serão monitoradas. "A partir daí (da confirmação da contaminação) começa um trabalho de localização de quais são os contatos que ele teve. Contatos próximos, como a esposa, e os eventuais, que são as pessoas que ficaram em alguns momentos com esse paciente", afirmou em entrevista na qual detalhou como foi feita a identificação.

Todos que tiveram na reunião familiar no domingo já estão sendo procurados. Mandetta divide os suspeitos entre os com contato próximo, como a esposa, que vive com ele, e os de contato eventual. Ele estima que podem chegar a 60 pessoas o total que serão contactadas. Isso não significa, porém, que todos podem ter contraído a doença. Em média, no mundo, cada pessoa que foi infectada contaminou somente outras 2 ou 3, pontuou o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo dos Reis. 

Cuidados

Após a confirmação, o Ministério da Saúde reforçou medidas anteriormente anunciadas pela pasta. Entre as ações, estão aquisição de máquinas e insumos para unidades de saúde, aluguel de 1 mil leitos de cuidado intensivo caso haja necessário e orientação em aeroportos. 

"Com certeza vamos passar por essa situação aguardando, com investimento em pesquisa, ciência e clareza de informação. A população terá todas as informações que sejam necessárias para que cada um se organize e tome as devidas precauções", disse Mandetta. 

Lavar as mãos constantemente continuam sendo as medidas mais indicadas para se prevenir. Quem sentir os sintomas deve usar máscaras e evitar andar em transporte público. 

Mandetta afastou a possibilidade de fechar fronteiras ou restringir a entrada e saída de pessoas no Brasil após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no País. "Não tem como bloquear as pessoas. Isso não tem eficácia", disse. As ações estarão voltadas para a orientação de pessoas que viajaram para países com casos monitorados da doença. 

"Mundo não tem fronteira. Perguntaram: Por que não fecha? Não tem eficácia isso aí. É uma gripe, mais uma que o mundo terá de enfrentar", enfatizou Mandetta. 

Questionado sobre se brasileiros deveriam cancelar viagens para locais onde está ocorrendo a transmissão da doença, Mandetta disse que “vale a regra do bom senso”. Para ele, se a viagem não for necessária, dá para esperar para ver como a situação vai se comportar. “Mas não podemos parar a vida porque há uma gripe, uma síndrome respiratória. Daqui a pouco o Brasil pode ter casos (de transmissão) sustentados e aí tanto faz estar aqui ou lá”, disse o ministro.

Para ele, quem tiver realmente necessidade de ir, vá com os cuidados de higiene recomendados. “Sabendo que é uma gripe e que na grande maioria dos casos, os que pegam evoluem muito bem, obrigado e saem depois e vivem sua vida como se nada tivesse acontecido.” Ele defende que o que ocorre é uma "infodemia", epidemia de informações que estão gerando "ansiedade e insegurança."

Com o anúncio no Brasil e um caso na Argélia, a doença já está nos cinco continentes. “Logo mais o Organização Mundial da Saúde deve anunciar pandemia, aí não tem mais nexo de origem. A trasmissão passa a ser sustentado. Mas hoje ter essa lista ainda nos ajuda a construir raciocínio de vínculo epidemiólogico quando chegam os casos suspeitos.”

No mundo, os dados apontam para 80.239 casos confirmados e 2.700 mortes, ou seja, um índice de letalidade de 3,4%. Fora da China, o porcentual é de 1,4%. 

Oliveira afirmou que há uma tendência de estabilização dos casos na China, onde teve início a epidemia, e um "número expressivo de pessoas se recuperando da doença".

Insumos chineses

Mandetta manifestou preocupação com uma possível redução no fornecimento de insumos do setor de saúde produzidos na China. A epidemia do novo coronavírus aumentou a demanda por materiais como imunoglobulina e máscaras no país asiático, epicentro da doença e ao mesmo tempo fornecedor desses produtos para o resto do mundo. 

"(A situação) preocupa porque o mundo passou a ter a China como supplier (fornecedor). Estamos trabalhando como nossa indústria para que se possa abastecer", disse. A imunoglobulina, destacou, é um dos fatores de preocupação, mas há fornecedores em outros países para os quais o País pode recorrer.

No caso de máscaras, há uma forte demanda na própria China, o que poderia comprometer o abastecimento do produto em outros países. "Estamos vendo como abastecer com sustentabilidade o nosso país", declarou Mandetta. 

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Em dois dias papéis de empresas brasileiras perdem 9% em Nova York

Maiores perdas foram registradas em setores ligados a commodities, os mais afetados pela preocupação com o avanço do coronavírus

Marcio Rodrigues, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 11h06

Os papéis brasileiros negociados em Nova York, por meio de American Depositary Receipt (ADR), tombaram nos últimos dois dias, segunda, 24, e terça, 25 - período em que os mercados no Brasil ficaram fechados por causa do carnaval -, sobretudo os ligados a commodities, os mais afetados pela preocupação com o avanço do coronavírus.

O principal destaque negativo foi a Vale, grande exportadora de minério de ferro para a China e cujo ADR cedeu 9,63% até terça-feira. Na sequência, aparecem os ADRs da Petrobrás, que recuaram 9% no período.

Os ADRs ainda não voltaram a ser negociados nesta quarta-feira, 26, mas tais perdas dão uma ideia da intensidade do movimento que os ativos brasileiros devem experimentar na reabertura dos negócios na B3, às 13h.

Ainda entre as empresas mais afetadas, aparecem siderúrgicas: Usiminas registrou perdas de 8,84% em dois dias, enquanto o ADR da Gerdau cedeu 8,22%. Outra grande exportadora de matéria-prima para a China, a Suzano viu seu ADR recuar 6,29%, enquanto o papel da Embraer negociado em Nova York perdeu 5,50%.

Ainda entre papéis com peso relevante no Ibovespa, o ADR do Bradesco caiu 4,97% desde sexta-feira, enquanto o do Itaú perdeu 4,33%.

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