Testes de substâncias contra aids serão realizados em 2010

Foi o que disse a Fiocruz no dia do anúncio de três novas substâncias promissoras contra a doença

Fabiana Cimieri, especial para o Estado,

29 de agosto de 2008 | 18h58

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, anunciaram nesta sexta-feira, 29, a descoberta de três substâncias encontradas em algas marinhas que apresentaram resultados promissores como anti-retrovirais para o tratamento da Aids e germicida de uso vaginal, que poderia prevenir a doença. Os nomes estão em sigilo porque ainda não foram patenteados. Os testes clínicos para o microbicida devem começar em 2010 e demoram, na melhor das hipóteses, quatro anos para serem concluídos. Serão realizados na África, porque precisam ser testados numa população com alto índice de infecção.   Veja também:  Fiocruz descobre novas substâncias para o combate à aids   Em laboratório, essas micromoléculas se mostraram eficazes em inibir a replicação do HIV e, ao contrário de outros anti-retrovirais, apresentaram um nível muito baixo de toxicidade. A mais promissora delas obteve 98% de eficácia com uma dose extremamente reduzida. Essa substância está entre os 30 candidatos aceitos pela Aliança para o Desenvolvimento de Microbicidas, organização internacional financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates.   Para os anti-retrovirais, será preciso mais tempo. Os pesquisadores dependem de um financiamento de R$ 10 milhões para começarem os testes com animais, indispensável para a aprovação de medicamentos de uso oral ou injetável. O valor é baixo, se levado em conta que o País economizaria de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões por ano com a compra de anti-retrovirais. Atualmente, com exceção do AZT, dos 17 medicamentos que compõe o coquetel anti-Aids, todos os outros são importados ou produzidos com insumos do exterior.   "É uma nova alternativa para o arsenal terapêutico, sobretudo para casos de resistência aos medicamentos já existentes", explicou o imunologista Luiz Roberto Castello Branco, que coordena o grupo , que reúne pesquisadores da Fiocruz, da Fundação Ataulpho de Paiva e da Universidade Federal Fluminense.   "Apoiamos financeiramente com uma parte pequena, mas temos interesses de acompanhar mais e estimular parcerias que fomentem o financiamento", disse a representante do Programa Nacional DST/Aids, Cristina Possas.   Segundo Castello Branco, o objetivo inicial era desenvolver um microbicida que as mulheres pudessem usar sem o conhecimento do parceiro. O crescimento do número de casos entre pessoas do sexo feminino e que vivem em união estável é alarmante em países africanos e no Brasil.   Como não existem perspectivas de que uma vacina contra a Aids seja descoberta em menos de 10 anos, pesquisadores do mundo todo começaram a pensar em formas de prevenir a doença. Há vários estudos com microbicida em andamento, feitos a partir dos anti-retrovirais já existentes, mas nenhum deles ainda chegou ao mercado.   Para chegar às três substâncias que se revelaram capazes de inibir a replicação do HIV, os pesquisadores chegaram a analisar 22 micromoléculas diferentes. A alga mais promissora é encontrada em toda a costa brasileira. "Se os testes forem positivos e esse princípio ativo chegar ao mercado, precisaríamos de muitas algas e poderíamos criar um problema ecológico, por isso já estamos tentando sintetizá-lo em laboratório e os testes clínicos já devem ser feitos com o fármaco, e não com a planta", disse a pesquisadora da UFF Izabel Paixão.   Cada uma das matérias-primas age de uma forma diferente, mas todas elas atuam na transcriptase reversa, enzima que ajuda na replicação do retrovírus, ou são inibidoras de protease (bloqueiam a atividade biológica da enzima protease do HIV, fazendo com que se encerre a reprodução do vírus). A substância mais promissora demonstrou eficácia nessas duas fases, além de ser inibidora da morfogênese do vírus, característica que ainda não foi observada em nenhum do anti-retrovirais existentes. Isso significa que, ainda que o vírus consiga se replicar, ele deixa de ser infeccioso.   "O Instituto Oswaldo Cruz foi o primeiro a isolar o vírus da Aids, em 1987, e os avanços que anunciamos sobre as substâncias candidatas a anti-retrovirais são um passo importante na meta de gerar conhecimento básico aliado à inovação científica, com impactos para a saúde pública", disse a diretora do IOC, Tânia Araújo Jorge.

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