Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Testes rápidos em massa no DF podem gerar resultados falsos e confundir população

DF fez 31.187 testes rápidos de dia 21 a 30 de abril no sistema 'drive-thru' em dez locais e teve cerca de 179 diagnósticos positivos.

Mateus Vargas e Gabriela Biló, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 12h00

BRASÍLIA - A estratégia de teste de coronavírus em massa do Distrito Federal pode gerar resultados errados, confundir a população e não servir para diagnósticos individuais nem a pesquisas epidemiológicas, dizem especialistas. Apesar de a secretária de saúde local afirmar que indica o exame rápido apenas a casos que mostram sintomas da doença há pelo menos sete dias, o Estado ouviu pessoas que realizaram o procedimento sem receber esta recomendação.  

O DF fez 31.187 testes rápidos de dia 21 a 30 de abril no sistema “drive-thru” em dez locais e teve cerca de 179 diagnósticos positivos. O analista de marketing Roberto Silveira recebeu exame negativo na semana passada. Antes do teste, não foi questionado sobre sintomas. Ele sentia desconforto há alguns dias. Com resultado em mãos, mas sem orientação sobre o que concluía o exame, Silveira foi às redes sociais perguntar a um médico se poderia se sentir seguro. Ouviu que não.

O Estado recebeu relatos similares de outras pessoas que preferiram não se identificar. Elas foram encontradas pela reportagem comemorando resultados negativos de exames pelas redes sociais.

Especialistas afirmam, porém, que não há razão para celebrar um exame negativo obtido por teste rápido. O produto detecta anticorpos contra a covid-19, que surgem após alguns dias de enfrentamento do corpo contra a doença. Ou seja, um resultado negativo de exame feito sem critério não significa que a pessoa não está infectada. Mesmo o exame positivo também não seria confirmatório.

Análise encomendada pelo Ministério da Saúde sobre testes doados pela mineradora Vale mostra que até 75% dos diagnósticos negativos podem estar errados, se aplicados no começo dos sintomas.

A própria Secretaria de Saúde do DF reconhece que os resultados não são definitivos, mas não responde sobre qual é o objetivo do teste em massa. O governador Ibaneis Rocha (MDB), no entanto, já disse que pretende usar os dados para balizar decisões sobre afrouxar o não o isolamento social na região.

Ibaneis tem se alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, defensor do fim da quarentena, mas decidiu adiar a reabertura do comércio de 3 de maio para ao menos o dia 11 do mesmo mês.

Para o professor de infectologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto Benedito Fonseca, exames no sistema "drive-thru" só seriam interessantes se testes RT-PCR fossem utilizados, como ocorreu na Coreia do Sul. Tido como de "padrão ouro", o produto detecta o RNA do vírus. É mais preciso, mas tem preço maior e leva mais tempo para entregar o resultado do que testes rápidos.

"Sou contra uso indiscriminado do teste rápido, como em drive-thru. Acho que não traz nenhuma informação", disse Fonseca. Ele afirma que o produto seria útil para inquérito epidemiológico, por exemplo, que identifica em que locais a doença circula e quantas pessoas podem estar infectadas. "Precisa definir uma amostra, fazer coletas por todos os bairros da cidade, de maneira que tenha ideia depois de onde está realmente maior o número de infectados", declarou.

A microbiologista e pesquisadora da USP Natalia Pasternak disse que "assusta" notar pessoas comemorando resultados negativos obtidos com testes rápidos. "Estão equivocadas sobre o que o teste mede. Interpretando como ‘não tenho o vírus, estou livre', quando essa pessoa pode estar contaminada e transmitindo", afirmou.

Para Pasternak, ainda não é o momento ideal para usar o produto sequer para pesquisas. "O melhor é esperar a curva de casos estabilizar. Se aplica no começo , o seu erro vai ser maior. Pode acabar superestimando quantas pessoas têm anticorpos", disse ela.

Fonseca realiza análises laboratoriais para gestores do SUS sobre qualidade destes testes. Ele recomendou ao governo do Estado de São Paulo que o produto seja usado para, além de pesquisas, análises de pessoas que tiveram contato com doentes ou em profissionais de saúde. "Se deu positivo, (e cumpriu período de isolamento) pode liberar esse profissional para voltar para força de trabalho."

O governo do DF chegou a afirmar, no início do período de teste em massa, que media a temperaturas com câmera térmica para apenas aplicar o exame em quem apresentava febre. Algumas pessoas que fizeram o teste, porém, disseram não ter visto a ferramenta. Profissionais que aplicam o produto em Brasília reconheceram que vários assintomáticos buscam locais de coleta de amostras. Alguns chegam a retornar dias mais tarde para refazer o teste. O governo local passou a agendar os exames pela internet.

Para Pasternak, a angústia pela pandemia leva pessoas e governos atrás de "resposta rápida e fácil". "Em ciência essa solução não existe", afirma.

Especialistas apontam ainda preocupação com a qualidade dos testes rápidos. Pasternak afirma que produtos desse tipo para diagnóstico de HIV, por exemplo, levaram anos para serem desenvolvidos, enquanto há diversos já registrados no Brasil para a covid-19.

Testes rápidos aprovados em massa pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) têm apresentado sensibilidade baixa, de cerca de 60% a 70%, segundo Carlos Eduardo Ferreira, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial. “Ou seja, pelo menos 30% dos testes ainda podem dar falso negativo. Nos primeiros dias de sintomas, a chance de falso negativo é ainda maior." A partir do 14º dia, a chance de acerto é ainda maior, tempo em que normalmente os sintomas já desapareceram.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também é cautelosa sobre teste rápido. "Teste rápido para fazer diagnóstico é absolutamente contraindicado. É sim (recomendado) para, depois, procurar na população quem já tem anticorpo contra o vírus. Para fazer estudo, sim, é válido", disse ao Estado o médico e vice-diretor da Organização Pan Americana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa.

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