TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO - 24/04/2020
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Testículo é ‘reservatório viral’ do coronavírus e saúde do homem é impactada; Entenda

Coronavírus permanece mais tempo nos testículos e se replica no órgão, segundo estudo da UFMG. O objetivo dos pesquisadores era descobrir se a doença poderia afetar a reprodução

Isabela Moya, especial para o Estadão

18 de março de 2022 | 10h00

A infecção pela covid-19 severa pode impactar a saúde reprodutiva masculina, de acordo com um estudo do Laboratório de Biologia Celular do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. Apesar de ainda serem necessárias mais pesquisas para esclarecer as consequências exatas da doença na fertilidade humana, o trabalho mostrou que o Sars Cov-2 se replica no testículo humano e que o órgão é uma espécie de "reservatório viral", onde o vírus fica ativo por mais tempo que em outras partes do corpo.

O estudo foi feito entre janeiro e março de 2020 e analisou os testículos de 11 indivíduos, de diferentes idades, não vacinados e que morreram de complicações das covid-19. O artigo ‘Sars-CoV-2 infects, replicates, elevates angiotensin II and activates immune cells in human tests', que contém os principais achados da pesquisa, ainda não foi certificado por revisão por pares e, portanto, ainda não deve orientar a prática clínica. Atualmente, ele passa por revisão na revista Human Reproduction.

O objetivo dos pesquisadores era descobrir se a covid-19 poderia afetar a reprodução, investigando se pacientes que tiveram a forma severa da doença – casos em que a pessoa precisou ser internada – estavam apresentando alterações testiculares, e identificar se havia infecção viral no testículo. "Conseguimos mostrar que o vírus estava presente no testículo dos 11 pacientes", afirma Costa, doutor em Biologia e um dos coordenadores da pesquisa junto à pesquisadora Samyra Lacerda e ao urologista Marcelo Horta Furtado.

Sobre a quantidade de indivíduos analisados, o pesquisador afirma que "apesar de ser uma amostragem limitada, as técnicas utilizadas foram bastante sensíveis e o grupo conseguiu extrair bastante informação do material". "E os dados de outros grupos de pesquisa acabam reforçando os nossos achados", diz.

O estudo observou que as células que dão origem aos espermatozóides estavam muito infectadas, o que é preocupante, segundo o Costa, porque levanta a possibilidade de encontrar o vírus no sêmen. "É muito cedo para falar sobre transmissão sexual do vírus, porque isso depende também de fatores femininos, mas temos que lembrar quem trabalha em clínicas de fertilização assistida manipula sêmen de pessoas que se recuperaram, então existe essa preocupação de contaminação", explica, reforçando que o tema ainda está "em aberto" e que mais estudos são necessários para confirmar a hipótese. 

Além disso, a presença do vírus no testículo por mais tempo do que em outras partes do corpo humano – tornando o órgão um "reservatório viral" – se explica pelo fato do testículo ser um "ambiente mais imunossuprimido", explica o pesquisador. Vírus causadores de outras doenças como caxumba, HIV, zica e hepatite também permanecem por mais tempo no órgão.

"Atualmente, a recomendação é esperar de sete a dez dias [em isolamento] para o vírus sair do corpo, mas no estudo vimos um paciente que tinha sido infectado há 26 dias e o vírus ainda estava presente no testículo", diz Costa, explicando que a descoberta não significa que o protocolo orientado pelo Ministério da Saúde esteja errado. "Esses pacientes estavam com a forma severa da doença, e o protocolo utilizado se aplica mais para as formas moderada e leve. E essa recomendação é considerando o sistema respiratório superior."

O estudo concluiu também que o Sars Cov-2 estava se replicando no testículo, o que poderia aumentar a carga viral do paciente, e que a doença causou alterações no órgão como fibrose, hemorragia, inflação e perda das células que dão origem aos espermatozoides, além da inibição das células que produzem testosterona, gerando uma redução de até trinta vezes do hormônio nos pacientes com covid-19 severa.

"Os nossos dados são um alerta para a possibilidade de um distúrbio relacionado à fertilidade masculina em casos severos da doença, mas não sabemos se é um distúrbio permanente ou transitório", afirma Costa. "Outros estudos mostram que, depois de três meses, os padrões seminais estão se restabelecendo, ou seja, tudo leva a crer que essas alterações testiculares estão refletindo na quantidade de espermatozoides, e obviamente o número de espermatozóides é crítico para o sucesso reprodutivo", complementa.

Para Costa, estudos como o que ele coordenou são fundamentais para o desenvolvimento de ferramentas antivirais. "Temos que desenvolver terapias antivirais pra esses órgãos que podem atuar como reservatórios, onde geralmente existe uma dificuldade de atuação de alguns medicamentos", explicando que o desenvolvimento de biotecnologias associadas aos medicamentos antivirais seriam uma opção interessantes para promover a "limpeza do vírus no corpo de maneira uniforme".

Os pesquisadores defendem a importância da vacinação e reforçam que não há pesquisas que demonstrem impactos da vacina sobre os órgãos sexuais. O estudo da UFMG foi realizado com pacientes não vacinados, quando ainda não havia imunizante disponível. "Existem, inclusive, alguns trabalhos publicados recentemente nos Estados Unidos que demonstraram que a vacinação não tem afetado a fertilidade", ressalta.

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