Tetraplégico move objetos apenas com o poder do cérebro

Um experimento publicado hoje por pesquisadores nos Estados Unidos mostrou que é possível para uma pessoa tetraplégica operar aparelhos eletrônicos - como uma mão robótica ou o cursor na tela de um computador - apenas por meio de comandos cerebrais. O estudo é destaque de capa da revista Nature, e aparece como um importante passo para o desenvolvimento de neuropróteses - próteses controladas pelo cérebro - que poderão, um dia, devolver a capacidade motora a pessoas deficientes. O artigo traz resultados clínicos de um único paciente: um homem tetraplégico de 25 anos que teve a medula espinhal cortada por um ferimento a faca, em 2001. Ele teve um chip de 4 milímetros, com cem minúsculos eletrodos, implantado na superfície de seu cérebro. O chip estava ligado a um portal externo na superfície do crânio, que conectava seu cérebro a um elaborado aparato de computadores. Associado a um software especial, o esquema permitia capturar e interpretar os comandos cerebrais do paciente, transformando-os em comandos digitais que podiam ser usados para controlar uma mão robótica ou um mouse virtual - ainda que de forma bastante rudimentar. O paciente foi capaz de abrir e-mails e controlar o volume de uma televisão. A tecnologia, chamada BrainGate, está sendo desenvolvida por cientistas da empresa Cyberkinetics e de várias universidades americanas, como Brown e Harvard. "O próximo passo seria miniaturizar o sistema para que possa ser transportado, por exemplo, em uma cadeira de rodas", disse ao Estado Leigh Hochberg, neurologista do Massachusetts General Hospital e autor principal do estudo. Por enquanto, o mais importante, segundo ele, foi a demonstração de que os impulsos motores são preservados no cérebro e podem ser interpretados por um computador para controlar mecanismos externos. Críticas - Apesar do destaque na Nature, o estudo foi considerado um "relatório de fracasso" pelo neurobiólogo brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade de Duke, que ficou conhecido mundialmente nos últimos anos por fazer com que macacos controlassem braços robóticos com o cérebro. Do ponto de vista científico, segundo ele, os resultados são extremamente limitados e poderiam ter sido obtidos a partir de técnicas não invasivas já disponíveis, como controle ocular ou sensores de língua - sem precisar submeter o paciente a uma cirurgia arriscada. "Eles não acrescentaram nada ao que já sabemos", disse. Para Nicolelis, o estudo só ganhou destaque na Nature por questões comerciais e de divulgação - tanto da revista quanto da Cyberkinetics.

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