Arquivo Pessoal / Solange Marques
Solange Marques teve dengue e ficou sete dias de cama Arquivo Pessoal / Solange Marques

'Tive medo de dormir e não acordar mais', diz vítima da dengue

Operadora de telemarketing e moradora de Sorocaba, Solange Marques ficou sete dias de cama; pai, que não morava no mesmo bairro, também ficou doente. Dados do Ministério da Saúde indicam aumento de 600% nos casos da doença.

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 15h43

SOROCABA - A operadora de telemarketing Solange Fabrício Marques, de 32 anos, ficou sete dias de cama depois de pegar dengue, em Sorocaba, interior de São Paulo. “Foi muito forte mesmo, achei que ia morrer. Dava um sono incontrolável, mas eu tinha medo de dormir e não acordar mais”. Ela conta que os sintomas apareceram em maio, quando começou a sentir dores nas articulações, moleza no corpo e “vontade de não fazer nada”.

Solange passou por consulta no posto de saúde próximo do bairro onde mora, o Parque Esmeralda, na zona oeste da cidade, e recebeu o diagnóstico de dengue. “Estava desconfiada, pois já tinha febre alta, as dores nas pernas e nos braços ficaram mais intensas, doíam os ossos e eu não conseguia ficar em pé. Minha mãe precisava me ajudar para ir ao banheiro. Ela chegou a me levar carregada e me dava banho”, conta.

Logo apareceram bolinhas vermelhas no corpo e, no final da doença, ela passou a sentir muita coceira. “Aí, o sono sumiu. Era tanta coceira, principalmente nos pés e na palma das mãos que eu não conseguia dormir e ficava de madrugada no banheiro, lavando o corpo com água fria.” Durante todo o período, ela tomou soro para hidratação e controlou a febre com antitérmicos. “Não adiantava muito, tive que esperar o ciclo da doença terminar.”

A operadora disse que os agentes da saúde foram à sua casa, mas não encontraram focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. “Eles examinaram as garrafas vazias, alguns vidros, até o reservatório da geladeira e não tinha nem larva. O Aedes voa, pode ter vindo de alguma casa vizinha.”. 

O pai de Solange, o locutor Elieser Fagundes Marques, de 52 anos, que na época não morava na mesma casa, também pegou dengue um mês depois. “Fiquei tão ruim que, quando chegava gente, não conseguia me levantar para abrir a porta.” Ele disse que passou a tomar muito cuidado para não correr o risco de pegar de novo. “Se a gente volta a ter, fica mais grave. Fico de olho em possíveis focos do mosquito. Não dá para brincar com a dengue”, afirmou.

Vítima fatal

A família do comerciante Miguel Hernandes, que morreu vítima da dengue no dia 23 de abril deste ano, em Bauru, interior de São Paulo, ainda não se conformou com a perda. Ex-secretário municipal e ex-dono de um bar famoso na cidade, Miguel tinha 68 anos e teve a forma hemorrágica da dengue. A professora Luciene Sierra Maximino, irmã da esposa de Miguel, conta que o cunhado tinha muito cuidado com a doença. “Na época tinha muita dengue no bairro (Jardim Europa) e ele vivia chamado a atenção da gente, dizendo 'olha, ali pode ter o bicho'. Quando meu filho Rafael pegou dengue, algum tempo antes dele, o Miguel chegou a dizer que a culpa era do pote de água do cachorro.”

Luciene contou que Miguel começou a reclamar de dores nas pernas e no corpo no domingo, mas não achava que era dengue. “Na quarta-feira, ele teve um desmaio e a esposa chamou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Na UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) detectaram que ele estava com as plaquetas baixas e recomendaram a internação. Na quinta, ele foi direto para a UTI do Hospital São Luiz, já no soro.” Segundo ela, o quadro dele foi só se agravando. “Eu, meu marido a esposa e os filhos íamos todo dia ao hospital e a gente via que ele estava ruim. Por fim, acabou falecendo no dia 23 de abril.”

A morte causou repercussão na cidade. Miguel havia sido dono do Mar Marisco, um restaurante de frutos do mar famoso nas décadas de 1980, 90 e no início dos anos 2000. Na prefeitura, ele exerceu o cargo de secretário das Administrações Regionais. Além da esposa, ele deixou dois filhos jovens. “Foi um baque para toda a nossa família. Ele tinha 68 anos, mas era um homem ativo, inteligente, sempre bem disposto. A gente vai superando com muita união, mas ninguém se conforma ainda. Lembro que, numa das visitas, no hospital, ele disse: ‘pois é, o bicho me pegou’. A gente tem de aceitar, mas não se conforma”, disse Luciene.

Dados divulgados nesta quarta-feira, 11, pelo Ministério da Saúde, mostram um avanço da doença no país. De janeiro até 24 de agosto, foram registrados 1,4 milhão de casos, seis vezes mais do que o registrado no mesmo período do ano passado (205.791). Pelo menos 14 Estados estão em situação de epidemia. 

 

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Casos de dengue no País aumentam 600%, com 591 mortes

Houve crescimento de outras doenças transmitidas pelo 'Aedes', como zika e chikungunya; Minas registrou mais ocorrências

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 10h04
Atualizado 12 de setembro de 2019 | 12h40

BRASÍLIA - A dengue voltou a avançar no País. De janeiro até 24 de agosto, foram registrados 1,4 milhão de casos, seis vezes mais do que o registrado no mesmo período do ano passado (205.791). Pelo menos 14 Estados estão em situação de epidemia. Em Minas Gerais, o índice é de 2,2 mil casos a cada 100 mil habitantes. Apenas Amazonas e Amapá apresentaram redução de registros em relação ao ano passado. 

Zika e chikungunya, também doenças transmitidas pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado, seguiram a mesma tendência. De acordo com Ministério da Saúde, casos de chikungunya subiram no período 44%, passando de 76.742 e para 110.627. A infecção por zika, por sua vez, passou no período de 6.669 para 9.813. 

A explosão de casos foi acompanhada pela elevação expressiva de mortes. Somadas, as três doenças provocaram 650 óbitos (591 por dengue, 57 por chikungunya e  dois por zika). É como se 2,7 pessoas morressem por dia em decorrência das infecções, todas evitáveis se o País tivesse boas condições de saneamento, abastecimento de água, coleta de lixo e sem reservatórios do mosquito transmissor nos domicílios.

A expansão de casos de dengue impressiona pelos números. Em Minas, foram 471.165 registros - 19 vezes mais do que o identificado em 2018.

Em São Paulo, foram 437.047 notificações, 37 vezes mais do que no ano anterior. Já em Goiás, foram 108.079 registros, 47% a mais do que em 2018. No Distrito Federal, por sua vez, foram 35.531 infecções, com uma incidência de 1.194,4 casos a cada 100 mil habitantes.

Zika

No caso da zika, o aumento também foi em quase todos os Estados. Apenas Amazonas, Pará, Rio, Mato Grosso e Goiás tiveram uma redução de casos.

Tocantins é o que apresenta a maior proporção de ocorrências por cada 100 mil habitantes: 32,3. Em seguida, vêm o Rio Grande do Norte, com 27 casos por 100 mil; e Alagoas, com 18 por 100 mil. 

Chikungunya 

A chikungunya avança sobretudo no Rio de Janeiro. Os casos passaram de 34.805 para 76.776. Já no Rio Grande do Norte, os casos da infecção passaram de 1.809 para 8.899.

Subtipos de vírus da dengue

Com o aumento de registros, o Ministério da Saúde antecipou a campanha de combate ao Aedes aegypti, que deve ser lançada nos próximos dias. O objetivo é mobilizar secretários, prefeitos e a população para medidas de prevenção contra o mosquito transmissor.

A pasta atribui a alta nos casos a uma associação de fatores. Entre eles está o aumento de chuvas neste ano na Região Sudeste, mas, sobretudo, a alterações no tipo de vírus causador da dengue. 

A doença pode ser provocada por quatro subtipos de vírus, que vão de 1 a 4. Nos últimos anos, a circulação maior ocorria com os subtipos 1 e 3. Avaliações da pasta indicam, porém, que nesta epidemia a circulação do subtipo 2 cresceu, aumentando o número de pessoas suscetíveis à contaminação.

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Entenda como se proteger da dengue

Dados do Ministério da Saúde mostram que, de janeiro a agosto, foram 1,4 milhão de casos no país; pelo menos 14 Estados têm epidemia

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 12h08

SÃO PAULO - Dados divulgados nesta quarta-feira, 11, pelo Ministério da Saúde mostram um avanço da dengue no país. De janeiro até 24 de agosto, foram registrados 1,4 milhão de casos, seis vezes mais do que o registrado no mesmo período do ano passado (205.791). Pelo menos 14 Estados estão em situação de epidemia. O aumento dos casos foi acompanhado também do número de mortes. 

O vírus tipo 2 da dengue já é o mais presente este ano, o que explica em parte o aumento no número de casos da doença. A última vez que este vírus apareceu com força foi em 2002. Por isso, uma grande parcela da população estaria sensível a ele. 

Diante deste cenário de aumento, e também do forte calor aliado às chuvas, a prevenção é uma importante aliada. "O que está acontecendo agora pode ser um prenúncio do que está por vir no ano que vem. É um importante sinal de alerta", afirma o infectologista Celso Granato, da Unifesp. Especialistas dão dicas de como fazer isso de forma adequada. 

Roupas

Calças e camisetas de manga comprida minimizam a exposição da pele e podem proporcionar proteção contra picadas. Por isso, seu uso pode ser recomendado durante surtos, de acordo com o Ministério da Saúde.

Repelentes

Além disso, repelentes e inseticidas também devem ser usados, uma vez que afastam os mosquitos. Mosquiteiros também são aconselhados, embora seja importante ressaltar que o mosquito Aedes aegypti é mais ativo durante o dia.

Cuidados com a casa

A melhor forma de evitar a transmissão da dengue é combater a proliferação do Aedes aegypti. Para isso, o importante é eliminar possíveis locais de armazenamento de água:

  • Mantenha a caixa d’água fechada
  • Mantenha tonéis e barris d’água tampados
  • Lave semanalmente os tanques utilizados para armazenar água com escova e sabão
  • Encha até a borda os pratos das plantas com areia
  • Coloque no lixo todo objeto não utilizado que possa acumular água
  • Coloque o lixo em sacos plásticos e mantenha a lixeira bem fechada
  • Mantenha as calhas limpas
  • Não deixe água acumulada sobre a laje

Há vacina contra a dengue?

A vacina, produzida pela empresa Sanofi Pasteur, já existe mas só é indicada para quem já tem dengue. Ela foi contraindicada pela Anvisa para quem nunca teve a doença. Pela orientação da agência, a vacina deve ser aplicada apenas em pessoas que apresentam anticorpos contra um dos quatro subtipos de vírus que provocam a doença. O imunizante também somente deve ser aplicado em cidades onde a dengue é considerada endêmica - pelo menos 70% da população tenha tido contato com o agente. A vacina não está disponível na rede pública e só pode ser tomada em clínicas particulares. No final de 2018, o Butantã, que está desenvolvendo um imunizante, assinou acordo com a farmacêutica MSD. A previsão, na época, era de que a vacina chegasse ao mercado em 2020.  

 

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