Trabalhos de 2004 e 2005 de pesquisador sul-coreano são fraudes

A fraude foi completa. Tanto o trabalho de 2004 como o de 2005 do pesquisador sul-coreano Hwang Woo-Suk foram totalmente falsificados, segundo o relatório final das investigações conduzidas pela Universidade Nacional de Seul. Em ambos os estudos, supostamente pioneiros, o cientista dizia ter produzido embriões humanos clonados e linhagens de células-tronco embrionárias humanas. Não fez nada disso. O único que se salvou foi o cãozinho Snuppy - que, segundo os investigadores, é um clone de verdade. A confirmação da fraude no estudo de 2004 foi uma bomba para cientistas e pacientes esperançosos. Ao contrário do que dizia Hwang, ninguém ainda foi capaz de fazer a chamada clonagem terapêutica, técnica que produz células-tronco embrionárias geneticamente idênticas aos pacientes para uso no tratamento de doenças. "Não digo que voltamos à estaca zero, porque há muita gente avançando na área. Mas foi um banho de água fria para todos", disse o pesquisador brasileiro Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que trabalha com células-tronco embrionárias. Nenhuma prova A investigação em Seul já havia atestado que o trabalho mais recente, de 2005, era fraudado. Ainda restava a esperança, porém, de que o estudo de 2004 (o pioneiro) fosse verdadeiro. Mas não. Segundo o relatório divulgado ontem, Hwang e sua equipe não forneceram "nenhuma prova de que células-tronco embrionárias clonadas foram criadas". "O trabalho de 2004 foi escrito a partir de informações fabricadas para mostrar que as células-tronco tinham o mesmo DNA da doadora, o que não era verdade", afirma o texto. O terceiro grande feito de Hwang foi a primeira clonagem de um cachorro, anunciada em agosto de 2005. Esse, pelo menos, parece ter sido verdade. Segundo o relatório da investigação, testes independentes comprovaram que Snuppy, da raça afghan hound, é, de fato, um clone. A revista Nature, na qual o estudo foi publicado, também encomendou uma verificação independente da clonagem. Os resultados, ainda preliminares, também indicam que Snuppy é um clone verdadeiro. Ainda assim, está difícil acreditar. "Não ponho minha mão no fogo por mais nada que ele publicou", diz a geneticista Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Ela levanta a possibilidade de que Snuppy seja apenas um gêmeo idêntico do animal adulto, produzido por fertilização in vitro. "Ele podem ter gerado um e congelado o outro, para gerá-lo mais tarde como se fosse um clone." Credibilidade A repercussão negativa deverá afetar não só a carreira de Hwang, mas a confiabilidade do processo científico no mundo todo. Especialmente para pesquisadores da Coréia do Sul. "Vai levar muito tempo para o país recuperar sua credibilidade", avalia Rehen. Para ele, a fraude é uma conseqüência do "momento frenético" que a ciência vive, marcado pela competição entre pesquisadores e revistas científicas. Os dois estudos de Hwang sobre clonagem foram publicados na revista americana Science, que compete com a britânica Nature. O periódico anunciou ontem que vai fazer a retratação de ambos os trabalhos e estuda mudanças no processo de avaliação de novos estudos para publicação. Hwang não aparece em público há semanas. Em suas últimas declarações, disse que tinha, sim, a tecnologia para clonar embriões e que alguém havia trocado as células em seu laboratório. Ele ainda poderá ser alvo de uma investigação criminal. Os estudos são assinados por dezenas de co-autores.

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