RODGER BOSCH / AFP
RODGER BOSCH / AFP

Tratamento com plasma reduz risco de agravamento da covid-19 em idosos, indica estudo

Pesquisa argentina publicada no periódico New England Journal of Medicina demonstrou que pacientes que receberam o plasma com anticorpos no início dos sintomas tiveram menor risco de precisar de suporte de oxigênio

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 19h01

SÃO PAULO - O tratamento precoce com plasma sanguíneo de pacientes já recuperados da covid-19 reduz o risco de casos graves da doença em idosos, mostrou um estudo de cientistas argentinos publicado nesta quarta-feira, 6, no periódico científico New England Journal of Medicine, um dos mais importantes do mundo.

A terapia com plasma convalescente é estudada há anos para várias doenças e é investigada contra a covid desde os primeiros meses da pandemia. A hipótese é que o composto possa ajudar no combate à doença por já conter anticorpos desenvolvidos por outros pacientes.

No estudo argentino, conduzido por pesquisadores da Fundação Infant, a terapia se mostrou benéfica quando administrada nos primeiros dias de sintomas e com o uso de plasma com alta concentração de anticorpos.

Participaram dos testes clínicos 160 pacientes maiores de 65 anos. Metade deles recebeu o tratamento e a outra metade, o placebo. A terapia foi administrada em até 72 horas após o início dos sintomas. O estudo foi randomizado e duplo-cego, ou seja, os participantes de cada grupo foram escolhidos por sorteio e nem eles nem os investigadores sabiam qual doente fazia parte de cada braço da pesquisa. O método é considerado padrão ouro da pesquisa clínica porque evita possíveis distorções nos resultados.

No grupo que recebeu o plasma, 13 dos 80 (16%) participantes desenvolveram um quadro severo de covid-19. Já no grupo que recebeu o placebo, o número de pessoas que tiveram o agravamento do quadro foi quase o dobro: 25 de 80 (31%), o que, de acordo com o estudo, indica que o tratamento reduz em 48% o risco de complicações.

"A Fundação Infant identificou dois fatores essenciais para que o plasma convalescente seja eficaz: deve ser administrado dentro de 72 horas após o início dos sintomas e o plasma deve ter uma alta concentração de anticorpos. Se essas condições forem cumpridas, o tratamento pode diminuir a necessidade de oxigênio pela metade. Os resultados são especialmente relevantes considerando que o ensaio envolveu 160 pacientes com 65 anos ou mais, incluindo aqueles com comorbidades que os colocam no grupo de risco para covid-19", destacou a instituição, em nota sobre o estudo.

De acordo com a fundação, o potencial do plasma convalescente para covid-19 é particularmente significativo para países de baixa e média renda por ser um tratamento "relativamente barato" (U$ 186 por paciente), poder ser fornecido em ambulatório e não requerer infraestrutura complexa. Além disso, o plasma convalescente pode ser obtido de pacientes que se recuperaram da covid-19, por meio de doação de sangue.

“A evidência de que a administração precoce do tratamento com plasma convalescente pode melhorar os resultados em pacientes com covid-19 é importante. Há uma escassez de terapias hoje para prevenir a progressão de casos leves para doenças graves. Nossos resultados fornecem um roteiro para uma intervenção precoce entre os indivíduos de maior risco, permitindo-nos esperar um melhor prognóstico para os pacientes ao reduzir a necessidade de suporte de oxigênio e internação”, afirmou o pesquisador Fernando Polack, um dos autores do estudo.

Para o cientista brasileiro Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Albert Einstein e autor de pesquisas sobre o uso de plasma sanguíneo, o estudo argentino foi bem conduzido e pode dar subsídios para o uso da terapia mesmo fora de ensaios clínicos. "O estudo está muito bem feito, bem desenhado e bem conduzido, com um comitê de segurança com bons especialistas. Ele pode embasar o uso precoce em pacientes de grupo de risco", diz.

No Brasil, a utilização de plasma sanguíneo no tratamento de covid é admitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em situações excepcionais, como estudos clínicos ou em situações sob responsabilide do médico e com anuência do paciente.

Rizzo explica que estudos anteriores, inclusive feitos pelo Einstein, não demonstraram benefício da terapia, mas provavelmente porque eram focados em pacientes com quadro grave. "A diferença desse estudo argentino é que eles se concentraram no uso precoce, que é quando parece haver eficácia. Isso porque a transferência de imunidade por meio do plasma se deu antes de a infecção se instalar e o vírus tomar o controle de muitas células", explica.

Foram três estudos clínicos sobre o tema que tiveram a coordenação ou participação do Einstein. Rizzo destaca que, embora as pesquisas brasileiras não tenham demonstrado eficácia por focar em pacientes graves, elas comprovaram que a terapia é segura e não causa efeitos colaterais graves.

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