Traumas e dores familiares na rotina de uma criança internada com covid

No Hospital Sabará, triplicou a internação infantil em um mês; e os nomes na porta dos quartos já dizem tudo: os pais ‘se internam’ junto

Júlia Marques - O Estado de S.Paulo

  

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A parede tem desenhos de pinguins, elefantes e leões sorridentes. Os olhos molhados da mãe, porém, não enxergam nada além da filha de 4 meses, entubada em uma unidade de terapia intensiva (UTI), após contrair a covid-19. Vestida com uma roupinha cor-de-rosa, a menina é pequena até mesmo para o leito infantil. A operação de limpeza das vias respiratórias do bebê, ainda frágil para lidar com o vírus, chega a tirar o ar dos pais.

A menina era uma das 23 crianças e adolescentes internados com a doença na sexta-feira, 28, no Sabará Hospital Infantil, na região central de São Paulo. Placas na porta dos quartos contam para quem passa pela UTI não só os nomes das crianças hospitalizadas, mas os do papai e da mamãe, que se “internam” junto. Na parede atrás do leito, o painel para conectar aparelhos de oxigênio é decorado com mais bichinhos da selva. E o armário de guardar remédios tem uma gaveta de cada cor, como as crianças gostam.

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Em alta, internação de crianças e adolescentes com vírus mergulha toda a família em drama Foto: TABA BENEDICTO / ESTADÃO

Pelos corredores, sobra cansaço dos profissionais de saúde, após quase dois anos de pandemia. Em uma sequência sem fim de aventais, luvas e toucas, eles entram nos quartos de internação infantis – cada dia mais cheios de covid – e encontram famílias com medo, ansiedade e traumas. 

“Ela estava super bem, se recuperando, mas a covid baixa a imunidade e abriu a porta para uma bactéria entrar”, dizia a mãe da criança de 4 meses, enquanto secava as lágrimas sob os óculos. A gravidez foi sonhada por seis anos. A menina, que tem uma doença no coração, está internada há uma semana. Em casa, teve febre. O teste para a covid deu positivo.

“A saturação despencou. Colocaram um cateter de alto fluxo, depois um mais leve. Mas ela recaiu quando já estava sarando. É horrível”, completa a mãe, de 39 anos, que preferiu não se identificar. Ainda não há vacinas para crianças tão novas. E a mãe diz não entender os pais que já podem, mas não querem vacinar os seus filhos. Para ela, as doses ajudam a proteger os mais vulneráveis e superar a pandemia.

O avanço da variante Ômicron, mais transmissível, provoca recordes de infecções pela covid-19 em todo o Brasil e alta de internações e mortes. Pessoas não vacinadas, como crianças, correm mais risco. Em um dos maiores hospitais infantis do País, a nova onda é chamada pelo gerente médico de tsunami: em um mês, fez triplicar o número de crianças e adolescentes internados.

A maior parte das crianças internadas nas UTIs do Sabará com a covid-19 tem comorbidades graves, explica a médica Maria Carolina Módolo, intensivista pediátrica. Há casos de crianças com doenças neurológicas ou complicações respiratórias. O coronavírus se soma aos quadros, agravando-os. Leitos clínicos, porém, recebem crianças sem comorbidades ou com doenças crônicas comuns, como asma.

“As complicações são mais frequentes em quem tem comorbidades, mas não é certo pensar que, se seu filho é saudável, vai passar ileso”, diz o gerente médico e infectologista do Sabará, Francisco Ivanildo. Ele reforça a importância da vacinação de crianças. Em São Paulo, todas as de 5 a 11 anos, com ou sem comorbidades, já podem se vacinar.

Na parede atrás do leito, o painel para conectar aparelhos de oxigênio é decorado com bichos da selva. E o armário para guardar os remédios tem uma gaveta de cada cor Foto: TABA BENEDICTO / ESTADÃO

Uma equipe multidisciplinar, com médicos, fisioterapeutas e até psicólogos, acompanha a evolução das crianças no Sabará. Nem todo o hospital, porém, tem a mesma estrutura. Em unidades pelo País, há dificuldade de abrir leitos específicos para crianças. E a explosão de infecções entre médicos e enfermeiros também impõe malabarismos.

No pronto-socorro do Sabará, houve mais atendimentos de covid-19 na primeira quinzena de janeiro do que na soma dos últimos quatro meses de 2021. Parte das crianças que chega ao hospital acaba internada em leitos clínicos, para suporte ventilatório e hidratação. Pedro Alves, de 10 anos, não conseguia comer e tinha dores na barriga. Vomitou seis vezes em um só dia – os médicos decidiram interná-lo. Na sexta-feira, ocupava um leito no 13.º andar. Outras 19 crianças com covid-19 ou suspeita também estavam internadas em unidades para quadros mais leves.

O teste para a covid, positivo, trouxe de volta as lembranças que a família queria deixar em 2021. Em março, no auge da 2.ª onda e ainda sem vacinas, a mãe e o pai de Pedro foram infectados e ficaram entre a vida e a morte. “Quando falaram que minha mãe estava sendo internada, pensei: ‘Jesus, ela vai morrer?’ Fiquei em desespero. Mas o pior foi quando meu pai foi internado. Eles ficaram ao mesmo tempo no hospital e eu chorava todas as noites pedindo para voltarem.” Naquela época, o menino ficou aos cuidados da tia.

Na UTI, a mãe, a advogada Ana Cristina de Jesus, de 46 anos, lembra de ouvir o médico dizer para a equipe correr porque “estavam perdendo a paciente” – era ela. A pressão caiu e foi preciso uma injeção de noradrenalina, usada no tratamento de pacientes em choque. “Eu falava: ‘Doutor, só não posso deixar meu filho sem mãe’.” Ela e o marido se recuperaram – o pai ficou com sequelas no pulmão.

Agora no hospital, Pedro passa bem. Tem um cateter na mão, para receber soro, e já fez vários exames. “Dói, dói bastante, tanto pela covid quanto pelo remédio, pelas furadas (injeções) e tal”, conta. Também ficou triste por não poder ir ao primeiro dia de aula, na segunda. "Gosto da minha escola, tenho amigos e sempre penso que o melhor lugar para se ficar é em casa, onde tem sua cama, sua família.” O menino deve receber a 1.ª dose da vacina assim que for possível. 

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No Hospital Sabará, triplicou a internação infantil em um mês; e os nomes na porta dos quartos já dizem tudo: os pais ‘se internam’ junto

Júlia Marques - O Estado de S.Paulo

  

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A parede tem desenhos de pinguins, elefantes e leões sorridentes. Os olhos molhados da mãe, porém, não enxergam nada além da filha de 4 meses, entubada em uma unidade de terapia intensiva (UTI), após contrair a covid-19. Vestida com uma roupinha cor-de-rosa, a menina é pequena até mesmo para o leito infantil. A operação de limpeza das vias respiratórias do bebê, ainda frágil para lidar com o vírus, chega a tirar o ar dos pais.

A menina era uma das 23 crianças e adolescentes internados com a doença na sexta-feira, 28, no Sabará Hospital Infantil, na região central de São Paulo. Placas na porta dos quartos contam para quem passa pela UTI não só os nomes das crianças hospitalizadas, mas os do papai e da mamãe, que se “internam” junto. Na parede atrás do leito, o painel para conectar aparelhos de oxigênio é decorado com mais bichinhos da selva. E o armário de guardar remédios tem uma gaveta de cada cor, como as crianças gostam.

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Pelos corredores, sobra cansaço dos profissionais de saúde, após quase dois anos de pandemia. Em uma sequência sem fim de aventais, luvas e toucas, eles entram nos quartos de internação infantis – cada dia mais cheios de covid – e encontram famílias com medo, ansiedade e traumas. 

“Ela estava super bem, se recuperando, mas a covid baixa a imunidade e abriu a porta para uma bactéria entrar”, dizia a mãe da criança de 4 meses, enquanto secava as lágrimas sob os óculos. A gravidez foi sonhada por seis anos. A menina, que tem uma doença no coração, está internada há uma semana. Em casa, teve febre. O teste para a covid deu positivo.

“A saturação despencou. Colocaram um cateter de alto fluxo, depois um mais leve. Mas ela recaiu quando já estava sarando. É horrível”, completa a mãe, de 39 anos, que preferiu não se identificar. Ainda não há vacinas para crianças tão novas. E a mãe diz não entender os pais que já podem, mas não querem vacinar os seus filhos. Para ela, as doses ajudam a proteger os mais vulneráveis e superar a pandemia.

O avanço da variante Ômicron, mais transmissível, provoca recordes de infecções pela covid-19 em todo o Brasil e alta de internações e mortes. Pessoas não vacinadas, como crianças, correm mais risco. Em um dos maiores hospitais infantis do País, a nova onda é chamada pelo gerente médico de tsunami: em um mês, fez triplicar o número de crianças e adolescentes internados.

A maior parte das crianças internadas nas UTIs do Sabará com a covid-19 tem comorbidades graves, explica a médica Maria Carolina Módolo, intensivista pediátrica. Há casos de crianças com doenças neurológicas ou complicações respiratórias. O coronavírus se soma aos quadros, agravando-os. Leitos clínicos, porém, recebem crianças sem comorbidades ou com doenças crônicas comuns, como asma.

“As complicações são mais frequentes em quem tem comorbidades, mas não é certo pensar que, se seu filho é saudável, vai passar ileso”, diz o gerente médico e infectologista do Sabará, Francisco Ivanildo. Ele reforça a importância da vacinação de crianças. Em São Paulo, todas as de 5 a 11 anos, com ou sem comorbidades, já podem se vacinar.

Na parede atrás do leito, o painel para conectar aparelhos de oxigênio é decorado com bichos da selva. E o armário para guardar os remédios tem uma gaveta de cada cor Foto: TABA BENEDICTO / ESTADÃO

Uma equipe multidisciplinar, com médicos, fisioterapeutas e até psicólogos, acompanha a evolução das crianças no Sabará. Nem todo o hospital, porém, tem a mesma estrutura. Em unidades pelo País, há dificuldade de abrir leitos específicos para crianças. E a explosão de infecções entre médicos e enfermeiros também impõe malabarismos.

No pronto-socorro do Sabará, houve mais atendimentos de covid-19 na primeira quinzena de janeiro do que na soma dos últimos quatro meses de 2021. Parte das crianças que chega ao hospital acaba internada em leitos clínicos, para suporte ventilatório e hidratação. Pedro Alves, de 10 anos, não conseguia comer e tinha dores na barriga. Vomitou seis vezes em um só dia – os médicos decidiram interná-lo. Na sexta-feira, ocupava um leito no 13.º andar. Outras 19 crianças com covid-19 ou suspeita também estavam internadas em unidades para quadros mais leves.

O teste para a covid, positivo, trouxe de volta as lembranças que a família queria deixar em 2021. Em março, no auge da 2.ª onda e ainda sem vacinas, a mãe e o pai de Pedro foram infectados e ficaram entre a vida e a morte. “Quando falaram que minha mãe estava sendo internada, pensei: ‘Jesus, ela vai morrer?’ Fiquei em desespero. Mas o pior foi quando meu pai foi internado. Eles ficaram ao mesmo tempo no hospital e eu chorava todas as noites pedindo para voltarem.” Naquela época, o menino ficou aos cuidados da tia.

Na UTI, a mãe, a advogada Ana Cristina de Jesus, de 46 anos, lembra de ouvir o médico dizer para a equipe correr porque “estavam perdendo a paciente” – era ela. A pressão caiu e foi preciso uma injeção de noradrenalina, usada no tratamento de pacientes em choque. “Eu falava: ‘Doutor, só não posso deixar meu filho sem mãe’.” Ela e o marido se recuperaram – o pai ficou com sequelas no pulmão.

Agora no hospital, Pedro passa bem. Tem um cateter na mão, para receber soro, e já fez vários exames. “Dói, dói bastante, tanto pela covid quanto pelo remédio, pelas furadas (injeções) e tal”, conta. Também ficou triste por não poder ir ao primeiro dia de aula, na segunda. "Gosto da minha escola, tenho amigos e sempre penso que o melhor lugar para se ficar é em casa, onde tem sua cama, sua família.” O menino deve receber a 1.ª dose da vacina assim que for possível. 

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