Trekking conquista mulheres de todas as idades

Cada vez mais mulheres, que buscam o contato com a natureza e não se conformam com o confinamento das academias, estão partindo para o trekking - pequenas ou grandes caminhadas entrecortadas por obstáculos naturais, como rios, montanhas, cachoeiras. A palavra vem dos tempos em que andar era uma das únicas maneiras de locomoção. No século 19, os chamados vortrekkers - primeiro grupo de trabalhadores holandeses que colonizaram a África do Sul - usavam o verbo trekken como sinônimo de migrar de um local a outro. A expressão carregava algo de sofrimento e resistência física. Hoje, a conotação é outra: com o boom do ecoturismo, pessoas de todas as idades aderiram à prática. A engenheira de alimentos Paula Fujinaga, de 33 anos, mais do que praticante, é uma agitadora de viagens de trekking. Foi há cerca de nove anos que descobriu o esporte: a primeira travessia foi na Cachoeira da Fumaça, na Chapada Diamantina, durante três dias. "Foi mágico, a natureza do cerrado é diferente." A partir de então, não parou mais e foi agregando novos amigos em cada caminhada. Já fez as travessias da Serra Fina (MG, três dias), Serra dos Órgãos (RJ, dois dias) e muitas trilhas em Ubatuba e Ilhabela (SP). "A sensação de conquista é ótima. Você caminha um dia inteiro, mas chega em uma cachoeira com água limpíssima, que poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver." Seu grupo sempre escolhe roteiros pouco explorados. Ela já teve o prazer de topar com um bicho-preguiça, tamanduás e até pingüins... e as nem tão desejáveis cobras. A travessia mais longa que Paula já fez foi no Monte Roraima, na fronteira da Venezuela com o Brasil. Foram seis dias andando, com mochila nas costas para fazer o acampamento. E o cansaço? "Ah, quase não tem. Você chega em uma cachoeira maravilhosa e aquilo te domina. Aí você entra na água geladinha e leva aquela hidromassagem." Mas, nessa viagem, ela quase entrou em apuros, quando ficou sozinha em uma cachoeira para ver um pôr-do-sol. "Meu ponto de referência era uma pedra em forma de sapo. Mas anoiteceu, começou a chover, e eu perdi meus óculos. Molhada e com frio, andava e não conseguia mais enxergar a pedra. Perdi a direção. Então comecei a gritar socorro em todas as línguas, porque, no grupo, havia muitos estrangeiros. Depois de uma hora e meia, uma pessoa me resgatou". O trekking também proporciona o contato com a cultura nativa. Quando se passa vários dias na mata, acampa-se ou pousa-se na casa dos nativos da região, conhecendo-se, de perto, os hábitos locais. Conforto não é algo que se espera... Prepare-se para tomar uma chuveirada geladinha, ainda que em pleno inverno. E, mulheres: deixem a vaidade em casa, senão ela pode pesar muito na mochila que você mesma vai carregar por longos trajetos. "Passamos o último réveillon na Chapada Diamantina. Todas as meninas queriam levar uma sainha, mas eu consegui convencê-las de que seria um peso a mais. Na noite da virada, estávamos todas de chinelo e roupa de trilha", conta Paula. Nova vida ao ar livre A contadora Ana Maria Xavier de Assis, de 45 anos, que vive no Rio de Janeiro, também encontrou uma nova vida com o trekking e o montanhismo. Ela sempre gostou de atividades ao ar livre, mas foi quando conseguiu mais tempo para si mesma que investiu em caminhadas e escaladas. Em 1998, procurou agências de ecoturismo e ficou até sócia do Centro Excursionista Brasileiro, um dos principais clubes de montanhismo do Rio. Desde então, fez diversas travessias, como Petrópolis - Teresópolis (RJ); Serra Fina (MG) e Baependi - Aiuruoca (MG). Pelo menos duas vezes por mês, ela faz trekkings menores. "Quando você caminha, o tempo é outro, dá para aproveitar tudo." Também conquistou boas amizades com a prática. "Você precisa dos outros. Então, se cria um espírito de companheirismo." A psicóloga Valdira Nunes Valadares, de 47 anos, sempre apreciou longas caminhadas, como a da trilha que leva a Machu Picchu, no Peru, ou a da mata da Juréia, em São Paulo, para onde costuma ir com os netos e sempre na companhia do marido. "Não gostamos de ir para os lugares que todo mundo vai." Foi há cinco anos que descobriram, pela internet, o Rally a Pé: uma modalidade que costuma durar de três a quatro horas. Como rota, são usadas trilhas na Serra da Cantareira, Serra do Mar, Jaraguá, entre outras. Pelo menos uma vez por mês, Valdira participa dos ralis com sua equipe de seis pessoas - os Guardiães da Montanha - integrada também pelo marido e um dos netos, de 9 anos. "Na menopausa, fase que estou vivendo, é uma maravilha, pois ativa todo o metabolismo e reduz os fatores de estresse. Também melhora a auto-estima." O Enduro a Pé é outra modalidade que envolve o trekking e pode ter provas de até 12 horas. O presidente da Confederação Brasileira de Enduro a Pé e Trekking, Esdras Martins, diz que, nas equipes, há 40% de mulheres. Ele alerta que o esporte é indicado para qualquer idade, desde que a prática seja moderada no começo. "É importante também fazer sempre uma avaliação médica." O treinador da assessoria esportiva 4any1, Aulus Sellmer, acrescenta: "O ideal é começar caminhando em parques que tenham subidas e fazer um mix com exercícios de fortalecimento muscular seja na academia ou com pesos em casa." Alguns roteiros Cachoeira da Lage: Na Ilhabela (210 km da capital paulista), caminhada de cerca de uma hora a partir da ponta de Sepituba, na parte sul da ilha. A cachoeira tem 60 m de queda d'água e piscinas naturais. A mesma trilha leva à praia do Bonete, em cerca de quatro ou cinco horas (ao todo, são 15 km). Estação Ecológica da Juréia-Itatins: Localizada no litoral sul, a 150 km de São Paulo, a Juréia é uma das poucas áreas de preservação de Mata Atlântica do estado. Lá, existem muitas trilhas para cachoeiras e praias desertas. O acesso é feito a partir de Peruíbe. Brotas: Situada no interior de SP, a cerca de 261 km da capital, Brotas tem trilhas que podem durar de três horas a um dia inteiro. No caminho, rios e cachoeiras, como na trilha do Rio do Peixe, do Martelo e do Bom Jardim. Campos do Jordão: Além do charme da cidade, que está a 167 km da capital paulista, a região reserva boas opções de trekking, como as trilhas do Parque Estadual e do Alto do Capivari. Serra da Cantareira: A apenas 20 km do centro de São Paulo, é uma boa alternativa para iniciantes. Há três núcleos: o da Pedra Grande, com trilhas de cerca de uma hora; o Núcleo Engordador, com trilhas de até 6,5 km, e o Núcleo Águas Claras. Parque Estadual do Jaraguá: A antiga área de mineração tem diversas trilhas que levam ao pico de 1.135 m, o ponto mais alto da região metropolitana de São Paulo. Lagos, nascentes e animais silvestres podem ser vistos pelo caminho.

Agencia Estado,

03 de março de 2006 | 12h00

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