Triplica queixa de erro de diagnóstico médico

O número de denúncias de erro de diagnóstico feitas ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) triplicou desde 2000. O órgão recebeu 45 queixas em 2000. Dois anos depois, o número quase dobrou, chegando aos 89 casos. Em 2005, chegou a um recorde, 128 denúncias. Nos seis primeiros meses deste ano, já foram 61. Desde 2000, o total de queixas chegou a 608. Desses casos, 10% se transformaram em processos de ética profissional contra os médicos envolvidos, resultando em 16 condenações. As penas aplicadas pelo Cremesp vão desde a advertência confidencial até a censura aberta - publicada pelo Diário Oficial do Estado. O presidente do Cremesp, Desiré Calligari, atribui o aumento das denúncias ao crescimento da população e do número de médicos. "Há também um aumento de conscientização entre as pessoas (que fazem mais denúncias)", diz. Para ele, o número crescente de faculdades de Medicina contribui para o crescimento dessa estatística. Hoje o Estado de São Paulo tem 29 faculdades autorizadas pelo Ministério da Educação (MEC). "Apenas 60% dos formados conseguem entrar em uma residência médica no Estado e 50% dos hospitais universitários têm carências de ensino", alerta. Entre as especialidades médicas, a ortopedia é a campeã de denúncias, seguida pela pediatria e oftalmologia. O presidente do Cremesp, no entanto, ressalta que essas são as áreas de maior procura e com maior número de médicos. O Cremesp não soube informar a proporção entre demanda por atendimento e profissionais atuantes nessas três especialidades com mais problemas. Os erros de diagnóstico, ao lado dos erros de medicação e procedimento com os pacientes internados, são um reflexo da formação deficiente dos médicos brasileiros. Essa é a opinião de Rubens Carmo Costa Filho, médico-chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Pró-Cardíaco, no Rio. "A falta de investimentos na educação traz resultados claros. Na saúde isso tem repercussão no atendimento à população." Erro Quase Irreversível - "Vou morrer sem ver minha filha falar." Foi isso que Luis Carlos de Lima, de 45 anos, disse para sua mulher, em outubro de 2001, quando seu médico disse que ele tinha esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença neurológica degenerativa irreversível. Os sintomas começaram em janeiro e, em menos de um ano, ele perdeu quase 20 quilos, não conseguia mais caminhar sozinho nem se alimentar. "Pedi para refazer os exames, mas meu médico não aceitou." A situação se arrastou até meados de 2002, quando recorreu a um neurologista em Belo Horizonte. Analisando os mesmos exames que levaram ao diagnóstico de ELA, o especialista identificou uma poliradiculoneurite axonal motora crônica (PRN), doença neurológica que pode ser fatal, porém tratável.Após seis dias de tratamento com corticóides, no Hospital das Clínicas, Lima já conseguia levantar da cama sozinho e teve alta. "Se não tivesse ido a outros médicos hoje estaria morto", diz. Superespecialização - O professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e clínico-geral Paulo Olzon sentiu o problema em sua família. Há dois anos, sua mãe, Otilia Olzon, de 85 anos, começou a apresentar sinais de senilidade. O diagnóstico: mal de Alzheimer. A família procurou outro médico. Desconfiava que Otília tivesse hipotireoidismo, pois também apresentava sintomas da doença, como desorientação e inchaço nos membros. Nos exames, nada foi verificado. Apenas o terceiro especialista procurado confirmou o hipotireoidismo. "Isso ocorre em função da superespecialização dos médicos", diz Olzon. Para ele, a especialização cada vez mais precoce atrapalha a correta interpretação dos sintomas. "Tudo o que for diferente da especialidade, eles não vão conseguir investigar." Quando a pressão do trabalho começou a aumentar, a advogada carioca Daniela de Queiroz Oliveira, de 35 anos, passou a sentir taquicardia, dificuldade para respirar e angústia. Os sintomas a levaram a um cardiologista. Como os exames estavam normais, o médico diagnosticou síndrome do pânico e prescreveu um ansiolítico, medicamento para reduzir a ansiedade. "Passei a ter medo de tudo, inseguranças que não tinha." Depois de ir a três médicos que lhe receitaram três ansiolíticos sem resultado, ela procurou um especialista em arritmia. O estudo eletrofisiológico, exame realizado com a inserção de um cateter na virilha do paciente até o coração, detectou uma veia anormal, que foi cauterizada. Resolvido o problema, Daniela teve de procurar um psiquiatra - não conseguia mais abandonar o ansiolítico.

Agencia Estado,

13 de julho de 2006 | 10h25

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