Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

Troca de gestão em UBS suspende exame de diabete em São Paulo

Na Vila Nova Jaguaré, zona oeste da capital, procedimento que representa 1/3 da demanda não é feito há mais de dois meses

Tulio Kruse, O Estado de S. Paulo

16 Junho 2015 | 15h06

SÃO PAULO - Há 70 dias, o material básico para teste de glicemia está esgotado na Unidade Básica de Saúde (UBS) e na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) da Vila Nova Jaguaré, zona oeste de São Paulo. Cerca de um terço da demanda de exames na unidade não está sendo atendida por causa do problema, segundo o médico responsável pelo procedimento. O motivo seria a troca da Organização Social de Saúde que administra a AMA e a UBS que, de acordo com relatos de funcionários, também teria provocado a falta de dentista por tempo indeterminado na unidade.

Na manhã da segunda-feira, 15, a reportagem do Estado ouviu pacientes e acompanhou o atendimento na unidade, que segundo os usuários era feito com rapidez acima da média. Se você tiver problemas com o serviço público de saúde, mande seu relato por Whatsapp para os números (11) 9-7069-8639 e (11) 9-8960-4397.

Diagnosticada com diabete há cerca de seis meses, a aposentada Maria de Lurdes Cabral, 73, não consegue acompanhar a evolução de sua doença em razão da falta de fitas reagentes, que indicam o nível de glicemia no sangue. "Eu preciso fazer o teste para saber se preciso deixar de comer alguma coisa, se está melhor ou pior", diz Maria, que estava desde 5h30 na fila do posto de saúde para garantir menos tempo de espera. Ela saiu da unidade às 8h50 com exames de sangue e de urina colhidos e, pela segunda vez, não conseguiu fazer o teste de diabete. "Vim aqui já no mês passado e não tinha equipamento."

O caminhoneiro Oliveira Sangi, 60, diz que a falta de material é um dos maiores motivos de reclamação da população local. "O bairro todo está reclamando porque não consegue fazer o exame", afirma.

De acordo com o médico responsável por realizar os testes, que não quis ter seu nome divulgado, os problemas são resultado de uma troca de gestão na unidade. A administração da UBS e da AMA da Vila Nova Jaguaré, que era feita pela Fundação Faculdade de Medicina até março, está sendo repassada à Associação Saúde da Família. O período de transição, que dura 90 dias, termina na sexta-feira, 19. "Esse material não está em falta nas outras unidades, é uma falta de planejamento da transição porque a gestão anterior foi omissa", diz o médico. Ele tem orientado seus pacientes a ligar na central de comunicação da Prefeitura de São Paulo para protocolar reclamações.

A Secretaria Municipal de Saúde informou, por meio de nota, que o insumo deve estar disponível na AMA da Vila Nova Jaguaré em até 15 dias.

Falta de médicos. Em um quadro atrás do balcão de atendimento no posto de saúde, a reportagem encontrou um aviso informando que não haverá agendamento para dentista no mês de junho. Nenhum dos pacientes entrevistados estava ali para consulta odontológica. Segundo os profissionais que atendem no balcão do posto de saúde, o serviço está suspenso por tempo indeterminado. “Estamos em processo de transição de OSS (Organização Social de Saúde) e ainda não sabemos quais profissionais vão continuar e quantos serão contratados”, disse a atendente no local quando questionada sobre o prazo para a odontologia ser reativada. A Secretaria Municipal de Saúde e a Fundação Faculdade de Medicina afirmam que o atendimento está normal.

Apesar da situação tranquila na segunda-feira, pacientes e funcionários da unidade contam que a falta de médicos também é um problema na Vila Nova Jaguaré. "Eu evito muito o AMA porque é demorado e já cheguei aqui e não tinha pediatra", conta Regina Santos, 25, que tem uma filha de dez anos. Nesta unidade, ela já teve atendimento negado quando precisou reparar um dos pontos de sua cirurgia de cesárea. Como a operação foi feita no Hospital Maternidade Jardim Sarah, após esperar horas na fila, Regina ouviu que deveria voltar à instituição para reparar o curativo.

"Na semana passada, ficamos dois dias sem médico, não tinha nenhum pediatra", contou um dos funcionários da unidade sob a condição de anonimato. "A gente está com uma defasagem de médico clínico desde o final do ano passado porque a gerente decidiu mandar um cara embora."

O funcionário explica que a troca de gestão já prejudica a oferta de médicos. Funcionando com capacidade total na segunda-feira, a AMA recebeu elogios de pacientes que levaram menos de uma hora para terminar suas consultas. O funcionário público Benedicto Silva, 47, chegou ao AMA com tosse e, em aproximadamente 40 minutos, saiu da unidade com um xarope, um remédio anti-inflamatório e um antibiótico, fornecidos de graça pela farmácia da unidade. "O único problema que encontrei foi na farmácia, onde me deram os remédios sem orientações", ressaltou Benedicto. "Se eu não tivesse perguntado, poderia tomar o remédio errado."

Outro lado. "O atendimento médico está ocorrendo normalmente na UBS do Jaguaré e os pacientes agendados para junho seguem com suas consultas confirmadas", disse a Fundação Faculdade de Medicina por meio de sua assessoria. "Eventuais atendimentos não programados podem ser realizados na AMA Vila Nova Jaguaré."

Sobre a falta de dentista na UBS, a fundação afirmou também que “o processo de transferência da dentista que atuava na unidade aconteceu a pedido da própria profissional, não tendo relação, portanto, com o processo de transição para outra entidade parceira”. A organização diz que especialidade de odontologia está sendo atendida por profissionais da própria Secretaria Municipal de Saúde e da FFM.

A Secretaria Municipal da Saúde informou que a UBS Vila Nova Jaguaré tem duas dentistas atendendo normalmente, contrariando a informação dos atendentes do posto. "Os pacientes que necessitam de atendimento realizam o agendamento na sala de odontologia e os casos urgentes são atendidos no mesmo dia. Mensalmente, cerca de 200 pacientes realizam tratamento odontológico na unidade", diz a secretaria.

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