Karina Toledo/AE
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Tuberculose é outro fardo peruano

A tuberculose multirresistente - causada por bactérias capazes de sobreviver a várias classes de antibióticos - é outro grande problema de saúde pública no Peru. Enquanto no Brasil esses casos não ultrapassam 1,5% do total, no país vizinho correspondem a mais de 20%.

Karina Toledo, ENVIADA ESPECIAL AO PERU,

05 de novembro de 2011 | 18h37

O impacto disso nos gastos públicos de saúde é gigante, pois, se o tratamento convencional dura seis meses e custa cerca de R$ 90, são necessários dois anos e cerca de R$ 3,6 mil para eliminar a bactéria multirresistente. O prejuízo na qualidade de vida dos doentes - submetidos a injeções diárias com até sete medicamentos - é ainda maior. As drogas afetam os rins, o fígado e o estômago. Muitos desistem e acabam morrendo.

Para aumentar a adesão dos afetados ao tratamento, foi criado, em um centro de saúde da cidade de Lima, um programa de capacitação para o cultivo de vegetais hidropônicos.

“Os pacientes deixam de trabalhar durante o período do tratamento. Precisam de uma fonte de renda alternativa. Mas, como ficam muito debilitados, tinha de ser uma atividade que não exigisse esforço físico”, explica o nutricionista Miguel Barrientos, coordenador técnico do projeto. A iniciativa, que começou em 2008, é uma parceria entre a ONG Prisma e os Ministérios da Saúde e da Agricultura e integra as ações financiadas pelo Fundo Global no país.

A travesti Mary Yarleque, de 38 anos, conta que antes de aderir ao programa sofria terrivelmente com os efeitos do tratamento. “Doía a cabeça, o estômago, tinha muita náusea. Esse contato com a natureza ajudou a me distrair e a esquecer a doença”, afirma. Hoje, curada, Mary dedica suas manhãs a transmitir o conhecimento adquirido para outros pacientes. O cultivo de hidropônicos também virou seu principal meio de sustento. “Vendo no mercado, para os vizinhos e até para os médicos do centro de saúde”, conta.

O Brasil se livrou do fardo da tuberculose multirresistente graças ao protocolo rígido de tratamento adotado há 30 anos. Os antibióticos usados contra a doença foram retirados das farmácias e só podem ser obtidos - de forma gratuita - nos centros do Sistema Único de Saúde. No Peru, por outro lado, cada médico adota o tratamento que lhe convém e não há remédio de graça para todos. Isso contribuiu para o abandono da terapia e a criação de superbactérias.

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