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Tudo normal. Será?

Vieses são tendências de cometermos erros de julgamento de forma sistemática

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

De vez em quando, eu acordo com a sensação de garganta raspando. Às vezes, respiro pela boca à noite e percebo esse sintoma logo pela manhã, mas normalmente isso passa logo depois de um bom café.

No início da semana passada, eu tive essa sensação novamente. Muito discreta, nada diferente do que experimentei ao longo de anos. Minto, havia um detalhe diferente: estamos em meio a uma pandemia de uma doença que dá dor de garganta. Detalhe gigantesco, convenhamos. E agora? Seria a garganta seca de sempre? Ou teria finalmente sido contaminado? Pelo sim, pelo não, fiz consultas apenas por telemedicina e esperei.

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Dia seguinte, mesmo sintoma. Leve, passageiro. Nova dúvida. Aos leitores espertos, a reposta pode parecer óbvia em retrospecto.

Mas compartilhe da minha incerteza: eu sabia que poderia ser covid-19, é óbvio. Mas poderia também não ser – não era algo a que não estivesse acostumado, não tinha nenhum outro sintoma. Nessas horas, o cérebro entra no modo “viés de normalidade”. Vieses são tendências de cometermos erros de julgamento de forma sistemática por conta dos atalhos que nosso raciocínio toma, nos levando a conclusões nem sempre das mais racionais. 

O viés de normalidade é a tendência de negar os sinais de ameaças. Apegamo-nos com muita força aos indícios de normalidade – “Eu sempre tenho isso”, “Está passando logo”, “Não sinto mais nada” – e ignoramos com todas as forças os elementos do problema – “Há meses não sinto isso”, “Esse é um sintoma comum da Ômicron”, “A incidência está muito alta”. 

Ciente desse viés, no segundo dia optei pela segurança. Mesmo sentindo que era exagero, achando que não era covid-19, fui ao setor apropriado do hospital, fiz o teste e fiquei afastado até sair o resultado do PCR. Dois dias depois veio a confirmação: negativo. Ahá! Por essa você não esperava, hein? Dias depois fiz outro exame, também negativo. Estava tudo normal, seu exagerado.

Calma que a história não termina aqui. Três dias após meu primeiro sintoma, meus dois filhos apresentaram febre e dor de cabeça exatamente ao mesmo tempo. Resultado? Infectados. Como estudam em classes e anos diferentes, é muito mais provável terem pego da mesma fonte comum do que na escola. Isso é o que chamo de plot twist. No fim, eu provavelmente estava com o vírus, passei para eles, mas evitei contaminar mais pessoas ao me isolar, indo contra minha sensação de que estava tudo normal.

Moral da história: conheça seus vieses. Nossa mente nos engana de várias maneiras, e a melhor forma de fugir dessas armadilhas é saber como elas funcionam.

* É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

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