Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tudo que é bom...

Se é verdade que tudo o que é bom dura pouco, talvez seja justamente porque para ser bom há que ser passageiro

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2022 | 05h00

Tudo que é bom dura pouco. Você já disse isso mais de uma vez, tenho certeza. E já ouviu dizerem para você. Às vezes é como uma forma de consolo quando perdemos algo de que gostamos: “Não fique triste, a vida é assim. Tudo o que é bom dura pouco mesmo”. 

Em outras ocasiões a frase é proferida como uma lição de moral, quase como uma expiação por um prazer excessivo: “Viu só? Espero que tenha aproveitado. No fim das contas tudo o que é bom dura pouco”. 

Mas ela também é usada como uma espécie de aviso, um alerta profético: “Cuidado com isso. Fique preparado. Tudo o que é bom... bem, você já sabe”.

Estive pensando nesse ditado desde que comecei a assistir à série Upload (Amazon Prime). Criada pelo escritor e diretor americano Greg Daniels – que tem passagens por sucessos como Seinfeld, Os Simpsons, The Office e Parks and Recreation –, trata-se de uma comédia transcorrida num futuro relativamente próximo, quando as pessoas poderão optar por fazer o upload de suas consciências para a nuvem na hora de sua morte. 

A partir daí elas podem ser instaladas em diferentes ambientes, a depender de quanto dinheiro tinham em vida, e passam então a gozar de uma vida eterna como avatares num mundo virtual.

Não é o foco da série, mas uma das coisas que me chamaram atenção foi como as pessoas ficam entediadas nesse conforto sem-fim. Uns chegam a pagar a mais para ter a sensação de estar gripados, apenas para quebrar o tédio da eternidade. Nada mais parece empolgante quando se pode ter aquilo quando se quiser – e para sempre.

Então, se é verdade que tudo o que é bom dura pouco, talvez seja justamente porque para ser bom há que ser passageiro. Aquele quindim maravilhoso cujo fim lamentamos só deixa uma memória boa porque não pudemos nos empanturrar até a náusea com ele. 

A perspectiva da segunda-feira no escritório ressalta o prazer do fim de semana na praia – quem mora junto ao mar e o tem para si a qualquer momento costuma dar muito menos valor para ele. 

Surpresa: durar pouco pode não ser um defeito das coisas boas, mas uma precondição para as considerarmos assim.

Há coisas boas que duram a vida toda, claro. Casamentos, amizades, laços filiais. Talvez delas não nos cansemos se as pudermos desfrutar eternamente num porvir. 

Mas convenhamos que se trata de uma categoria diferente de sobremesas ou viagens: as relações verdadeiras, afetivas e saudáveis, são tão essenciais para nós que mesmo quando duram a vida toda seu final traz a sensação que, de fato, elas duraram pouco. Como tudo o que é bom, afinal.

Tudo o que sabemos sobre:
psicologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.