Fernando Mustafá - arquivo pessoal
Fernando Mustafá - arquivo pessoal

Turista relata drama de brasileiros que não conseguem voltar do Peru

Cerca de 400 turistas estão em Cusco; país vizinho fechou as fronteiras

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 23h24

Aproximadamente 400 brasileiros estão vivendo um drama em Cusco, região turística do Peru. Desde que o presidente Martín Vizcarra fechou as fronteiras do país para tentar conter o avanço da pandemia de coronavírus, no domingo, esses turistas ficaram isolados e não conseguem voltar para casa. Muitos estão em situação complicada e sem poder sequer sair na rua. Na noite de sexta-feira, cerca de 200 deles receberam a boa notícia de que haverá um voo da Latam para retornar no sábado. Mas muitos ainda ficarão por lá, sem perspectiva.

"Está parecendo o roteiro de filme. Os recursos financeiros de muitas pessoas estão se esgotando e estou preocupado com as pessoas de mais idade. Existem idosos que tomam medicamentos controlados e o remédio está acabando. O ponto é que não tem mais como ficar aqui. É uma emergência, um drama", relata Fernando Mustafá, administrador de empresas e sócio de uma corretora de seguros, que conseguiu vaga no voo deste sábado.

Morador de São Paulo, ele está com a esposa e mantém contato com os três filhos pequenos que ficaram no Brasil. A fim de tentar encontrar uma solução para o problema, tem conversado diariamente com membros da embaixada do País no Peru. "A embaixada em Lima está sendo super receptiva. Mas não tem mais tempo para esperar. Precisa ter esse resgate emergencial de alguma forma, pois eu temo o pior", diz.

No domingo, quando os turistas brasileiros ficaram sabendo que a fronteira peruana seria fechada, todos correram para o aeroporto internacional de Cusco. "Foi insano. Todos foram pegos de surpresa com a medida do governo. Cheguei com a minha esposa às 3h da manhã, o aeroporto estava lotado, o que é até um risco por causa do coronavírus", conta.

O voo de Fernando Mustafá sairia de Cusco na terça-feira, com destino a Lima, depois iria para São Paulo. "Ficamos a madrugada e o dia inteiro no aeroporto. Formamos um grupo de brasileiros para tentar obter informação e nos unir nesse momento de crise. Só que por volta de 20h da segunda-feira começou a ter ação da polícia peruana expulsando as pessoas do aeroporto, porque ele seria fechado", continua.

A angústia de muitos brasileiros aumentou nesse momento, pois alguns tinham até reservas, mas os hotéis foram fechados. O comércio também desceu suas portas. "Alguns brasileiros não conseguiram entrar nos hotéis e tiveram de ir atrás de hostel ou alugar um espaço pelo Airbnb. E após esse dia começou a ter complicações com alimentação e hidratação para outros turistas."

A situação não é ruim só para os brasileiros. Muitos turistas dos Estados Unidos e da Argentina passam pela mesma dificuldade. Mustafá revela que alguns mexicanos vão conseguir ir embora com a ajuda do governo do México, assim como viajantes de Israel, que foram retirados de lá na quarta-feira em aviões de seu país. "Está tudo fechado e não podemos sair na rua, pois quem estiver andando sem autorização corre o risco de ser preso por 24 horas. As pessoas estão se virando como podem."

O administrador de empresas conta que 600 brasileiros que estavam em Lima conseguiram voltar para o Brasil em voos fretados (viagens comerciais estão proibidas) através de uma articulação da embaixada com o governo brasileiro. Chegou-se a cogitar um transporte terrestre do grupo de Cusco até o Acre, mas é uma viagem de 20 horas em estrada sinuosa, o que todos estão tentando evitar.

Uma alternativa seria uma viagem em ônibus militar até Lima. O trajeto é longo, mas não adiantaria nada se em Lima não tiver outros voos fretados para o grupo. "A situação de Cusco é mais delicada. Apesar de ter aeroporto internacional, não tem pista que comporte aeronaves grandes. O governo brasileiro passou que está em negociação com as companhias aéreas, mas a região montanhosa dificulta a chegada, pois o piloto precisa ter uma habilidade especial nesse tipo de relevo", afirma.

Enquanto aguardam uma definição e torcem para que todos fiquem bem, os brasileiros vão ouvindo boatos de que já existe uma suspeita de caso de coronavírus na cidade. Como estão confinados em seus quartos, não conseguem ter certeza de nada. "Eu sei que as coisas estão acontecendo na relação entre os dois países, mas estão tendo dificuldade para resolver. Os outros países estão sendo mais flexíveis e dando prazo para turistas. Mas aqui os brasileiros estão em situação complicada", lamenta.

Na sexta à noite, a embaixada brasileira em Lima avisou os turistas que aqueles que tinham passagem da empresa Latam iriam conseguir voltar ao Brasil neste sábado. "Caso seu nome esteja na lista, favor apresentar-se na Plaza de Armas de Cusco às 6h30, de onde será gentilmente disponibilizado transporte em veículos do Exército peruano para o aeroporto", escreveu a embaixada em sua conta no Facebook.

A boa notícia ajudará metade do grupo, mas muitos ainda ficarão por lá, porque possuem bilhetes de outras companhias aéreas. Fernando vai voltar com sua esposa e poderá rever os três filhos que estão esperando por eles no Brasil. E garante que continuará ajudando à distância seus compatriotas que ficaram em Cusco, até que todos possam voltar para o País com segurança.

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