Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

UBS na zona sul tem mais de 9 meses de fila para exame básico

Pacientes relatam esperas para Papanicolau e exame de vista; menos de 15 pessoas conseguem marcar consulta por dia

Tulio Kruse, O Estado de S. Paulo

01 Julho 2015 | 17h17

Durante a maior parte da manhã na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Oratório, na zona sul de São Paulo, os pacientes que chegavam para marcar consulta com clínico geral eram informados que deveriam voltar para casa. Ao menos 70 pessoas tentaram agendar consulta nesta quarta-feira, 1º, sem contar aqueles que se informaram no balcão e foram embora sem retirar senha, mas apenas 14 tiveram sucesso. Há meses, a UBS também enfrenta falta de material necessário para colher o exame Papanicolau e acumula cada vez mais pacientes à espera do exame.

A reportagem do 'Estado' acompanhou o atendimento na unidade por cerca de quatro horas nesta quarta-feira. Se você tiver problemas parecidos com a saúde no seu bairro, mande seu relato por Whatsapp para os números (11) 9-8960-4397 e (11) 9-7069-8639.

A diarista Maria Farias da Silva, de 57 anos, diz que espera há mais de nove meses pelo agendamento de um exame Papanicolau, que serve para detectar mudanças anormais e até câncer na cérvix do útero. Além disso, há três meses teve exames de raio X na coluna e no joelho solicitados em outro posto de saúde da zona sul, na Vila Bertioga, mas não foi chamada. Ela sente dores constantes na perna. "Eu vou ficar morrendo de dor até quando?", pergunta Maria. "O problema é que, quando eles nos chamam, o sintoma já passou, a receita do remédio já venceu e não adianta nada consultar o médico. A gente está morrendo aos poucos."

O motivo para os longos prazos de consulta, segundo funcionários, é a troca no administrador da unidade e a saída de dois clínicos gerais. A UBS atendia com quatro clínicos há dois meses e, no fim de maio, um deles se aposentou e sua vaga ainda não foi ocupada. Um representante da Superintendência de Atenção à Saúde do Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (SAS-Seconci), que administra a unidade, disse que a prioridade é contratar um novo médico para a UBS. Uma reunião da administração atual com a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), que vai assumir a unidade, ocorreu nesta quarta no posto de saúde para discutir a transição. A previsão é de que o serviço deve estar normalizado até o fim de agosto.

Outra paciente que reclama da falta de material básico para o Papanicolau é a auxiliar de produção Maria Lúcia dos Santos, de 29 anos. Seu último exame do tipo foi há mais de dois anos, embora seu médico tenha recomendado que fizesse o teste anualmente. Nesta quarta-feira, ela chegou à UBS com horário previamente agendado. Foi informada, no entanto, que não seria atendida por falta de material. "Eu achei até estranho porque geralmente só consigo agendar com três meses de antecedência, e dessa vez consegui marcar dois dias antes", ela conta. "Na verdade eles não tinham material para recolher o exame e não me avisaram, é um descaso total."

Outros exames essenciais que deveriam ser oferecidos na UBS têm a mesma demora. Após uma espera que durou cerca de um ano, a auxiliar de enfermagem Bárbara Lia, de 51 anos, só conseguiu marcar um exame de oftalmologia quando sua filha de 19 anos resolveu ficar de prontidão na fila durante uma madrugada no último mês.

Bárbara precisa fazer exames para monitorar a retinopatia diabética e outras consequências da diabetes severa que seu organismo desenvolveu. Ela diz que a concentração de açúcar em seu sangue já chegou perto de 600 mg/dL em algumas ocasiões, o que pode até levar ao coma. A maior queixa de Bárbara, no entanto, é quanto à qualidade do atendimento. "Estou quase trazendo um banco, uma cadeira para acomodar o pessoal, porque tem gente de idade com bengala e andador que chega aqui e não consegue sentar", ela reclama.

Atendimento. Às 6h20, diante de uma fila com cerca de 30 pessoas, uma senhora de 82 anos encurvada sob um suéter cinza de lã bate à porta de vidro fechada no posto de saúde. "Traz uma cadeira, por favor", ela pede. Lúcia Masi tem seis pinos fixados em sua coluna, resultado de uma cirurgia que fez após ser atropelada. Ela estava em pé havia meia hora e sentia dores. A cadeira que pediu não veio. Quando as portas da UBS foram abertas, cerca de 20 minutos depois, Lúcia era a primeira da fila e queria entrar para conseguir assento, mas foi barrada. "Só os que têm consulta marcada vão entrar agora, senhora", disse o atendente. Lúcia teve de esperar por mais alguns minutos.

Na fila desde 5h50, ela foi uma das 14 pessoas que conseguiram marcar consulta com clínico geral. Será atendida daqui a três meses. A agenda do médico que quase sempre a atende e é conhecido no bairro por seu bom serviço, Gerson Hernandes, já estava cheia, mas havia uma médica disponível. As vagas para consulta com o Dr. Gerson se esgotaram às 7h20, menos de meia hora após o início do atendimento. "Acho um absurdo ter que chegar aqui altas horas de madrugada e ainda não conseguir consulta", disse Lúcia na saída.

A auxiliar de limpeza Maria Benedita, de 46 anos, era a 25ª pessoa na fila do agendamento e nesta quarta voltou para casa novamente sem data. Ela tenta há uma semana marcar uma consulta com o médico para analisar um exame de sangue que colheu em 29 de maio. Nesta quinta, 2, pretende chegar às 5h30 e provavelmente só conseguirá uma consulta para setembro. "Estou vindo aqui quase todo dia, mas não consigo marcar o retorno com o médico", lamenta Maria.

Resposta. Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que vai repor os médicos que foram aposentados e que o material para exames será reposto nos próximos dias. Confira a nota na íntegra:

"A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informa que novas medidas estão sendo adotadas para repor médicos nas unidades administradas pelas OSS, como a exigência de equipe mínima de profissionais durante todo o período de atendimento e pagamentos e descontos por tipo de serviço, ações que não estão no modelo vigente, adotado desde 2009. A falta de médicos é um problema que afeta a saúde em todo País.

A respeito do exame de Papanicolau, a Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste (CRS - Sudeste) está providenciando o material e a normalização do procedimento deve ocorrer nos próximos dias. A AMA situada no mesmo endereço não será desativada."

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