FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Um a cada cinco postos da cidade de São Paulo volta a registrar falta de vacina nesta quinta-feira

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, os desabastecimentos, constatados pela reportagem às 13 horas, foram provocados por causa da alta procura da população. Capital paulista já teve de interromper totalmente a aplicação por um dia nesta semana

Felipe Resk e Natália Santos, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 16h06
Atualizado 25 de junho de 2021 | 13h33

SÃO PAULO - Pelo menos um a cada cinco postos de saúde precisou paralisar o atendimento por falta de vacina contra covid-19 na tarde desta quinta-feira, 24, na cidade de São Paulo. Na maioria dos casos, os transtornos aconteceram em unidades localizadas na periferia da capital. Segundo apurou o Estadão, a Prefeitura atribui os desabastecimentos à entrega em cima da hora do lote de imunizantes que seriam usados durante o dia, além da alta procura em áreas mais afastadas do centro.

Dados da plataforma “Filômetro”, elaborada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para informar a população sobre a situação dos postos de saúde em tempo real, mostram que ao menos 114 de 520 locais de vacinação, ou 21,9%, ficaram sem imunizante e tiveram de interromper o serviço. Entre eles, estava um posto volante, três megapostos e quatro drive-thrus. O horário de referência usado pela reportagem foi 13 horas.

O cronograma da Prefeitura priorizou o atendimento de pessoas de 48 anos, com meta de imunizar cerca de 105 mil pessoas na cidade. Para isso, a gestão municipal contava com a entrega de 121 mil doses por parte do governo do Estado.

Gestores de saúde, no entanto, relatam que o lote só chegou às 8 horas desta quinta-feira – enquanto o tempo adequado para operacionalizar o repasse para os postos de saúde seria de no mínimo 24 horas. O atraso provocou transtornos logísticos e teria gerado uma corrida para a distribuição na cidade, com uso de batedores para furar o trânsito.

Segundo a plataforma, a maior parte dos postos que registraram interrupção fica na periferia. Proporcionalmente, a região mais afetada foi a zona sul, com 63 dos 159 postos “aguardando abastecimento” – o equivalente a 39,6%. No Jardim Ângela, 15 dos 18 locais pararam por falta de vacina. No Jardim São Luís, só três dos 14 estavam abertos. Já no Sacomã, também havia quatro postos interrompidos.

Por sua vez, a zona leste parou 40 dos 187 locais de vacinação – a situação mais grave era na região do Carrão, com os seus dois postos fechados. Já a zona norte registrou três interrupções, todas no Tremembé, dentro de um total de 92 pontos. Centro e zona oeste tinham 100% dos lugares funcionando.

Professor da Faculdade de Medicina da USP, Jorge Kalil afirma que, apesar de a campanha ter conseguido acelerar recentemente, essas interrupções devem continuar acontecendo enquanto a entrega de lotes for entrecortada. “Ainda está chegando de forma irregular, então há problemas de logística e de quantidade de vacina disponível”, diz.  Segundo avalia, a tendência é que regiões da periferia sofram mais diante desse cenário, por causa da distância e do déficit de infraestrutura.

“Alguns tipos de vacinas precisam ficar armazenadas em temperaturas muito baixas, com equipamentos específicos e segurança da rede elétrica. Isso dificulta a distribuição”, relata. “Ao mesmo tempo, essa região deve ser priorizada. Até porque a população da periferia é quem fica mais doente e está mais exposta ao vírus, já que boa parte depende de transporte público e tem menos condições de fazer isolamento social.”

Capital diz que vacinou 90 mil e desabastecimento foi por alta adesão

O secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido, diz que o problema não teria sido de logística, mas de alta adesão em locais mais afastados do centro. “Enquanto nos Jardins, a gente vê o pessoal querendo escolher o tipo de vacina, as pessoas na periferia estão vacinando em massa. Ela vai lá e toma a que tiver”, afirma.

De acordo com Aparecido, a tendência da campanha a partir de agora, com o avanço por faixa etário, é aumentar a concentração na periferia – já que a população é mais jovem. “Quando falta de vacina em algum lugar, nós fazemos o remanejamento de doses e resolvemos o problema”, diz. “Hoje, também saímos ligando para as pessoas que encontraram os postos fechados e chamamos mais tarde. Pelos dados preliminares, conseguimos cobertura acima de 90 mil dos 100 mil possíveis.”

Os dados do Filômetro são dinâmicos e registraram melhora na situação ao longo do dia. Em novo balanço realizado às 18 horas, a reportagem constatou dois postos de saúde aguardando abastecimento, além de outros 52 que já teriam parado de funcionar.

O planejamento da Prefeitura é atender os moradores de 47 anos nesta sexta-feira, 25, e fazer a repescagem do grupo entre 47 a 49 anos no sábado, 26. Para isso, a gestão conta com a entrega de mais 100 mil doses (40 mil da Pfizer e 60 mil da AstraZeneca), prevista para esta noite, além de mais  250 mil no sábado.

Por falta de estoque, a capital paulista chegou  suspender a campanha de vacinação na terça-feira, 22, após centenas de unidades de saúde ficarem desabastecidas. O atendimento a pessoas de 49 anos, no entanto, foi retomado no dia seguinte depois do repasse de 181,1 mil doses pelo governo estadual.

Em nota, a gestão João Doria (PSDB) culpa o governo federal e afirma que o lote de 121 mil doses foi repassado para a capital 12 horas depois que as vacinas chegaram ao Estado. “O Ministério da Saúde só entregou ao governo de São Paulo as doses da vacina da Pfizer que aterrizaram em Campinas na noite de terça-feira, 22, por volta das 19h desta quarta-feira, 23.”

“Estas novas doses que chegaram hoje somaram-se a um estoque de cerca de 100 mil doses já existentes no município na noite de ontem (23) e suficientes para a continuidade da vacinação”, diz o comunicado. “O avanço e continuidade da campanha de vacinação depende do envio de doses do governo federal, que tem retardado a liberação de vacinas contra covid-19, impactando no ritmo de redistribuição aos municípios.”

Vacinação ainda motiva queixa de moradores na capital

Na UBS Vila Santa Maria, na zona norte, o engenheiro Marco Eduardo Latif, de 47 anos, foi impedido de tomar a vacina, mesmo após ter recebido pela manhã um e-mail do governo paulista, orientando que procurasse um posto. “A enfermeira não quis aplicar e disse para eu voltar no dia seguinte.”

De acordo com o calendário escalonado da Prefeitura, a data destinada aos adultos sem comorbidade de 47 anos começa a partir da sexta-feira, com repescagem no sábado. O aplicativo Vacina Já, entretanto, que reúne pré-cadastros de todos os municípios, segue o calendário do Estado, segundo o qual a vacinação para adultos dos 43 aos 49 anos começaria nesta quinta-feira. 

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde disse que tem vacinado os munícipes de acordo com o calendário da Prefeitura e a oferta de doses repassadas pelo Estado. Já a Secretaria de Estado da Saúde afirma que o encaminhamento, registro e orientação cabe à Prefeitura, mesmo que o Vacina Já tenha disparado e-mail para pessoas fora da faixa etária contemplada no Município – e o sistema traz esse aviso.

Desencontros não são pontuais. Aos 56 anos, dona Márcia (que preferiu não dar o sobrenome) tentou ir a três unidades básicas de saúde (Casa Verde, Vila Santa Maria e Joaquim Nabuco) na segunda-feira, e terminou o dia sem se vacinar. Nesta quinta-feira, ela finalmente conseguiu. “É muita correria, né, não dá para a gente tentar isso todo dia.”

Quem chegou na Vila Santa Maria para a “xepa” (espera por sobras) também perdeu a viagem, como foi o caso de Hillary Melo. Aos 18 anos, ela conta que está ansiosa para se vacinar e pretende colocar o nome na lista de espera em outras UBSs. “É sempre bom ter mais de uma para garantir, né?” /COLABOROU JOÃO KER

 

 

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