Tiago Queiroz/ Estadão
Hospital Municipal Dr. José Soares Hungria, em Pirituba, zona norte de São Paulo, está recebendo pacientes com covid-19 Tiago Queiroz/ Estadão

Um ano de covid-19 no Brasil: confira entrevistas fundamentais para entender a pandemia

Na semana que marca o aniversário do primeiro caso da doença no País, Estadão conversa com figuras que atuam no combate à pandemia desde o início para uma análise dos motivos que levaram o País a um cenário catastrófico e o que esperar dos próximos meses

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 16h16
Atualizado 27 de fevereiro de 2021 | 15h15

SÃO PAULO - Há cerca de um ano, em 25 de fevereiro de 2020, o Brasil registrava seu primeiro caso de covid-19. O paciente, vindo da Itália, teve o diagnóstico confirmado no Hospital Israelita Albert Einstein. O Einstein, assim como outros hospitais privados, viu o número de internações explodir nas semanas seguintes. Semanas depois, hospitais do SUS ficaram superlotados e alguns Estados chegaram a colapsar. Após um ano, o País está novamente encurralado pela doença, com aumento de casos, ameaça de novas cepas, sistemas colapsados e lentidão na campanha de vacinação. 

Para analisar o primeiro ano de pandemia e o que vem pela frente, o Estadão publica nesta semana uma série de entrevistas com profissionais de saúde e cientistas que atuam em diferentes frentes do combate à pandemia desde o seu início.

Na primeira entrevista, o presidente do Einstein, Sidney Klajner, comenta como a falta de valorização da ciência, inclusive pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), atrapalhou o combate à pandemia no País.

A segunda entrevista da série é com David Uip, infectologista e membro do centro de contingência contra o coronavírus do Estado de São Paulo. Ele relata os traumas dos ataques raivosos que ele e sua família sofreram após uma receita de seu consultório vazar e destaca que os próximos meses, sem vacinas suficientes e com aglomerações, serão difíceis para o sistema de saúde.

Na terceira entrevista, a pesquisadora Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical da USP líder do grupo que sequenciou o primeiro genoma de coronavírus do País conta sobre as ainda frequentes dificuldades de obter verba para pesquisa no País, mesmo com a situação de emergência sanitária.

A quarta entrevista foi feita com Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde. Nela, ela faz duras críticas à atual gestão da pasta e ao governo de Jair Bolsonaro. Ele também mostra preocupação com as variantes do coronavírus. "A cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça", diz.

Na quinta e última entrevista da série, um retrato da linha de frente: a fisioterapeuta Graziella Xavier de Barros, do Instituto Emílio Ribas, conta as maiores dificuldades de lidar há um ano com doentes graves de covid, inclusive colegas internados com a doença, e lamenta a postura da população que não aderiu às medidas de proteção. Para ela, a sociedade perdeu a empatia pelos profissionais de saúde. "Ninguém mais lembra da gente", disse ela. Leia abaixo as reportagens na íntegra:

Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein

Falta de valorização da ciência prejudicou combate à pandemia, diz presidente do Einstein

David Uip, infectologista e membro do centro de contingência contra o coronavírus do governo de São Paulo

'Tive pacientes que me chamaram de criminoso', diz Uip sobre polêmica com uso de remédio

Ester Sabino, pesquisadora e professora do Instituto de Medicina Tropical da USP

'Verba para pesquisa continua difícil', diz cientista que sequenciou 1º genoma do coronavírus

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde

'Cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça'

Graziella Xavier de Barros, fisioterapeuta da UTI do Instituto Emílio Ribas

Ninguém mais lembra de quem está na linha de frente, diz fisioterapeuta de UTI covid

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Falta de valorização da ciência prejudicou combate à pandemia, diz presidente do Einstein

Um ano após registro do primeiro caso de covid no País, detectado no hospital, Sidney Klajner critica a postura de médicos, do CFM e de governantes que negaram evidências científicas no combate à doença

Entrevista com

Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 16h08

SÃO PAULO - Há pouco menos de um ano, em 25 de fevereiro de 2020, o Brasil registrava seu primeiro caso de covid-19. O paciente, vindo da Itália, teve o diagnóstico confirmado no Hospital Israelita Albert Einstein, que viu o número de internados explodir nos dois meses seguintes, chegando a 135 em abril. Passado quase um ano do início da pandemia no País, o hospital registrou, em janeiro, um pico ainda maior de hospitalizações pela doença (155) e sua ocupação alcançou os 102%. O País, por sua vez, já acumula mais de 10 milhões de casos e 246 mil mortos, e vive uma segunda onda, com a propagação de novas cepas e um ritmo de vacinação aquém do desejado.

Presidente do hospital, o cirurgião Sidney Klajner conta que não esperava que o País perderia totalmente o controle da pandemia e se tornaria um dos campeões em casos e óbitos pela doença. Em entrevista exclusiva ao Estadão, ele diz que a falta de valorização da ciência e de atitudes pautadas em evidências científicas foram os principais fatores que levaram o País à situação atual. Ele criticou também a postura do Conselho Federal de Medicina (CFM) em autorizar a prescrição de tratamentos ineficazes, como a hidroxicloroquina, e disse acreditar que ainda viveremos as restrições impostas pela pandemia por um longo período.

"A gente vai ter uma presença endêmica do coronavírus por um tempo extremamente longo. A gente pode até controlar essas infecções endêmicas em determinados países ou regiões onde a gente tem um poder maior de imunização, mas sempre vai ter o risco de ela ser trazida por alguém que vem de fora dessas comunidades. Eu não vejo muito próximo o retorno a uma vida normal", opinou.

Em um ano de pandemia, 3.045 pessoas foram internadas com covid no Einstein, das quais 149 morreram. Considerando só a mortalidade entre os pacientes que passaram pela UTI, o índice foi de 16,6%, muito inferior a índices de mais de 50% registradas em redes hospitalares do Brasil e do exterior.

Para Klajner, a fórmula para reduzir a mortalidade passa por investir em UTIs com boa estrutura, equipamentos adequados e profissionais capacitados. As condições prévias de saúde da população e a facilidade de acesso à assistência também têm impacto, diz ele.

O principal aprendizado destes 12 meses de pandemia , diz o presidente do Einstein, é a necessidade de pautar as estratégias de enfrentamento à doença no conhecimento científico, e não em ideologias. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Em fevereiro do ano passado, quando o Einstein diagnosticou o primeiro caso, qual era a sua expectativa para duração e evolução da pandemia?

A minha expectativa naquele momento era a de que a gente teria um controle das pessoas que viessem a adquirir o vírus, um controle do isolamento desses pacientes e, por conta disso, a gente atingiria só uma pequena parcela da população. E que tomando os devidos cuidados, como higienizar as mãos, não espirrando nas mãos, evitando locais fechados, a gente teria um controle total da pandemia. Eu costumo ter uma visão mais otimista do que pessimista, então eu lembro que. naquele momento, a gente falava do clima tropical, da diferença do perfil epidemiológico do idoso da Itália, que é diferente do nosso País. Então, a minha visão de otimismo era que a gente teria uma coisa mais controlada.

Na sua opinião, quando as coisas desandaram no País para uma falta de controle completa? Quanto disso pode ser atribuído à falta de conhecimento que tínhamos sobre o vírus no início da pandemia e quanto é responsabilidade da falta de comando dos gestores e autoridades políticas?

Primeiro, a gente está diante de uma infecção por um vírus que ainda carece de muita informação sobre seu comportamento, então a primeira coisa é que a gente aprendeu muito com a doença no ano passado. Aprendeu maneiras de lidar com ela, da necessidade da abordagem multidisciplinar, ainda não aprendemos totalmente quem vai ficar ruim e quem não vai e o porquê. A gente aprendeu que os grupos de risco não são necessariamente só aqueles de faixa etária mais avançada, mas algo que não entendemos é um possível respaldo genético que faz com que algumas pessoas mais jovens também evoluam para insuficiências mais graves. Toda essa falta de conhecimento no início contribuiu, de fato, para a gente ter opiniões divergentes e uma das grandes causas que levaram à falta de um comando pautado por ciência foi a presença de opiniões de pessoas que não detêm conhecimento e passaram a colocar suas posições muito focadas em ideologias. Isso, em um mundo que a gente vive de disseminação muito fácil por mídias sociais, acabou virando verdade e atraindo uma legião de seguidores. A gente via médicos falando que isso não ia passar de uma gripe e que o calor daqui não ia deixar que fosse igual à Europa. A gente viu governantes preocupados com aspectos econômicos, estimulando o não-lockdown. Aqui no Einstein, lá no final de março, a gente já tinha uma projeção de que, caso não fosse feito algo como foi feito na quarentena, a gente teria o estouro da capacidade de leitos na cidade de São Paulo no dia 15 de abril. Então não dá para atribuir um só culpado, mas a falta do conhecimento, talvez a falta da valorização da ciência como o ponto norteador das atitudes e da adoção dessas medidas. E aí, obviamente, entram as nossas lideranças que preferiram acreditar neste ou naquele ponto, fizeram com que o comportamento da população brasileira em como enfrentar a pandemia e os investimentos e planejamento fossem bastante prejudicados desde o início. Toda essa situação colocou o holofote e uma lente maior nas deficiências do sistema de saúde em relação à gestão, ao seu investimento na saúde e na ciência, que é carente no País.

Mas, além dos problemas históricos de gestão e investimentos, teve a postura do governo federal de às vezes ir contra a ciência…

Então, além disso, você deixar de ver o que aconteceu no resto do mundo e colocar soluções salvadoras, se apoiar numa medicação porque aqui é o Brasil, é óbvio que não seria assim. Esse tipo de dúvida, de você atuar na economia independente do resultado da saúde, isso aconteceu no mundo inteiro. A Inglaterra é um país que, no começo, adotou a postura de imunidade de rebanho e, depois de milhares de pessoas indo para as UTIs, eles abandonaram essa estratégia e voltaram para o modelo de controle através de quarentena e lockdown. Então, a gente teria que, primeiro, ter uma liderança. E não necessariamente ia ser o presidente, poderia ser o secretário, o ministro da saúde. No momento que surgiram divergências, o ministro foi trocado. Tivemos duas trocas onde sequer o plano do primeiro ministro foi colocado adiante. Isso abriu espaço para os governos assumirem a autonomia de organizarem o enfrentamento em seus Estados. Então vira uma colcha de retalhos.

O Einstein foi um dos hospitais que lideraram estudos que mostraram que remédios como a hidroxicloroquina são ineficazes contra a covid. Na sua opinião, por que, mesmo com todas as evidências, médicos continuam prescrevendo?

Tudo isso é fruto da importância de como você coloca a ciência como pano de fundo para tudo que a gente faz em saúde. Na medida que esse mundo científico sofre intervenção de ideologias políticas, as mídias sociais se tornaram um palco onde as pessoas podem falar o que querem. Sem falar na própria consequência da última eleição, que praticamente dividiu o País, de pessoas que são partidárias de um tipo de postura, e não é só esquerda ou direita, mas também seguidores fiéis do nosso presidente ou de governantes de Estados, que acabaram, em vez de usar a ciência para se manifestarem, usando esses palcos para autopromoção, para promoção de ideologias. Não existe ciência com ideologia. Mesmo porque isso é um reflexo das brechas que a gente tem da própria formação científica que os médicos têm e de outros profissionais da área de ciências biológicas. Nesse sentido, esse palco deu espaço para as pessoas se manifestarem da forma que elas acham que é, o que mostra que falta essa formação médica para entender que a ciência não é feita com um trabalho com 20 pessoas no hospital na França. A ciência exige que você tenha evidências suficientes para dizer se um medicamento funciona ou não. Ciência e crença não combinam. Só que no nosso código de ética médica, ele coloca que o tratamento fútil é previsto como uma cláusula de má atividade médica. Quando você usa um medicamento que não vai trazer bem ao paciente, pelo contrário, pode causar evento adverso, a responsabilidade é de ambos (médico e paciente), mas o médico influencia muito. Concordo que a autonomia do médico faz parte da relação médico-paciente, da relação de confiança, mas existem também os guidelines, diretrizes e evidências que mostram como deve ser feito.

A gente viu essa questão da autonomia do médico ser usada como justificativa para aqueles que seguem prescrevendo hidroxicloroquina e pelo Conselho Federal de Medicina para manter a resolução que autoriza a prescrição. Mas o conselho já teve posturas contrárias a outras questões que poderiam estar relacionadas com a autonomia, como a telemedicina. Não dá a impressão que são dois pesos e duas medidas?

É isso mesmo que eu acho. Dois pesos e duas medidas, não tenho dúvida. Enquanto o nosso conselho coloca essa questão da autonomia do médico, o conselho da França faz um processo afastando o médico (Didier Raoult) por ter feito os estudos (com hidroxicloroquina) de forma inadequada. Realmente, é passível de crítica, inclusive porque a formação do médico vai seguir os preceitos que o conselho federal coloca, e não é o modo como eu vejo. Aí começam a aparecer casos de hepatite fulminante por ivermectina ou falta de evidências da melhoria dos pacientes.

A gente viu médicos de renome, como Nise Yamaguchi e Anthony Wong, defendendo terapias sem evidências científicas. O que você acha que leva a esse tipo de comportamento?

Aqueles colegas que insistiram no uso de tratamentos que não são pautados por uma boa evidência científica talvez tenham sido influenciados por outros fatores que não o seu paciente como o centro do cuidado pautados pela evidência científica. Ou eles não têm a compreensão, por falta de formação, do que é um artigo científico e quais são as críticas que a gente deve fazer. Te dou um exemplo: recentemente, faz um mês, houve a publicação de um artigo colocando a ivermectina como opção de tratamento precoce e esse artigo foi repercutido pelo próprio ministério, por uma série de médicos, mostrando que agora já teríamos evidências de uma revista renomada. A revista, por ter um nome bacana, foi colocada como se fosse de altíssimo impacto. Essa revista está na posição 984 no impacto dos jornais de medicina dos Estados Unidos. O artigo coloca uma revisão daquilo que já existe. Quem lê aquilo e não está preparado corretamente para interpretar um artigo científico vai ser enganado. O trabalho era praticamente uma impressão pessoal do autor, não havia ciência nesse trabalho. O artigo era uma porcaria, mas, com uma revista com nome bacana e com figurinha de algoritmo, acabou sendo uma chancela. Por que se faz isso? Porque há pessoas que querem ocupar uma posição de destaque que nunca tiveram e aí está a oportunidade. Ou pessoas que não têm a formação para poder compreender o que é um artigo sério. Outra questão é a falta de humildade de voltar atrás. Quando a pandemia começou, ninguém falava em usar máscara. A Organização Mundial da Saúde (OMS) falava que deveria usar máscara quem estivesse tratando de gente com covid. Depois, a gente teve que fazer um mea culpa por não termos usado a máscara antes. Foi um equívoco que o mundo teve que voltar atrás. Esse tipo de postura de soluções salvadoras aconteceu a pandemia inteira. Soluções salvadoras de alguém que tem um único interesse que é o interesse financeiro. Isso é oportunismo. E no meio médico acontece oportunismo da mesma forma.

Vocês tiveram um primeiro pico de internações em abril, com 135 pacientes. E agora, em janeiro, tiveram um novo pico, com 155 hospitalizados. Vocês esperavam que viveriam um pico pior do que o primeiro um ano depois do surgimento do vírus?

Esperar eu não esperava. Na verdade, eu tinha medo por causa do que vimos na Europa. O verão levou todo mundo para as ruas, para a praia, para as festas e eles passaram a experimentar uma segunda onda. Na verdade, eu esperava que não acontecesse, mas existia uma chance considerando o comportamento das pessoas aqui no Brasil como se a gente já tivesse vencido a pandemia. Tivemos aqui no Einstein uma estabilidade de quatro ou cinco meses de 50 pacientes internados no máximo. Depois do feriado de Finados, a gente começou a ver um incremento. A gente já vislumbrava as comemorações de fim de ano, Natal. Eu vi com muita preocupação quando a procura por passagem aérea estava só 15% abaixo da de 2019. Não é possível que as pessoas estejam viajando dessa forma. Ao mesmo tempo, a gente via festas, raves. A contaminação foi brutal e a gente teve que se mexer em meses que geralmente o movimento no hospital cai, que é dezembro e janeiro. A gente chegou a ter no mês de janeiro 102% de ocupação. Por que isso acontece? Teve essa hipótese das novas cepas. Hoje a situação aqui do hospital é de estabilidade. Houve uma diminuição no número de leitos dedicados à covid para 126. A preocupação é manter esses cuidados ainda, evitar aglomeração, até a gente ter uma quantidade de pessoas vacinadas para dizermos que a pandemia está controlada. Vai demorar um tempo grande até a gente ter uma quantidade da população já vacinada e isso que vai fazer ter controle. Se eu fico imunizado e deixo de respeitar essas medidas de precaução, talvez eu não adquira nenhuma forma grave, mas eu posso adquirir uma forma leve e continuar sendo transmissor. Enquanto o controle não é feito e eu estou comemorando a minha imunização, o vírus pode estar mutando até o ponto que a vacina deixa de ser eficaz.

Vimos a tragédia de Manaus, mas países ricos e hospitais melhor estruturados em outros locais do mundo também viveram colapso. Você acha possível que redes mais estruturadas colapsem diante da ameaça das novas variantes? O quanto isso te assusta?

Assusta menos do que assustou no começo da pandemia por conta da expertise em transformar alas não covid em covid e vice-versa. Ele assusta mais no sentido de termos que interromper tratamentos de doenças não covid.

Os dados do Einstein mostram que vocês tiveram uma mortalidade por covid-19 de 16,6% entre os pacientes que foram para a UTI. Outros hospitais têm índices muito maiores, que ultrapassam 50%. Como foi possível ter um baixo índice? Tem a ver com os recursos, mas está associado também ao estado que o paciente chega?

O que importa no tratamento dessa doença é o suporte à vida, o tratamento multidisciplinar e não um tratamento específico. Isso tem a ver com a qualidade de UTI, da disponibilidade dos recursos. Por exemplo, 40% dos pacientes precisaram de diálise. A maior causa de mortalidade em Nova York foi a falta de diálise. Houve UTIs em Nova York com mortalidade de 88% no momento do pico. E obviamente influencia nessa mortalidade as condições da população. A população carente de cuidados médicos terá uma taxa de mortalidade muito maior. Talvez um hospital como o nosso a gente tem uma população que tem um controle melhor das suas doenças. Isso é mais uma demonstração de que não existe tratamento específico. Tem até um estudo americano que mostra que a mortalidade nas UTIs americanas passou a diminuir à medida que deixaram de ficar testando tratamento e passaram a dar importância naquilo que é expertise de uma UTI: tratamento correto da insuficiência respiratória, prevenção de infecção secundária, uso da diálise.

Quando você acha que voltaremos a uma situação próxima da normalidade?

Eu estava lendo um artigo da Nature publicado recentemente e o título é “The coronavirus is here to stay” (O coronavírus está aqui para ficar). Eles entrevistaram uma centena de cientistas do mundo inteiro. E a opinião da maioria é de que a gente vai ter uma presença endêmica do coronavírus por um tempo extremamente longo. A gente pode até controlar essas infecções endêmicas em determinados países ou regiões onde temos um poder maior de imunização, mas sempre vai ter o risco de ela ser trazida por alguém que vem de fora dessas comunidades. Eu não vejo muito próximo o retorno a uma vida normal. Vamos ter que ter precauções quando frequentarmos lugares aglomerados. A gente vai ter que ter preocupação com fronteiras. Eu deposito a esperança do controle na vacinação. Fazendo um comparativo: H1N1 não foi embora. Na época do frio, a gente tem que proteger nossos velhinhos porque senão eles morrem. Então acho que não vai ser nada diferente. 

Qual é o maior aprendizado que fica desse um ano de pandemia?

São vários aprendizados, mas talvez o principal é que quando a gente fala de saúde, isso é uma parte do conhecimento que diz respeito à ciência. Nada numa questão de saúde pode ser dirigida, liderada ou idealizada sem a participação de conhecimento científico. Nesse raciocínio, eu imagino que a gestão da saúde obriga que a gente tenha lideranças com conhecimento científico suficiente que vão dirigir o enfrentamento de qualquer situação de saúde. A liderança não pode ser feita por políticos. Ela pode ter políticos, mas ela tem que respeitar o conhecimento científico. Esse é um grande aprendizado que falta para o nosso País. Se você olhar para o resto do mundo, os países que melhor souberam lidar com isso foi quem tinha à frente um time de pessoas com conhecimento científico suficiente para opinar e dirigir as ações, e não uma liderança que tenha como norteador ideologias políticas.

 

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'Tive pacientes que me chamaram de criminoso', diz Uip sobre polêmica com uso de remédio

Em entrevista sobre o balanço de um ano de pandemia no País, infectologista detalha consequências dos ataques que sofreu no início da pandemia e diz processar atendente de farmácia que divulgou indevidamente receita de sua clínica

Entrevista com

David Uip, infectologista e membro do centro de contingência contra o coronavírus do governo de SP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 15h19

SÃO PAULO - Um dos principais infectologistas do País, conhecido por tratar celebridades e políticos e por atuar no combate de epidemias há decadas, David Uip enfrentou um desafio diferente na pandemia de covid-19. Membro do centro de contingência contra o coronavírus do governo de São Paulo, o especialista e sua família foram alvos de ataques raivosos nas redes sociais e em sua clínica por causa da polêmica em torno de um possível tratamento do médico com hidroxicloroquina quando ele teve o diagnóstico da doença, no início da pandemia.

Em entrevista concedida nesta segunda-feira, 22, ao Estadão sobre o balanço de um ano da pandemia no País, Uip detalha as consequências da perseguição que sofreu e revela diz até ter sido chamado de criminoso por pacientes que o conheciam há anos. "Eu tive pacientes antigos que ligaram para o consultório e me chamaram de criminoso por eu 'não querer que as pessoas se curassem como eu me curei'. Foi algo muito pesado para a minha esposa, filhos e netos. Todo mundo que tem sobrenome Uip sofreu demais." 

O especialista conta que, mesmo com décadas de atuação e experiência em epidemias como as de Aids, febre amarela e H1N1, nunca imaginou passar por isso. "Eu fui totalmente surpreendido com essa história em paralelo. Eu já era um indivíduo que combatia as fake news há anos. Tem reportagens minhas falando que fake news em saúde são uma desumanidade, mas o que aconteceu dessa vez superou qualquer das piores expectativas. Nem de perto eu esperei algo parecido."

Ele afirma que a divulgação de desinformação foi um dos principais entraves para o combate à pandemia no País e diz estar preocupado com os próximos meses, com aumento de aglomerações e circulação de novas cepas. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

No início da pandemia e considerando sua experiência como infectologista em outras epidemias, você esperava que o Brasil teria um cenário tão catastrófico?

Se você lembrar, no início da pandemia, vazou um vídeo de uma aula que eu fui dar no Incor (Instituto do Coração). Naquele vídeo, eu criava cenários, de 1% a 10% de contaminação (no Estado de SP), justamente pra tentar estimar o que seria preciso fazer especialmente na questão do número de leitos. Até então, ninguém tinha ideia da dimensão naquele momento. Acho que começamos a ter dimensão quando foram divulgados os casos da Europa. Até então, os casos da China estavam muito localizados. A história tomou vulto com a divulgação da situação da Itália, da França, Espanha, Alemanha e percebeu-se que o problema tinha uma dimensão maior do que se imaginava. Mas de qualquer forma, quando você cria cenários, é uma forma de o gestor se preparar de diversas formas. O que importava eram as contas de que 80% iam ser indivíduos assintomáticos ou com poucos sintomas; 20%, sintomáticos precisando de alguma atenção médica; e 5% precisariam de UTI. O Estado de São Paulo, naquele momento, tinha 7 mil leitos de UTI: 3.500 de adultos e 3.500 de crianças. A primeira hipótese era transformar os leitos de crianças em leitos de adultos, o que não foi possível porque a estrutura é totalmente diferente e porque não se sabia como seriam as infecções de crianças e as outras infecções habituais. Então, de forma acertada, não se mexeu nos leitos infantis. Tivemos que aumentar os leitos de UTI, que chegaram a praticamente 10 mil. Então, esses cenários foram importantes para criar situações que embasaram decisões de governo. A pandemia é um aprendizado por dia, uma surpresa por hora.

Em que momento o Brasil perdeu o controle da pandemia?

Eu acompanhei o governo federal e ajudei em tudo que eu pude enquanto o Mandetta foi ministro. Quando o Nelson Teich passou a ser ministro, passei a colaborar e ajudar o Nelson, com quem eu mantenho uma ótima relação. Depois, eu me afastei totalmente do governo federal, não tive nenhuma participação e não tenho nenhuma observação a fazer. Não falo sobre o governo federal, não falo sobre o Ministério da Saúde.

Você teve uma situação pessoal delicada, que foi a contaminação pela covid e a exposição de que você supostamente teria usado hidroxicloroquina (o que gerou ataques de seguidores do presidente Jair Bolsonaro). Isso te fez, de alguma forma, querer ficar mais longe dessas questões de análise das políticas da pandemia?

Na verdade, eu só não voltei a coordenar o centro de contingência, mas eu continuo participando normalmente, nunca deixei de participar. Agora, aquilo que me aconteceu foi algo que não só me envolveu, mas foi uma crueldade com a minha família em cima de algo que nunca teve o menor nexo. Ao não divulgar o tratamento naquele momento, fiz algo que a ética recomendava. Se eu divulgasse que eu tomei qualquer medicamento, as pessoas iam sair comprando, tomando sem nenhum critério de controle. Se eu falasse que eu não tomei, era desesperança. Então, eu agi dentro de critérios éticos. Eticamente, você não pode ficar divulgando qualquer resultado de droga off label (uso de um remédio para condição diferente da prevista na bula). Naquele momento, não se sabia o valor positivo ou negativo de vários medicamentos, diferentemente de hoje. Então, eu acho que a minha postura foi totalmente ética. Jamais revelei tratamentos de pacientes e entendi que minha privacidade foi invadida, com consequências. Hoje, eu processo a pessoa que invadiu a minha privacidade divulgando uma receita que não tinha nada a ver comigo. Aquela receita, se você olhar a data, é de 5 de março. E eu tive o diagnóstico no dia 23 de março. Quando nós começamos a ver o tamanho da pandemia, aqui na clínica nós resolvemos comprar diversos medicamentos: antibióticos, anti-inflamatórios, antitérmicos, inclusive a cloroquina. É só ver a data e o número de comprimidos. Então, tudo aquilo que aconteceu nunca teve nenhum sentido. Foi algo muito pesado para a minha esposa, filhos e netos. Todo mundo que tem sobrenome Uip sofreu demais. 

Eram ataques nas redes sociais? Quais eram os argumentos?

Eu tive pacientes antigos que ligaram para o consultório e me chamaram de criminoso por eu 'não querer que as pessoas se curassem como eu me curei'. Você conversa com as secretárias daqui, você não tem ideia do que aconteceu. Eu, criminoso? O que eu fiz de errado?

A hipótese dessas pessoas é que você tinha usado o remédio e não queria divulgar para que outras pessoas tivessem o mesmo direito?

Pois é, e foi exatamente o contrário, eu me preocupei com a população. Me preocupei com a possibilidade de as pessoas se automedicarem sem controle. Continuo achando que eu estava absolutamente correto.

E que tipos de ataques fizeram contra a sua família?

As redes sociais viraram uma loucura. Inclusive eu chamei os Uips e pedi para que ninguém se manifestasse, porque não adiantava. E o volume ia aumentando de uma forma que você não tem controle. Eu tenho um neto de 12 anos que tem acesso à internet. Calcula o impacto para ele. O jornalismo oficial e responsável me ajudou muito esclarecendo, mas nas redes sociais ninguém tem controle, para o bem e para o mal. E foram cruéis. Uma coisa é eu ser atacado, primeiro que eu não acho justo. Outra coisa é atacarem minha família. Isso é inadmissível. E mais: o que fiz de errado? Eu não tinha cargo, não tinha pretensão política e nunca fui remunerado, era um trabalho voluntário, que eu via como missão, por conta da minha história. Nunca vi sentido nesses ataques.

E vocês descobriram quem vazou aquela receita?

Descobrimos. Quando a receita vazou, os meus pacientes da minha clínica ficaram muito inseguros. Isso aqui é uma clínica complicada, tem muitos pacientes com doenças complexas, doenças que as pessoas querem privacidade. Quando vazou, houve um sentimento de quebra de sigilo da clínica, e não foi. A quebra de sigilo foi na farmácia, isso está identificado, processado e correndo na Justiça. O responsável vai responder por isso. Quem vazou foi a farmácia. Isso é importante esclarecer porque nós temos o maior cuidado em preservar todos os dados da clínica. Eu tenho consultório desde 1978, nunca vazou dado. Somos rigorosos quanto ao sigilo. Essa foi a outra consequência dessa história. E mais: naquela receita, estava o meu endereço residencial, todo mundo soube onde eu morava.

Você esperava ter que lidar com isso em meio a tantas outras preocupações médicas sobre a pandemia? Já tinha passado por isso?

Eu fui totalmente surpreendido com essa história em paralelo. Eu já era um indivíduo que combatia as fake news há anos. Tem reportagens minhas falando que fake news em saúde são uma desumanidade, mas o que aconteceu dessa vez superou qualquer das piores expectativas. Nem de perto eu esperei algo parecido.

Você chegou a ter pacientes que deixaram a clínica?

É uma coisa curiosa. Quando isso apertou, eu chamei meus filhos e falei: se tem uma coisa que vai prevalecer é a verdade. A verdade vai surgir. Para você ter ideia, eu tive paciente que me atacou e disse que nunca mais voltaria no meu consultório. Depois de dias,  a pessoa teve covid e me chamou para acompanhar.

E você aceitou?

Claro, eu sou profissional. Não misturo as coisas. Pena que as pessoas misturaram. Mas eu, não. Acho que hoje todo mundo entendeu o que aconteceu, especialmente porque tentaram politizar a minha vida achando que eu estava usando daquela minha posição objetivando cargos ou eleições. Todo mundo percebeu que não tinha nada a ver, como nunca teve. Eu nunca tive pretensão política.

Para além do seu caso, o quanto você acha que a disseminação de fake news ou de informações distorcidas atrapalhou o combate à pandemia?

Eu ouvi coisas inacreditáveis de uma porção de médicos. Uns defendendo tratamentos não provados, outros dizendo que era uma doença sem consequências, que teríamos poucos casos no Brasil. Teve um que falou que teríamos só 3 mil casos no Brasil. Coisas que você se pergunta de onde saiu. Isso eu vi demais, de uma forma totalmente inconsequente e irresponsável e atrapalhou, sim, atrapalhou muito. Ainda hoje as pessoas duvidam da gravidade. Uma paciente minha de anos veio aqui na semana passada e falou: “Você está exagerando, não é tudo isso que você diz. Eu não tenho nenhum amigo que foi internado grave. Isso é coisa que vocês inventaram”. Tenho outra paciente que está tranquila porque está tomando ivermectina semanalmente e que acha que não vai pegar. Não consigo entender. 

Hoje, um ano depois, o que temos, de fato, comprovado sobre tratamento contra a covid?

Nós não temos o tratamento etiológico (que ataca a causa da doença). O que nós fazemos é suporte de vida. Isso melhorou muito porque as equipes multiprofissionais estão muito mais treinadas. Hoje nós sabemos como lidar com doente grave. Para isso, precisa de equipes multiprofissionais treinadas e protocoladas e hospitais bem equipados. Isso faz diferença. Estamos chegando em limites como o uso do ECMO (membrana extracorpórea que funciona como um pulmão artificial), que é uma coisa que já existia, mas não para essa indicação de insuficiência respiratória aguda, e está ajudando a salvar muitos pacientes. Anticoagulação está muito melhor estudada. A hierarquização do suporte respiratório também. Tudo isso evoluiu, e muitos pacientes graves estão saindo vivos. Agora, o que falta é um remédio antiviral, faltam anticorpos monoclonais e que você consiga universalizar a vacina.

Na sua visão, de que forma as novas cepas vão impactar a pandemia?

Precisamos ser muito cuidadosos e, ao mesmo tempo, temos urgência nas respostas. Cuidadosos em responsabilizar essas alterações genômicas como mais infectantes, mais mórbidas e mais letais. O que está provado até hoje é que a cepa da Inglaterra é mais infectante, o resto nós precisamos provar. Nós temos urgência em provar. Não só a infectividade, morbidade e letalidade, mas como se comportam as vacinas Coronavac e a da AstraZeneca contra esse novo perfil de mutação.Uma coisa que me preocupa é que, em paralelo, isso coincide com momentos de maiores aglomerações.

E qual deve ser a prioridade nesse momento?

Vacinar, vacinar e vacinar.

Mas com a limitação de doses, não teremos vacinas para todo mundo num curto período de tempo...

Acredito que a falta de vacina é sazonal. Daqui a pouco nós teremos várias vacinas e múltiplas vacinas. Mas é um momento complicadíssimo porque estamos ainda sem conseguir vacinar um maior número de pessoas e aumentando o número de casos. Esses próximos meses serão complexos. 

Nesse cenário, acredita que há risco de colapso mesmo em sistemas mais estruturados, como São Paulo?

Eu acho que São Paulo sustentou essa história até hoje. Foi pressionado, mas sustentou. Agora, temos desafios pela frente, e não são poucos. Tem que ver o índice de ocupação de UTIs, tem que ver o número de infectados por 100 mil habitantes, são novos desafios que têm que ser enfrentados imediatamente. O centro de contingência tem como atribuição, de forma científica e prática, assessorar o secretário e o governo. E é isso que o centro tem feito todas as semanas. Amanhã (Hoje), vamos ter uma reunião que trata de todos esses assuntos. Agora, o centro é um órgão assessor de governo, mas sempre a decisão final é do governo.

A quarentena, no nível que temos hoje, está adequada ou terá que ficar mais rígida?

Seguramente terá que ser alterada.

Após um ano, o que mais te preocupa em relação a esses próximos meses de pandemia e como ela se diferencia de outras situações de emergência em saúde pública que você viveu?

As pessoas estão cansadas, as pessoas precisam trabalhar, agora o que eu não entendo são as atitudes inconsequentes: festas, aglomerações, irresponsabilidades. Isso eu não entendo e acho que não há precedente. Nas crises anteriores, você tinha situações diferentes. Agora, você precisa de um envolvimento de toda a sociedade, e de uma vez. Isso, para mim, é inusitado. 

E o que fica de maior aprendizado?

Para mim, na pandemia você aprende todo dia e você tem que ter a competência e a humildade de mudar de opinião. Você pensa de um jeito e, de repente, você se depara com uma situação que você não previa e você tem que se posicionar de outra forma. Pandemia é isso, um aprendizado por dia e você tem que ter muita humildade e senso crítico para ir aprendendo e mudando.

 

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'Verba para pesquisa continua difícil', diz cientista que sequenciou 1º genoma do coronavírus

Professora do Instituto de Medicina Tropical da USP, Ester Sabino faz parte do grupo que fez o primeiro sequenciamento do País, há quase um ano, mas relata dificuldades financeiras, logísticas e burocráticas para seguir estudos

Entrevista com

Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical da USP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 20h26

SÃO PAULO - Apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso de covid-19 no País, o grupo de pesquisa liderado por Ester Sabino no Instituto de Medicina Tropical da USP divulgava ao mundo o genoma sequenciado do vírus identificado no Brasil. A celeridade recorde gerou comoção e apoio de famosos e anônimos nas redes sociais. Os pesquisadores do grupo, em sua maioria mulheres, foram destaque em várias reportagens. Com a repercussão, o grupo chegou a receber um financiamento do grupo Todos pela Saúde para uma pesquisa sobre prevalência da infecção por covid na população brasileira.

Mas passado um ano do primeiro diagnóstico nacional e do feito dos cientistas brasileiros, a dificuldade para conseguir mais recursos para pesquisa e limitações logísticas e burocráticas continuam, conta Ester.

Em entrevista ao Estadão sobre balanço de um ano da pandemia, a pesquisadora diz que o País ainda não trata a ciência como prioridade e ressalta que, para termos respostas rápidas sobre vacinas e novas variantes é preciso um investimento alto e contínuo em pesquisa. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Você trabalha há anos com doenças emergentes. Esperava que o novo coronavírus causaria uma pandemia dessa dimensão?

O que estava acontecendo na China parecia muito grave. Quando chegou aqui, a gente já tinha experiência na Itália e tudo indicava que seria uma grande epidemia. Mas minha expectativa era de que a gente teria algum controle, que a gente tinha um plano. E, aparentemente, no começo, enquanto estava o ministro Mandetta, ele estava conseguindo deixar as coisas claras, tomar algumas atitudes, ter uma liderança a nível nacional. De alguma forma, ele tinha uma resposta. Tinha uma liderança que explicava para a população o que tinha que fazer. Algumas coisas saíram muito fora do controle e a gente não entende até hoje. A cidade de Manaus, por exemplo, a gente não entende por que a situação foi tão dramática, mas o fato é que algumas cidades do País conseguiram ter uma curva mais achatada. Na medida que o ministro do governo federal, que orquestrava as respostas, caiu, a gente ficou totalmente sem um maestro, desafinou a orquestra. É quase inviável você responder a uma pandemia dessa forma, sem nenhuma articulação, colocando recurso em coisas que não funcionam, mentindo para a população. E a esperança de que talvez a primeira infecção desse uma imunidade para uma segunda infecção não se concretizou.

Essa maior possibilidade de reinfecção está associada à disseminação de novas cepas?

É uma mistura de tudo: as novas cepas com a perda ou não existência da imunidade da primeira infecção.

E mesmo com esse cenário de novas cepas, possibilidade de reinfecção e aumento de casos, parte da população segue sem cumprir as medidas básicas. O que explica isso?

Meu trabalho é virologia, não tenho essa visão de sociologia, mas vou falar como cidadã e não como pesquisadora da área. Acho que as pessoas cansam de uma determinada postura quando ela atrapalha a vida. Quando você tem lideranças que falam: ‘não, não é bem assim’, ‘olha, agora temos esse remédio maravilhoso’, é uma fala negacionista que acaba facilitando que as pessoas deixem de aderir a medidas que elas consideram que estão atrapalhando a vida delas. É algo tentador seguir esse discurso, e ele não é de pouca gente, é de muita gente: de lideranças, de presidente, de prefeitos.

Quando seu grupo sequenciou o primeiro genoma do coronavírus no Brasil em tempo recorde, vocês foram reconhecidos e aclamados. Isso trouxe mais recursos e reconhecimento ao trabalho de vocês?

No trabalho de sequenciamento genético, nós ainda estamos trabalhando com o projeto Fapesp e recebemos recursos do grupo Todos pela Saúde, num trabalho que a gente fez com o banco de sangue. As fontes de financiamento foram essas. Foi um ano bem intenso. Teve uma comoção, mas cientificamente é um trabalho simples, é uma sequência genética. Depois fizemos um grande número de sequências, publicamos um trabalho na Science, que é uma das revistas-chave para a nossa área, mostramos como a epidemia entrou, detectamos a B.1.1.7 (variante britânica) junto com o Dasa, também tivemos a descrição da P.1 em Manaus. Os japoneses encontraram antes, mas a gente delineou e descreveu. A gente teve um trabalho maior de sequenciamento, com algumas limitações no segundo semestre. A gente ficou sem reagente, teve que parar por dois meses. Treinamos gente do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Manaus para fazer sequenciamento. Foi um ano bem ativo.

Como foi essa dificuldade de exportação de reagentes que paralisou o trabalho de vocês por dois meses no segundo semestre do ano passado?

O processo de importação no Brasil é complexo para a pesquisa. Então, por exemplo, se você está sequenciando a P.1 e pede um primer (iniciador da reação) nos Estados Unidos, em três ou quatro dias ele está no seu laboratório. Aqui, são 30 dias. Você não consegue chegar no momento que precisa em uma epidemia. O que aconteceu no ano passado foi que a gente pediu, demorou e, quando chegou, o reagente não estava em boas condições. Daí a gente pediu de novo e demorou mais 30 dias. 

Nesse caso não foi um problema de verba, então?

Não, é um problema estrutural de como esse tipo de reagente não tem prioridade na liberação, é sempre difícil. Se o pessoal comprar lá e mandar para a gente, às vezes para na alfândega. Tem que fazer um monte de documentação. Não existe urgência na resposta.

Essa verba da Fapesp era para um projeto de arboviroses anterior à pandemia. E esse investimento do Todos pela Saúde foi algo mais atípico, focado na emergência do coronavírus. De forma geral, continuam as dificuldades para conseguir verba para pesquisa?

Continuam e vão continuar. A gente teve sorte com esses dois projetos. Acho que a maioria dos meus colegas não tiveram tanto investimento. É um momento difícil, um momento para a sociedade como um todo acordar que se investe pouco em ciência. O fato de a ciência estar na conversa já percebo um interesse maior em mudança, mas os investimentos, em sua maioria, foram para a vacina, e acho que tinham que ser mesmo, mas as pessoas têm que perceber que esse investimento tem que ser contínuo porque não pode ser de sopetão, a ciência não faz de uma hora para outra. A gente só conseguiu sequenciar rápido porque já tinha esse projeto da Fapesp andando há quatro anos, desde o zika. Se não tivesse isso, a gente não ia sequenciar rápido. Se a gente quer ter vacina nossa, precisamos ter um programa sustentável por 20 anos para conseguir começar a fazer as nossas próprias vacinas. Não adianta começar e parar. Isso é a pior coisa porque você forma as pessoas e perde uma geração porque não consegue mantê-las. Então, tem que ter continuidade. Ciência não é uma coisa que pode parar o investimento. Se você diminui investimento, é dramático, porque tem que começar tudo de novo porque tudo muda muito rápido.

E vocês estão indo atrás de mais recursos agora?

Sim, a gente sempre está porque o projeto da Fapesp termina no começo do ano que vem.

O protagonismo que vocês tiveram na pandemia deu alguma facilidade para vocês conseguirem mais financiadores?

Deu no Todos pela Saúde, mas em outros, ainda não. A Fapesp, enquanto não termina um projeto, ela não vai dar outro. Ela deu uma ajuda nesse projeto, mas, agora, só no ano que vem. Para a Fapesp, o que importa é o que a gente produziu, então a gente vai ter uma vantagem porque a gente teve uma boa produção científica.

Você citou os estudos publicados. O da Science sofreu algumas críticas de que vocês teriam estimado uma prevalência da infecção muito alta em Manaus (o que alimentou discussões sobre imunidade de rebanho). Como você avalia esse estudo hoje, depois de Manaus ter vivido um novo pico?

Na questão da prevalência, algumas pessoas reclamam dizendo que a gente superestimou. Na verdade, nós já fizemos por vários métodos, testamos com outros grupos e sempre o resultado é muito parecido. Se fosse a minha escolha pessoal, eu preferia que eu tivesse errado porque a consequência de você ter uma epidemia grande em pessoas previamente com anticorpo significa que a imunidade natural não dá proteção a longo prazo. Então toda essa história de passaporte de imunidade e que tinha que ir atrás da imunidade de rebanho natural não vai funcionar. Para mim, é isso que (o estudo) mostra, que é muito mais difícil conter e que, mesmo quando você tem muitas pessoas que já tiveram uma infecção, isso não previne uma segunda onda. Acho que é importante porque, se nós não tivéssemos medido, as pessoas iriam concluir que tinha uma segunda onde porque muitas pessoas não tinham pegado antes. O fato de a gente mostrar o que aconteceu na presença de uma população que já se infectou significa exatamente que não vai funcionar nenhum desses formatos de imunidade de rebanho natural.

Algumas pessoas acabaram usando esses dados justamente para defender a imunidade de rebanho…

Se alguém usou dessa forma é porque não leu o estudo. Estava claro que era um valor teórico, uma sentinela para saber quanto tempo dura a imunidade. Desde o começo eu estou falando isso, que não é imunidade de rebanho, é um valor teórico, depende de ter imunidade permanente. E não é o que acontece, estamos vendo muitos casos de reinfecção em Manaus.

De que forma essa polarização e esses discursos negacionistas que usam indevidamente estudos científicos atrapalharam o trabalho de vocês?

Atrapalha bastante porque às vezes fica uma agressividade desnecessária de alguns colegas cientistas. É muito ruim. Foi muito estresse desnecessário para o grupo. 

Voltando às novas cepas, é comum termos variantes com tantas mutações importantes depois de apenas um ano do surgimento da doença?

Nós não esperávamos. O que a gente achava é que isso teria pouca chance de acontecer e que as vacinas viriam antes dessas cepas tão diferentes. Acho que o maior problema é que a gente não sabe ainda como elas apareceram. Não sabemos como ela adquiriu 20 mutações de uma vez só. Quando a gente entender, talvez a gente consiga fazer um prognóstico melhor de como elas aparecem. 

O que esperar dessas cepas no impacto sobre as vacinas?

Temos que botar muito dinheiro para fazer mais pesquisas para ter essa resposta. Não temos dados. Tem vários grupos fazendo em vários locais, mas é um esforço que precisava ter muito recurso para ser feito de forma rápida. 

E essa busca dos cientistas para mais financiamento ocorre em meio ao contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (que teve sua liberação vetada pelo presidente Jair Bolsonaro)...

É um absurdo. As pessoas querem saber se a vacina vai funcionar para a nova cepa e não dão recurso para responder a pergunta. A conclusão é: pensem bem quando vocês votam e olhem se a pessoa que vocês estão votando é favorável à ciência.

 

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'Cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça', diz Mandetta

Ministro que comandou a Saúde nos meses iniciais da pandemia vê o Brasil sem rumo, o SUS destruído e a situação do País cada vez mais grave

Entrevista com

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 15h23

BRASÍLIA - Um ano após o registro do primeiro caso da covid-19 no Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que comandou a pasta nos meses iniciais da pandemia, vê o País como uma nau sem rumo, o Sistema Único de Saúde (SUS) destruído e a situação do País cada vez mais grave. "A cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça", disse em entrevista ao Estadão.

O ex-ministro afirmou que percebeu a gravidade da doença durante o Fórum de Davos, em janeiro de 2020, quando viu a cúpula da Organização Mundial da Saúde (OMS) "rachada" sobre declarar ou não uma emergência global. Para ele, a demora da entidade em confirmar a pandemia atrasou ações do Brasil contra o vírus.

Mandetta tornou-se personagem central nos primeiros meses de pandemia ao divergir da postura do presidente Jair Bolsonaro, que minimizava a força da doença. O ex-ministro afirma que alertou o chefe do Executivo sobre o tamanho da crise quando o governo confirmou o primeiro caso no Brasil, na mesma semana em que o sistema de saúde da Itália entrou em colapso. O presidente, porém, estava na "vibe do Trump" e tratou com desdém os alertas, afirmou Mandetta, em referência ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Bolsonaro demitiu Mandetta em 16 de abril. O ex-ministro disse que não faria nada diferente no cargo. Não há arrependimento nem mesmo por liberar a primeira orientação de uso da cloroquina em pacientes da covid-19, droga sem eficácia comprovada no combate contra a doença.

O ex-ministro afirmou que vai participar "ativamente" das eleições de 2022, "como eleitor, cidadão ou candidato", mas que estará em  caminho diferente da "esquerda equivocada" e do "Bolsonaro desequilibrado". 

Quando o senhor ouviu falar sobre a covid-19 e em que momento percebeu que se tratava de uma doença grave?

O Brasil foi um dos primeiros países a questionar a OMS sobre a doença, quando o Wanderson Oliveira (ex-secretário de Vigilância Sanitária) ouviu ruídos sobre o vírus. Quando fui para o Fórum de Davos, parei em Genebra. Lá eu iria jantar com Tedros (Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS), mas ele disse que não iria participar, pois haveria reunião no comitê de emergência sobre a doença. Eles (a cúpula da OMS) racharam sobre declarar emergência global. Aí fizeram (a declaração): é uma emergência para Wuhan e um alerta internacional.

A demora da OMS em declarar pandemia atrasou ações contra a covid-19?

Com certeza. Sinalizavam que era um vírus lento. Mas em intervalo de dois meses estava nos cinco continentes e a OMS seguia tratando como problema local. Fui o primeiro ministro da Saúde a falar que estávamos diante de uma pandemia e eles não queriam usar este termo. Se tivessem falado que era um vírus leve, rápido, a gente teria de dimensionar tudo.

Quando o senhor falou ao presidente que a doença causaria uma grave crise?

Quando tivemos o primeiro caso no Brasil e o sistema de saúde da Itália caiu. Mas ele começou a entrar na mesma vibe do Trump, não dimensionou. Ele tinha uma viagem aos EUA. Eu já estava dando o alerta, tinha de fazer um plano de biossegurança. Eles não queriam usar nem álcool em gel para não transparecer preocupação.

Percebeu em que momento que Bolsonaro assumiu postura diferente daquela recomendada pela Saúde?

O presidente começou a forçar saídas e aglomerações. A imprensa me perguntando: "Você está dizendo para pessoal se cuidar e o presidente fica saindo". Ele me convidou (para as saídas), mas como percebeu que eu não iria começou a chamar o presidente da Anvisa (Antonio Barra Torres). A Anvisa servia como autoridade de saúde para legitimar aquilo. Ele também tinha convocado protesto para um domingo e eu precisava demover ele daquela ideia. O presidente me chamou para uma "live" e disse (aos apoiadores) que era melhor não irem à manifestação, mas no domingo ele sai, abraça, beija. Era para ele estar em quarentena, porque teve contato com infectados na viagem aos EUA. Daquele momento para frente foi só..."bom, não vou poder contar com ele para enfrentar isso".

Com as informações disponíveis hoje sobre a doença, o senhor teria feito algo diferente no cargo de ministro?

Não. Fiquei no ministério. Eles não queriam fazer nenhuma campanha de esclarecimento ao público. Passei a utilizar a imprensa, usar boletins, fazer coletivas, para imprensa fazer o papel que foi fundamental naquele momento. Chegamos a zerar as máscaras. Então dissemos: use máscara de pano. Estamos numa pandemia. Conseguimos um navio da China de equipamentos de proteção porque eu pedi ao ministro para deixar sair o último navio, que levou 20 dias para chegar. Fazia licitação e dava "zero". Pessoal querendo cobrar a máscara a R$ 8 por unidade. Abrimos linha de montagem para respiradores. E foi o que salvou. No meio disso ainda havia um conflito com a China.

O senhor acha que errou ao autorizar a primeira orientação sobre o uso da cloroquina?

Não, naquele momento havia consenso sobre uso compassivo, inclusive pela OMS, como uma última tentativa. Autorizei para uso hospitalar. Agora, colocar isso na rede, recomendar tratamento com cloroquina, aquele negócio, aquilo não. Na semana anterior à minha saída, após uma reunião com o presidente em que todo mundo dava como certo que eu seria demitido, me chamaram numa sala onde estava a Nise Yamaguchi (médica defensora da cloroquina) e muitos ministros. Eu cheguei na reunião e havia uma minuta de decreto, mas não oficial, em papel timbrado, com sugestão para que a Anvisa colocasse indicação para covid na bula da cloroquina. Eu olhei para o presidente da Anvisa e ele disse que não faria aquilo em hipótese alguma. Eu disse: o presidente está extrapolando.

 

Como o senhor vê a situação da pandemia hoje e o que pode ser feito?

Brasil está como uma nau sem rumo. O que poderia ser feito: começar por colocar gente que entende de saúde e epidemia para conduzir, gerar políticas, recuperar o SUS. Tem de começar a refazer o sistema, que está totalmente fragmentado. Estamos num caos. Não tem liderança que fala pela saúde brasileira. O papel do ministério se perdeu.

Qual a responsabilidade do ministro Eduardo Pazuello na crise?

Ele é responsável. Se o presidente me chamar para ser chefe do Exército, vou falar: não tenho formação. Se me botarem pra dirigir um boeing com 400 pessoas dentro, vou dizer que não posso pilotar. Vou derrubar o avião. Ele está num cargo em que não tem condições técnicas para administrar. Retirou a equipe técnica. Não precisava ficar comigo, mas por que tirar o Wanderson? Um dos 3 ou 4 melhores epidemiologistas do mundo. A culpa do Pazuello é na formação da equipe. Ele forma pensando que está dentro de um quartel. Não é lugar de mando, mas de liderança, que se impõe pelo conhecimento do sistema, da doença. Ele não tem conhecimento do sistema, da doença nem do ser humano.

Como vê os próximos meses da doença?

Um agravamento da doença. Vamos passar pela sazonalidade, mas com a nova cepa. Vimos isso na região Norte, onde faltou oxigênio, o que é uma barbeiragem enorme. O Brasil não estuda a nova cepa e o ministério fez um movimento errado de tirar os pacientes de Manaus de qualquer jeito. Ele plantou a nova cepa em todo o País. A gente tem uma situação em que a cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça.

O senhor será candidato nas eleições de 2022?

Vou participar ativamente da eleição, agora, como eleitor, cidadão, candidato... Isso aí, não consigo ainda afirmar. Com certeza vou procurar um caminho que não seja nem daquela esquerda equivocada, que plantou essa crise toda, nem desse Bolsonaro desequilibrado, que planta esse caos todo.

Pensa em sair do DEM? Está falando com algum partido?

Depende. A gente tem de escutar. Entrei no DEM em 2009 para poder fazer crítica à política de saúde quando o PT tinha alta aprovação. Não tenho necessidade de aderir a um governo, mas à verdade. Agora, se esse partido vai por esse caminho, ótimo. Senão, vamos aguardar, talvez algum outro vá, aí eu me apresento e peço para entrar. Está todo mundo conversando com todo mundo. Se cada conversa virar notícia, vocês não vão ter mais página de jornal.

O senhor disse que não quer ficar no grupo do presidente, mas fez parte do governo mesmo conhecendo Bolsonaro como deputado, quando ele votou a favor da pílula do câncer e defendeu abertamente a tortura. O senhor acha que cometeu um erro ao entrar no governo e até validar posições do governo?

O presidente a gente conhece quando ele assume. Eu conhecia um deputado Bolsonaro, que era polêmico. Eu votei nele porque queria uma ruptura com o PT. Agora, a gente sempre acredita. Eu já vi de tudo lá de dentro, da Câmara. Tanto gente como Bolsonaro, como da esquerda que acha o Maduro um humanista. O que a gente imagina: quando uma pessoa chega na Presidência, o peso do cargo, liturgia, responsabilidade por uma nação com tantos desafios, que o cargo vai moldar. A proposta que ele me fez foi de montar o ministério com equipe técnica. Montei a melhor equipe. Só que o dia que veio um problema na nossa frente e eu precisava dele, aí ele não queria um ministério técnico, mas político. Aí você fala: isso aqui não é sério, é equívoco.

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Ninguém mais lembra de quem está na linha de frente, diz fisioterapeuta de UTI covid

Profissional do Instituto Emílio Ribas, Graziella Xavier de Barros atua no atendimento a pacientes com coronavírus desde os primeiros casos, há um ano, e reclama do descaso da população com as medidas de proteção

Entrevista com

Graziella Xavier de Barros, fisioterapeuta da UTI do Instituto Emílio Ribas

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2021 | 14h00

SÃO PAULO - Fisioterapeuta hospitalar do SUS há dez anos, Graziella Xavier de Barros, de 38 anos, é uma das milhares de profissionais de saúde que estão na linha de frente de assistência aos pacientes graves com covid-19 desde os primeiros casos da doença no País.

Neste um ano de pandemia, marcado pelo aniversário do primeiro caso registrado no Brasil, em 25 de fevereiro, ela atendeu centenas de doentes, viu a frequência de óbitos subir nas UTIs, foi contaminada pelo vírus e presenciou a morte de quatro colegas pela doença. 

Funcionária do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência no tratamento da covid, e do Hospital Estadual Padre Bento, em Guarulhos, ela dedica 60 horas da sua semana ao atendimento de pacientes com coronavírus. A sobrecarga de trabalho e o sofrimento de tantos pacienes e famílias a fizeram intensificar as sessões de terapia e procurar um psiquiatra, que a diagnosticou com depressão.

Em entrevista ao Estadão sobre o balanço de um ano da pandemia, ela diz que a sensação é de abandono por parte da população, que, cansada da quarentena, se aglomera e desrespeita as medidas de proteção sem pensar no esgotamento de quem está no combate.

"Entendo que a saúde mental de todos foi colocada em teste, mas a empatia com o pessoal da saúde foi diminuindo, foi sendo esquecida, parece que as pessoas não estão mais nem aí mesmo, ninguém lembra da gente. No começo, tinha homenagens, palmas, a gente recebeu até presentes de grandes empresas. Agora, estamos esquecidos. Parece que ninguém está lembrando de que quem está ali na linha de frente", disse. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Muitas pessoas exaltam o trabalho de médicos e enfermeiros, mas nem todos lembram do fisioterapeuta nessa assistência a pacientes com covid. Qual é a importância da fisioterapia para um paciente grave com a doença?

Essa é uma pergunta que eu escuto muito: como é o trabalho de um fisioterapeuta dentro de uma UTI? A fisioterapia respiratória é pouco conhecida, mas no hospital a gente faz muito isso. O fisioterapeuta do hospital preconiza a reabilitação do paciente como um todo, então trabalha para verticalizar (colocar sentado ou em pé) o paciente o mais rápido possível porque as funções orgânicas se dão de maneira melhor quando o paciente verticaliza. Junto à equipe médica e de enfermagem, a gente tenta traçar um plano para acordar esse paciente o mais cedo possível, caso ele esteja sedado e entubado, para voltar a dar as funções dele de sentar, comer, se levantar. E a gente foca bastante também na reabilitação cardiorrespiratória. A fisioterapeuta se utiliza de algumas manobras que fazem com que o pulmão fique livre de secreções para evitar que o paciente desenvolva uma pneumonia. Também atuamos no ajuste da ventilação mecânica, que é primordial para os pacientes entubados. O ventilador é um aparelho complexo que demanda ajustes finos. Além disso, com a pandemia, ficou também bem conhecida a posição prona, que é colocar o paciente de bruços. É uma manobra super delicada e complexa, envolve a equipe inteira. E o fisioterapeuta também tem a responsabilidade de auxiliar o posicionamento porque o paciente não pode ter compressão de pontos que podem formar escaras.

Ou seja, são coisas fundamentais para a sobrevivência...

Sim, porque o paciente crítico de covid, além de ele ter esse déficit na captação de oxigênio, o pulmão dele está todo inflamado, então a gente está lá limpando o pulmão, ventilando, precisamos checar se a concentração de oxigênio não está nociva para as células do corpo. A gente regula tudo. E além disso, a gente tem que prevenir o máximo possível de perda de função, porque o paciente fica muito deitado, ele começa a perder musculatura, inclusive a musculatura respiratória

Quando você ouviu falar pela primeira vez do coronavírus, ainda quando estava localizado na China, você imaginava que seria tão grave?

Não imaginava. Eu vivi parte da pandemia de H1N1 e, naquela época, nós internávamos um paciente com H1N1 a cada semana ou a cada quatro dias. E era assustador, a gente tinha medo de pegar, mas dava tempo de se planejar e dar uma atenção especial àquele paciente. Quando eu comecei a ouvir falar do vírus lá na China, primeiro torci para que não se espalhasse ou para que chegasse fraco aqui. Em um primeiro momento, eu achei que não chegaria, depois, quando percebi que a Europa estava sendo devastada, comecei a acreditar que chegaria no Brasil e pensei que, se fosse igual na Itália, o Emílio Ribas seria o olho do furacão. Em março, começaram a chegar os primeiros casos e caiu a ficha. Esse comecinho foi duro porque ainda era tudo muito novo sobre a doença. Então, ainda se falava de cloroquina, não sabíamos se podia usar corticoide, anticoagulante. Era tudo muito novo e experimental. E na fisioterapia também. Não sabia como o paciente com covid ia responder a maiores pressões. Hoje a gente tem uma experiência para lidar com o doente, mas no começo foi aterrorizante, fora o medo de pegar e levar para a nossa família. A gente vê todas as doenças aqui, mas a taxa de letalidade dessa doença eu nunca tinha visto, é assustador. 

Qual foi o momento mais difícil da pandemia pra você nesses 12 meses?

Eu tive dois momentos muito difíceis, em que eu sentei e chorei, sabe? O primeiro foi quando o Brasil estava batendo a marca de 5 mil mortos e a gente estava tendo alguns pronunciamentos dos nossos governantes. Me lembro que, nesse dia, houve uma declaração muito grosseira do presidente (Jair Bolsonaro, questionado sobre os óbitos, disse ‘E daí?). Nesse dia, eu vi um desses mortos na minha frente, um senhor com covid, que chegou ao hospital com uma saúde geral boa, parecia que ia se recuperar. Mas o pulmão dele piorou em questão de horas, uma piora progressiva, importantíssima, irreversível e aí ele fez uma parada (cardiorrespiratória) e não conseguimos reverter. Olhei e pensei: ‘meu Deus, ele é um dos cinco mil. São muitas pessoas mortas’. Um outro momento muito marcante para mim pessoalmente foi o óbito de uma das nossas médicas. Foram quatro colegas que morreram de covid no Emílio Ribas. Essa médica era uma pessoa muito querida e foi entubada no meu plantão. Ela estava com muita falta de ar, mas estava com medo de ser entubada. Daí eu entrei no leito e conversei com ela, de colega para colega, falei que se ela não recebesse oxigênio por meio artificial, o pulmão dela não ia dar conta. Ela concordou, foi tratada com sucesso e, dias depois, saiu da parte crítica pulmonar. Mas no dia seguinte à extubação dela, quando ela já respirava sozinha, ela teve a formação de um coágulo que também é sequela do vírus. Esse trombo se deslocou, foi para o cérebro e ela teve um AVC muito grave e, dias depois, morreu. Foi muito triste porque eu me lembro de ter dito pra ela para confiar na gente e, claro, nós demos o nosso melhor, mas foi muito chocante. Lidar com a vida de qualquer pessoa já é difícil, imagina a de uma colega. Foram quatro óbitos entre colegas e os quatro foram meus pacientes. É muito duro.

E com tantas perdas próximas, como você lidou com o medo de se contaminar?

Na semana seguinte à morte da médica, eu peguei covid. Tive a forma leve, fiquei isolada em casa por 21 dias sozinha, sempre tensa com a possibilidade de piorar. Eu tenho o privilégio de ter acompanhamento psicológico há anos, que eu acho importante. Eu tive que intensificar minha terapia e tive que iniciar também um tratamento com psiquiatra para tomar antidepressivo, porque comecei a me sentir muito ansiosa, muito triste, com muito medo e pânico. Muitos colegas também tiveram que partir para esse caminho. 

Qual é a parte mais cansativa dessa rotina de estar na linha de frente há um ano?

É essa questão de lidar com uma única doença. É impressionante como a doença tomou conta de todos os leitos. A realidade de uma UTI costuma ser mais diversa, tem lá um paciente cardiopata, um neurológico, pacientes com HIV. Com a covid, você só vê pacientes com a mesma doença todos os dias e todos muito graves. É pesado, desgastante, é uma coisa que acaba esgotando vocês e é muito triste também. A gente pensa: isso não vai parar nunca? Você trata alguns, eles se recuperam e chegam mais e mais. Eu sinto um certo abandono por parte da população. No início, ela estava bem empenhada a tentar ficar em casa e se preservar. Eu entendo que a saúde mental de todos foi colocada em teste, mas a empatia com o pessoal da saúde foi diminuindo, foi sendo esquecida, parece que as pessoas não estão mais nem aí mesmo, ninguém lembra da gente. No começo, tinha homenagens, palmas, a gente recebeu até presentes de grandes empresas. Agora, estamos esquecidos. Parece que ninguém está lembrando de quem está ali na linha de frente, vendo isso todo dia, sem aguentar mais. E abandono por parte dos nossos gestores, com falhas nos planos de vacinação. Daí a gente fica com essa sensação de estar enxugando gelo. Há um ano vendo as mesmas coisas, as mesmas tragédias, as famílias sendo destruídas, sem poder visitar nem se despedir dos seus parentes. 

E na pandemia, vocês precisam lidar com a perda mais frequente de pacientes do que antes, não é?

Sim. Antes da pandemia, eu tinha um óbito de paciente meu por semana, às vezes até menos. Na pandemia, já cheguei a ver quatro mortes em um único plantão. E por mais que a gente tenha hoje mais conhecimento da doença do que no início, com protocolos, medicações e técnicas, em alguns casos a doença chega com uma violência tamanha que leva um monte de gente. Toda vida que a gente consegue salvar, dá aquele gás para continuar lutando, mas aí alguns têm alta e chegam dez e mais dez e isso não tem fim. A gente fica desolado.

Qual é o maior aprendizado que fica de toda essa situação e o que você gostaria de dizer para a população que hoje esquece dos profissionais da linha de frente?

Uma coisa boa que ficou de aprendizado foi que a união faz a força mesmo. A equipe precisou ficar unida no aprendizado sobre a doença, no cuidado com os pacientes e com os colegas que adoeceram. Fiquei muito tocada com isso. É uma doação ímpar, por amor à profissão e ao ser humano, Qualquer pessoa que esteja em uma situação de risco iminente, a tendência é se afastar do perigo, fugir. O profissional de saúde teve que mergulhar de cabeça nesse risco para salvar vidas durante a pandemia. Mas, paralelamente a isso, a gente também percebe o descaso por parte de algumas pessoas. Eu deixaria uma mensagem para a população com um pedido de ajuda. Eu já estou me preparando para uma terceira onda por causa das festas clandestinas de Carnaval. Peço que recuperem aquela energia do começo da pandemia para ficar em casa pelo bem coletivo. É preciso zelar pela saúde própria e dos seus familiares e pela nossa. É um apelo. A gente já está há um ano nisso e não está fácil.

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