Marcivan Barreto
Marcivan Barreto

Um terço das mães em favelas já relata escassez de comida, diz levantamento

Fome ronda as famílias que vivem em comunidades de todo o País, de acordo com pesquisa realizada pela Data Favela e pelo Instituto Locomotiva

Mônica Scaramuzzo Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

No cenário de pandemia de coronavírus, a situação nas favelas brasileiras é urgente – a fome já ronda as famílias que vivem em comunidades de todo o País, de acordo com pesquisa realizada pela Data Favela e pelo Instituto Locomotiva. Segundo o levantamento, 92% das mães entrevistadas entre os dias 26 e 27 de março disseram que, dentro de um mês, terão dificuldade para alimentar os filhos caso um programa de distribuição de renda não as alcance. Segundo 34% delas, a escassez de comida já é um problema.

A situação é agravada por dois fatores. A primeira é a freada geral da economia com o isolamento social, que corta a renda das mulheres autônomas. “A marmiteira, a diarista e a vendedora ambulante dependem da circulação para ganhar dinheiro. Nem quem vende bala no semáforo consegue arrecadar”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. Além disso, 76% das mães disseram que a suspensão das aulas ampliou gastos, pois a merenda da escola garantia parte das refeições das crianças.

É o caso de Elaine Torres Santos, de 32 anos. Mãe de seis filhos, ela perdeu seu barraco em Heliópolis, zona sul de São Paulo, no início do ano, por causa das chuvas. Com ajuda da comunidade, alugou uma casa perto de onde morava e garantiu dois meses de aluguel. “Agora, com o coronavírus, minha vida virou de cabeça para baixo. Estou desempregada e com gastos maiores com alimentação. Eu tinha conseguido creche para os meus filhos. A situação piora com eles comendo em casa.” 

Sem ter como alimentar seis bocas, Elaine mandou seus dois filhos mais velhos, de 10 e 13 anos, para a casa de uma tia. “Tenho filhas gêmeas recém-nascida e um filho de 6 anos com tuberculose”, conta. 

Autônomos 

A dificuldade de quem trabalha por conta própria atinge em cheio a renda das favelas. Entre as 621 mulheres ouvidas pelo levantamento, 37% se disseram autônomas. Como é comum que ao menos um dos moradores de cada residência trabalhe por conta própria, 84% das entrevistadas disseram que a crise já afetou parcialmente a renda da casa.

A situação é emergencial. Por isso, a Central Única das Favelas (Cufa), que está presente em 260 comunidades pelo País, usa os líderes comunitários para definir quem deve receber os donativos primeiros. “A gente precisa identificar quem está sem comida na mesa hoje e colocar dinheiro na mão dessas pessoas o mais rápido possível”, diz Celso Athayde, presidente da Cufa.

 

A entidade, com ajuda de empresas, está montando um programa para distribuir uma ajuda de custo mensal de R$ 120, por dois meses, para 10 mil mães de família em favelas já a partir do próximo dia 15.

Nas favelas, 49% dos lares são liderados por mães, que além de criar os filhos também cuidam dos próprios pais. A pesquisa mostra que 87% dessas mães estão preocupadas com a saúde de parentes mais velhos. “As favelas têm 5,2 milhões de mães. O drama se divide entre proteger sua saúde e o que ter para comer em casa”, ressalta Meirelles, do Locomotiva.

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