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Uma coisa que faz diferença numa pandemia é o quanto confiamos nos nossos líderes

Resultados mostram que de fato as pessoas não confiam em líderes que fazem escolhas utilitárias quando o que está em jogo é o dano instrumental – sacrificar poucos em benefício de muitos

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2021 | 05h00

No começo da pandemia de covid-19, uma dicotomia que tomou conta das conversas nos happy hours virtuais – já que não se podia mais ter conversas em mesas de bar – era a que opunha saúde e economia. Segundo esse raciocínio do tudo ou nada, ou bem salvávamos a vida das pessoas trancando todo mundo em casa até a extinção do vírus – destruindo a economia – ou bem mantínhamos a economia rodando, condenando milhões de pessoas à morte como consequência. 

A ligeireza – tanto no sentido de velocidade como de superficialidade – das redes sociais se encarregou de amplificar o alcance e a importância dessa falácia e só o tempo conseguiu mostrar (apesar de muitos ainda se recusarem a ver) que se tratava de uma falsa dicotomia. Não é possível manter a economia rodando com as pessoas morrendo aos montes, em filas de UTI e sem oxigênio. Tampouco é possível garantir recursos para a saúde das pessoas em um país falido. A atuação em ambas as frentes, fazendo o possível para deter o contágio e estimular a economia, se provou a melhor estratégia. 

Ou seja, o mundo real é mais complexo e requer soluções mais elaboradas do que as respostas prontas dos extremos. É preciso fazer escolhas para encontrar esse equilíbrio. Quanto tempo manter o comércio fechado e quando é seguro abri-lo? Em que grau devemos restringir a mobilidade das pessoas em detrimento da plena liberdade? E mais: onde alocar mais recursos para a saúde – para quem tem mais risco de morrer ou mais chance de viver? Qual população vacinar em primeiro lugar, os com mais chance de se infectar ou com menos chance de sobreviver?

A filosofia moral é uma área que se debruça sobre as várias maneiras de se abordar os dilemas éticos, situações em que valores entram em conflito, embaçando o caminho a seguir. O utilitarismo talvez seja a forma mais famosa de se decidir olhando para as consequências: para ele, certo é o que beneficia o maior número de pessoas. É uma ideia que tem apelo, claro, mas esbarra em dificuldades quando aplicada na prática. Vejamos: se é certo fazer o que beneficia o maior número de pessoas, numa situação em que fosse preciso perder uma pessoa para salvar várias, não teríamos de hesitar. Mas essa é uma situação que encontra muita resistência. Da mesma forma, se o certo é maximizar as consequências positivas de nossas ações, nós não podemos usar outros critérios, como a nacionalidade nem mesmo os laços de parentesco, em nossas decisões. É uma demanda que pode ser excessiva, se for preciso, por exemplo, prejudicar alguém da nossa família para ajudar centenas de desconhecidos. 

A pandemia da covid-19 tornou o mundo um laboratório gigantesco para avaliar as intuições morais na vida real. Cientistas de vários países, inclusive o brasileiro Paulo Boggio, da Universidade Mackenzie, investigaram as reações de mais de 20 mil voluntários de 22 países diferentes diante das atitudes de seus líderes em dilemas reais surgidos na pandemia. Apresentaram situações em que havia a escolha de infligir ou não dano a alguém para benefício de outros, como priorizar o uso de respiradores para um grupo em detrimento de outro ou distribuir igualmente as vagas; e também situações em que a escolha era entre ser imparcial ou beneficiar a população local, como enviar medicamentos para regiões que mais precisassem ou priorizar o país de origem.

Os resultados mostraram que de fato as pessoas não confiam em líderes que fazem escolhas utilitárias quando o que está em jogo é o dano instrumental – sacrificar poucos em benefício de muitos. Mas quando os líderes são imparciais, mesmo que isso não beneficie os seus, ganham mais confiança das pessoas.

Pode parecer muita filosofia para uma coluna só, mas é uma maneira bastante relevante de pensarmos a atuação de nossos governantes em geral. A percepção das pessoas sobre essas decisões pode ser mais importante do que imaginamos, porque se tem uma coisa que faz diferença numa pandemia é o quanto confiamos nos nossos líderes.

É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP) 

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