Uma crise de coronavírus possivelmente fatal, ignorada: a necessidade urgente de diálise dos rins

Aumento de pacientes de Covid-19 com insuficiência renal vem provocando escassez de máquinas

Reed Abelson, Sheri Fink, Nicholas Kulish e Katie Thomas, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 10h00


Durante semanas, autoridades do governo dos Estados Unidos e dirigentes de hospitais alertaram para uma futura escassez de ventiladores à medida que a pandemia do novo coronavírus se fazia presente. Mas agora os médicos soam o alarme para uma crise inesperada e possivelmente ignorada: o aumento de pacientes de Covid-19 com insuficiência renal, o que vem provocando uma escassez de máquinas, suprimentos e funcionários necessários para realização de diálises de emergência.

Nas últimas semanas, médicos na linha de frente nas unidades de tratamento intensivo em Nova York e outras cidades muito atingidas perceberam que o novo coronavírus não é somente uma doença respiratória que leva a uma demanda avassaladora de ventiladores.

A doença também está paralisando o funcionamento dos rins de alguns pacientes, representando mais uma série de cálculos de vida ou morte para os médicos que precisam passar um suprimento limitado de aparelhos de diálise especializados de um paciente com falência renal para outro – temendo não ser capazes de atender a todos em tempo para salvá-los.

Não se sabe ainda se os rins são um alvo importante do vírus ou se apenas mais um órgão vítima dele à medida que o corpo devastado de um paciente se rende. A diálise preenche os papéis vitais desempenhados pelo rim, limpando o sangue de toxinas, equilibrando componentes essenciais, incluindo os eletrólitos, mantendo controlada a pressão do sangue e removendo fluídos em excesso. A diálise pode ser uma medida temporária enquanto os rins se recuperam, ou adotada a longo prazo no caso contrário. Outro fator desconhecido é se os danos causados pelo vírus nos rins são permanentes.

“Os nefrologistas em Nova York estão enlouquecendo para garantir que todos os pacientes com insuficiência renal sejam tratados”, disse David Goldfarb, diretor da área de nefrologia do New York Harbor VA Health Care System. “Não queremos que as pessoas morram por causa de uma diálise inadequada. Nunca essa situação foi observada em termos do número de pessoas necessitando de terapia de substituição do rim”.

Fora de Nova York, a demanda crescente em todo o país por tratamentos renais vem esgotando as unidades de tratamento mais avançadas de hospitais em locais como Boston, Chicago. Nova Orleans e Detroit.

Especialistas estimam que entre 20% e 40% dos pacientes em unidades de terapia intensiva com coronavírus sofrem de falência renal e precisam de uma diálise de urgência, afirmou Alan Kliger, nefrologista na Yale University School of Medicine, que copreside uma equipe de resposta à Covid-19 para a American Society of Nephrology.

Quando o novo coronavírus se propagou rapidamente em Nova York e outras cidades, governadores e prefeitos clamaram por milhares de ventiladores. Mas os médicos também foram surpreendidos pela escassez de aparelhos de diálise e outros equipamentos, especialmente para diálise contínua. Esse tratamento com frequência é usado para substituir o trabalho de rins afetados em pacientes graves.

A escassez não é somente de máquinas, mas também de fluídos e outros suprimentos necessários para diálise. Além disto, manter um número suficiente de enfermeiros treinados para realizar o tratamento também tem sido difícil. Os hospitais pediram ao governo federal para ajudar no sentido de ser dada primazia para equipamentos, suprimentos e pessoal para as áreas do país que mais necessitam, acrescentando que as fabricantes não têm respondido totalmente à demanda mais alta.

Os fluidos necessários para movimentar os aparelhos de diálise não estão na lista de controle da FDA (agência que regula as áreas de medicamentos e alimentos) quanto à potencial escassez de drogas, embora a agência esteja monitorando de perto os suprimentos. A Federal Emergency Management Agency qualificou essa falta de suprimentos e equipamentos como “sem precedentes” e declarou que está trabalhando com manufaturas e hospitais para buscar estoques adicionais nos Estados Unidos e no exterior.

“Todos acham que esta é uma doença respiratória”, destacou David Charytan, diretor do setor de nefrologia no NYU Langone Medical Center. “Não acredito que este problema renal estava no radar das pessoas”.

O volume de pacientes necessitando de diálise “é muito maior do que o número de pacientes que normalmente necessitam dessa diálise”, argumentou Barbara Murphy, presidente do departamento de medicina no Mount Sinai Health System. Somente no seu hospital, o número de pacientes nessas condições aumentou três vezes.

A escassez de produtos médicos nos Estados Unidos ressalta a falta de planejamento entre autoridades federais e estaduais de modo a assegurar que “os centros que são foco da doença, como Nova York, tenham acesso preferencial aos suprimentos necessários e recebam volumes maiores”, continuou a médica.

Murphy disse que áreas do país que vêm se preparando para um possível salto na demanda por ventiladores “também precisam pensar em diálise” e um sistema de distribuição nacional.

Os hospitais estão agora rogando para as grandes fabricantes enviarem mais suprimentos. Quando o novo coronavírus chegou aos Estados Unidos, a Baxter and NxStage, empresa de propriedade da Fresenius, estabeleceu limites para as encomendas dos hospitais para evitar um acúmulo.

Michael Ross, que dirige a divisão de nefrologia do Montefiore Health System em Nova York, disse ter conversado por telefone com líderes de uma empresa que produz equipamentos de diálise, “falando sobre como a situação está crítica para nossos pacientes”. Seu pedido foi por mais aparelhos de diálise, filtros, fluídos e tubos para diálise contínua.

As duas principais fábricas de equipamentos e suprimentos para diálise disseram que hoje as encomendas são cinco vezes maiores e que estão aumentando a produção, e também enviando equipamentos e enfermeiros para a região de Nova York. Baxter, que tem sede em Illinois, também observou aumento na demanda da China e da Europa e que estava recebendo produtos extra por avião vindos do continente europeu.  “A demanda deu um salto rápido e alto”, avaliou Lauren Russ, porta-voz da Baxter. “Estamos fazendo todo o nosso possível”.

Na sexta-feira, a Fresenius anunciou que está fabricando um lote de aparelhos que podem ser movidos de lugar para lugar. “Estamos comprometidos em ajudar os hospitais com entregas contínuas, particularmente nos mercados mais impactados, de modo que os pacientes tenham o tratamento que necessitam”, afirmou Bill Valle, diretor executivo da Fresenius Medical Care North Americana, em Massachusetts.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, foi indagado sobre notícias de que os hospitais estavam com falta de aparelhos de diálise. O encarregado da saúde do Estado, Howard Zucker, disse que “não há escassez no geral”, e, segundo Cuomo, os hospitais que necessitam de equipamentos o terão.

Em um comunicado, o diretor executivo da Baxter, José Almeida, afirmou que a companhia procura dar prioridade à entrega de produtos “onde são mais necessitados: hospitais inundados de pacientes gravemente enfermos da Covid-19”.

No Columbia University Irving Medical Center, Donald Landry, que preside o departamento de medicina, contatou diretamente Bill Valle, da Fresenius, quando outros esforços fracassaram e a situação ficou desesperadora. Apesar de dizer que agradecia à empresa pelo envio de mais máquinas, suprimentos e enfermeiros especializados em diálise, Landry descreveu a experiência como um alerta para os hospitais melhor se prepararem. “Nova York nos deu um vislumbre de quando um sistema chega no seu limite”.

Joshua Rosenberg, médico da unidade de terapia intensiva no Brooklyn Hospital Center, disse na quinta-feira que vem observando danos nos rins numa ampla camada de pacientes além daqueles já predispostos à doença porque tinham pressão alta ou diabetes.

Mais de uma dezena dos cerca de 240 pacientes em clínicas de diálise dos hospitais morreram de Covid-19, destacou o nefrologista Priyanka Singh. Pessoas com doenças renais crônicas podem ser particularmente vulneráveis.

Os médicos também estão empregando tipos alternativos de diálise. Alguns hospitais de Nova York, incluindo o NYE, Montefiore e Weill Cornell, que estão com escassez de aparelhos mais especializados, passaram a adotar a diálise peritoneal, usada em pacientes com doenças renais crônicas que desejam se tratar em casa. O tratamento nem sempre é o melhor no caso de pacientes hospitalizados, especialmente aqueles cujas condições são menos estáveis, mas “estamos oferecendo alguma coisa aos pacientes”, disse Charytan.

Outros hospitais também estão tendo dificuldade para conseguir número suficiente de enfermeiros e técnicos para realizarem a diálise, especialmente depois de alguns deles terem contraído a Covid-19 também.“Perdemos enfermeiros para a doença”, lamentou Murphy. “Alguns estão de volta, mas tem sido um desafio. Esgotamos todas as possibilidades que tínhamos dentro do Estado no tocante a aumentar o número de enfermeiros”.

Os médicos também vêm lutando para assegurar que os pacientes que precisam de tratamento imediato o recebam e ao mesmo avaliar se outros podem esperar. “Agora temos de refletir mais quanto a se um paciente precisa realmente do tratamento e podemos cuidar dele com medicamentos sem diálise para podermos oferecê-la para algum doente que necessita com mais urgência”, indicou Ross. “Não são decisões que gostamos de tomar”. / Tradução de Terezinha Martino

 

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