Mauro Pimentel / AFP
Mauro Pimentel / AFP

Uma em cada 5 pessoas no mundo tem alguma doença que pode agravar caso de covid-19

Análise feita com estimativas de doenças em 188 países revela que 22% da população mundial tem comorbidades que elevam o risco caso haja infecção com o novo coronavírus; 349 milhões poderiam precisar de internação

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 19h30

SÃO PAULO - Cerca de 20% da população mundial apresenta alguma condição de saúde que pode aumentar o risco de desenvolver um quadro mais grave em uma eventual infecção por covid-19. É o que aponta um estudo de modelagem populacional que analisou as condições de saúde dos habitantes de 188 países em todo o mundo, por idade e por sexo.

A análise, publicada nesta segunda-feira, 15, na revista Global Health, do grupo The Lancet, foi feita com base em dados de prevalência de doenças no mundo presentes no estudo Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco de 2017, também da Lancet

Os cientistas buscaram ali informações sobre as doenças consideradas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por agências de saúde dos Estados Unidos e do Reino Unido como fatores de risco para um quadro grave de covid-19, como doenças cardiovasculares, doenças renais crônicas, diabetes e doenças respiratórias crônicas.

De acordo com o levantamento, cerca de 1,7 bilhão de pessoas, ou 22% da população global, têm pelo menos uma dessas condições subjacentes que as coloca em risco aumentado de covid-19 grave se infectados. 

A taxa varia conforme a idade: de menos de 5% para menores de 20 anos a mais de 66% das pessoas com 70 anos ou mais. Entre a população em idade ativa (15 a 64 anos), o trabalho estima que 23% tenham pelo menos uma condição subjacente.

Os pesquisadores calcularam também o risco de hospitalização com base na presença dessas comorbidades. Eles estimaram que 4% da população mundial, ou 349 milhões, demandariam internação hospitalar se fossem infectados. O quadro, mais uma vez, é pior entre os mais idosos: cerca de 20% para as pessoas com 70 anos ou mais e menos de 1% para aqueles com menos de 20 anos. 

O cenário também muda conforme o gênero. Apesar de a prevalência de doenças ser parecida entre os sexos, os autores assumiram que os homens têm duas vezes mais chances de necessitarem de hospitalização se infectados que as mulheres. A taxa foi de 6% para eles e 3% para elas.

Como a incidência de comorbidades está muito relacionada à idade, a parcela da população com risco aumentado foi maior nos países com populações mais velhas. Na Europa, por exemplo, 31% da população se enquadra no grupo de risco de ter uma doença mais grave. Em geral, na América do Norte, 28,3% da população tem esse risco aumentado. Já na América Latina e Caribe, onde a parcela jovem é maior, a proporção é de 21,1%. Para o Brasil, o estudo indica que 20,2% da população está nessas condições.

Na África, a proporção é de 16%, mas a alta prevalência de HIV / Aids coloca essa população em um risco mais alto em caso de infecção. Essa combinação pode ser a mais fatal, alertam os pesquisadores.

Políticas de distanciamento

O trabalho, porém, só considerou as condições crônicas de saúde. Não foram incluídos no cálculo outros possíveis fatores de risco para a covid-19, como etnia e privação socioeconômica. De modo que a fração da população mais vulnerável à pandemia pode ser ainda maior. 

Mesmo assim, os autores, liderados por Andrew Clark, do Departamento de Políticas e Pesquisa em Serviços de Saúde da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical, defendem que os dados podem servir como ponto de partida para formuladores de políticas decidirem novas estratégias de combate ao coronavírus. 

“À medida que os países estão deixando o isolamento, os governos estão procurando maneiras de proteger os mais vulneráveis de um vírus que ainda está circulando. Esperamos que nossas estimativas forneçam pontos de partida úteis para projetar medidas para proteger aqueles com maior risco de doença grave. Isso pode envolver aconselhar as pessoas com condições subjacentes a adotar medidas de distanciamento social adequadas ao seu nível de risco ou priorizá-las para a vacinação no futuro”, disse Clark, em comunicado à imprensa.

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