UMA FAMÍLIA RESISTIU A TUDO. MENOS AO EBOLA

UMA FAMÍLIA RESISTIU A TUDO. MENOS AO EBOLA

Vírus matou oito pessoas do mesmo clã na Monróvia; jovem que ia jogar basquete na NBA acabou sendo enterrado por estranhos

Norimitsu Onishi, The New York Times

15 Novembro 2014 | 17h11


MONRÓVIA - Dias depois que Kaizer Dour morreu em consequência do Ebola, às margens de um mangue, estranhos levaram seu corpo putrefato em uma canoa para enterrá-lo em um lugar secreto. O local do enterro foi em uma ilha desabitada, coberta de arbustos, longe da quadra de basquete nacional onde Kaizer foi aclamado como um dos mais valorosos jogadores da Libéria na última temporada. Os estranhos cumpriram um dos mais importantes deveres de uma família liberiana: enterraram o jovem.

Um dos homens de pé até os joelhos em uma vala rasa, jogou areia sobre o corpo, medindo 1,85, do rapaz. O outro, tomando um trago de um gin local chamado Manpower, proferiu um discurso de despedida do jovem, na falta dos familiares. "Ninguém da sua família está aqui para representá-lo", disse o homem, que foi filmado pela câmara de um celular. "Sua mãe deu uma rosa que deveríamos enterrar com você como lembrança dela. Ela fez o máximo que pôde, mas estava sozinha."

O enterro, de uma das incontáveis mortes não registradas nesta que é a mais letal epidemia de Ebola da história, foi o fim no anonimato de um jovem da classe média prestes a se tornar uma celebridade. Uma estrela em ascensão da liga de basquete da Libéria, Kaizer Dour, de 22 anos, sonhava em jogar um dia no Los Angeles Lakers, time do seu ídolo e ala-armador Kobe Bryant. Seu perfil no Facebook, atualizado três semanas antes da sua morte, em 9 de agosto, ele aparece girando uma bola de basquete e a luz do teto iluminando seu rosto de jovem seguro de si mesmo.

Um enterro digno com certeza teria atraído centenas de pessoas: companheiros de equipe, amigos, fãs e membros da sua enorme família, para quem ele era um motivo de orgulho. Mas esta estranha e terrível doença chamada Ebola, nova nesta parte da África, já começara a dilacerar uma família bastante unida, trazendo medo, ira e no final a morte daqueles que o amavam.

O Ebola é uma doença familiar, e os liberianos são lembrados continuamente disto nos sermões dos domingos. Quanto mais as famílias se unem para combater a doença, mais elas se desintegram.

A enorme família de Kaiser sobreviveu a 14 anos de guerra civil na Libéria, tornou-se mais forte na luta contra a pobreza, contra dirigentes gananciosos e governos indiferentes. Assim, quando Kaizer adoeceu, sua mãe, Mamie Doryen, agiu como sempre, recorreu à família para cuidarem do filho doente.

Kaizer, que foi infectado pelo pai, logo passou o vírus para duas tias. Ao todo, sete membros de três gerações morreram em uma rápida sucessão. Sua mãe, uma figura dominante do clã familiar, sobreviveu. Mas ao ser responsabilizada pela calamidade que se verificou, ela se escondeu, uma pária no momento de maior necessidade da sua família, que não conseguiu manter-se em pé.

"O Ebola é como uma bomba", disse um dos tios de Kaizer.

Esta destruição de famílias é a grande tragédia provocada pela epidemia. Em um continente onde muitos Estados são frágeis, até agora a família ainda é a instituição mais importante na África. E isto é especialmente verdade em países assolados pela doença - Libéria, Serra Leoa e Guiné - três entre os mais frágeis e pobres da África. Os efeitos do Ebola na região, corroendo as reais instituições que mantêm unida a sociedade, podem ser de longo prazo e de longo alcance.

Mesmo hoje, com a ajuda dos Estados Unidos e outros países aumentando, muitas vítimas ainda são tratadas dentro de casa, lugar de socorro e fonte de contágio. "Eles estavam juntos, era uma família forte, mas o Ebola esfacelou o clã inteiro", afirmou o reverendo James Narmah, ministro pentecostal que conhece a família de Kaizer. "É o que vem ocorrendo hoje. O Ebola tem provocado muitas divisões, muito ódio, no âmbito das famílias e das comunidades, por toda a parte."

Batalhas. Os avós paternos de Kaizer, Joseph e Martha Doryen, tinham cinco filhos e cinco filhas. Todos sobreviveram à guerra civil da Libéria de 1989 a 2003, uma guerra brutal até mesmo pelos padrões das guerras vividas pela África.

Antes do início dos combates, quando rebeldes tentaram derrubar a ditadura militar, Joseph Doryen trabalhava como motorista no Ministério da Agricultura e, depois, como chofer de um rico empresário da Guiné. Como o empresário fugiu da guerra, Joseph Doryen começou a plantar batatas verdes em Capitol Hill, um arrabalde de Monróvia. As crianças ajudavam e sua mulher vendia o produto em um mercado local.

Até a morte de Joseph Doryen, há três anos, o casal sempre era visto passeando juntos ou sentados sob uma mangueira atrás da casa. Os dez filhos eram todos "do mesmo pai e da mesma mãe", uma raridade em uma grande família dessa geração.

Como seu modelo americano em Washington, Capitol Hill em Monróvia tem esse nome em homenagem ao Capitol Building, um dos muitos vínculos existentes entre Estados Unidos e a Libéria, país fundado por escravos livres americanos em 1822. Mas o fato de estar próxima da sede do governo da Libéria tornou o bairro um alvo frequente. Mas nem mesmo a guerra foi tão terrível quanto o Ebola, disse a família.



"Mesmo quando vivíamos em guerra, conhecíamos algum lugar seguro para ir", disse Anthony Doryen, 39 anos, o segundo filho mais velho. "Desta vez você nem sabe para onde ir. O Ebola é uma doença que destrói famílias. A doença o torna medroso porque, quando está junto com a família, aparentemente está em contato com a doença. Isto faz com que você se afaste dela."

Hoje, ruelas sujas de Capitol Hill serpenteiam em torno das casas com tetos ondulados seguros por grandes pedras pesadas. A leste, o Templo da Justiça se destaca acima das palmeiras. A Mansão Executiva do presidente está próxima dali, mais ao sul. A bandeira liberiana nos prédios do governo - vermelha com listras brancas e uma estrela branca em um quadrado azul - pode ser confundida com a bandeira americana.

Para a família Doryen, a Libéria do pós-guerra melhorou sua vida. Como muitos moradores, os Doryen ainda tiram água de poços velhos e insalubres. Mas, como eram proprietários em Capitol Hill, tinham uma melhor situação financeira do que muitos outros, com empregos estáveis em postos de gasolina, serventes nas cafeterias do governo, vendendo cartões para celulares e comerciantes.

Como nos tempos de guerra, a família continuou unida durante o período de paz. Os filhos construíram casas separadas próximas da dos pais e derrubaram a velha e frágil casa da família, juntando as economias para construir uma habitação de concreto com oito quartos, que oferecia estabilidade, coesão - e um refúgio para o enfermo Kaizer.

Linha de frente. Para muitos africanos infectados durante esta epidemia, o vírus foi transmitido silenciosamente, por meio de ternos gestos de amor e carinho, em casa onde o doente era tratado ou em um funeral onde o morto era velado.

Mas para o pai de Kaizer, Edwin Dour, o Ebola chegou violentamente na noite de 25 de junho, depois que um homem gravemente doente - o primeiro caso para a família Doryen - foi levado para a atormentada clínica do governo onde o pai de Kaizer era o administrador chefe.

Seis dos 29 funcionários da clínica morreram dentro de um mês. O pai de Kaizer, conhecido por jamais dispensar os pacientes, foi infectado também e transmitiu o vírus para o filho. E os doentes levaram o vírus para centros de saúde desprotegidos que, por seu lado, ajudaram a propagar a doença.

Não obstante os recursos financeiros que Estados Unidos e outros governos enviaram para o sistema de saúde da Libéria, os centros médicos rapidamente entraram em colapso. A jovem de 16 anos que foi levada com a doença de Serra Leoa para Monróvia morreu no hospital público Redemption em 25 de maio. Um médico e cinco enfermeiras, trabalhando sem luvas ou equipamentos básicos para controlar a infecção, morreram um em seguida do outro.

Embora a falta de água potável fosse frequente no hospital, ele era um dos maiores centros médicos da Libéria. Assim, depois de ser fechado em junho, os doentes foram levados para clínicas vizinhas, incluindo a administrada pelo pai de Kaizer. Essas clínicas estavam ainda menos preparadas para enfrentar a investida violenta do Ebola.

Em 25 de junho, um táxi amarelo deixou um jovem na frente do portão da clínica. O paciente, um sacristão da igreja, aparentemente havia sido infectado quando uma senhora idosa com o vírus foi levada à igreja para fazer suas orações. Quando o sacristão se apresentou na clínica do pai de Kaizer, seus sintomas eram do Ebola já no estágio final: vômitos e diarreia.

Por volta das 10 horas da noite, o doente ficou violento e confuso. "Ele lutava, instável, subia e descia da cama, virava de um lado, de outro", disse o assistente do médico de plantão, Moses Safa. O guarda conseguiu segurá-lo. "Mas então ele morreu", disse Safa.

O guarda logo depois também morreu, mas não antes de transmitir o vírus para o pai de Kaizer. A equipe médica da clínica, aterrorizada com as mortes no hospital público, ofereceu pouquíssimos cuidados ao guarda enfermo. O pai de Kaizer não foi autorizado a cuidar do doente, mas voluntariamente ele o tratou com medicamentos por via intravenosa e no processo foi infectado. Ele contraiu o vírus e, para o governo, não informou a família. Em teoria os funcionários devem informar as famílias sobre os resultados dos testes; na prática poucos testes são realizados e os resultados raramente fornecidos - uma outra falha sistemática que tem contribuído para a propagação do Ebola.

O pai de Kaizer, que tinha cerca de 40 anos, morreu no dia 23 de julho. Como seus pais haviam se separado há alguns anos, Kaizer ajudou a cuidar do pai moribundo. Mas como tem ocorrido com milhares de pessoas que morreram durante esta epidemia, a inclinação natural de cuidar de um ente querido mais uma vez provou ser a sua ruína.



Em nove de agosto o pai de Kaizer foi levado para o Good Shepherd Funeral Home em um caixão fechado. Embora houvesse espaço ali para 100 pessoas, somente 20 apareceram, na maioria funcionários da clínica e amigos dele dos tempos em que foi soldado do Exército. Nenhum membro da família compareceu.

Negação. Consumida pela doença de Kaizer, Mamie Doryen levou-o de táxi para casa da família em Capitol Hill. Quando o dia amanheceu os vizinhos souberam que o jovem fora trazido no meio da noite. O medo se espalhou rapidamente. Os vizinhos que sabiam que o pai de Kaizer havia morrido, viviam muito próximos e compartilhavam um poço com a família Doryen.

Era início de agosto e o governo, chocado com as mortes no Redemption Hospital e em outros centros de saúde, estava paralisado. Muitos liberianos continuavam profundamente descrentes da real existência do Ebola, suspeitando de corrupção do governo. O slogan do governo "O Ebola é real", escrito em cartazes e painéis, só reforçou a crença popular de que não era. Mas tantas mortes se registraram na capital que, para muitos, qualquer doença imediatamente despertava suspeitas de Ebola.

"Nós, que tínhamos família ali, ficamos com medo", disse Teddy Dowee, de 21 anos, amigo de Kaiser e da família Doryen. Talvez seja uma peculiaridade da resposta psicológica ao Ebola o fato de que as pessoas que não pertencem à família afetada, como os vizinhos dos Doryen, são as que melhor conseguem entender a realidade à sua volta;

Os familiares, com frequência, adotam uma atitude de negação. Negam a presença da doença na família para não serem condenados ao ostracismo - e para se convencerem de que podem cuidar de um ente querido. E quase sempre não têm nenhuma opção: por toda a zona violentamente atingida pelo Ebola, a falta crônica de leitos durante meses obrigara as famílias a cuidar dos seus doentes em casa.

Mamie negava que o Ebola tinha sido a causa da morte do seu ex-marido, Edwin Dour e infectado Kaizer. Ela insistia que, ambos haviam sido envenenados, dizendo à família que uma mulher misteriosa vestida de preto aterrorizava Kaizer enquanto ele dormia.

Algumas das pessoas mais próximas de Mamie aceitaram a história. E tinham razão. Ela era a âncora da família, uma mulher nos seus 40 anos de idade cujo nome de fato era Yah, mas sempre era chamada de Mamie porque se comportava como mãe para com seus irmãos mais novos.

A família permitiu que Kaizer ficasse em casa, dividindo um quarto com outros três membros - e todos morreram. Os vizinhos pediram para que Kaizer fosse levado dali e ameaçaram alertar as autoridades. Mas a história do veneno deu o espaço psicológico para seus parentes cuidarem dele.

Certa manhã, Tina Doryen, uma tia que cuidava do jovem, tomou um banho usando uma bacia na qual ele havia vomitado. "Se esse Ebola quiser me matar, que me mate", disse ela, lembrou Dowee. Como as condições de saúde de Kaizer pioraram, a família finalmente o tirou de casa e o levou para uma igreja vizinha, que mantinha há duas semanas um cerimonial de cultos e sermões para despertar o fervor religioso.

Já era noite e o reverendo Narmah estava encerrando um sermão sobre a esperança, quando as portas da igreja se abriram repentinamente. Kaizer cambaleando, amparado pelas duas tias prediletas - Tina, de 20 anos, e Edwina, de 24. Com o Ebola em mente, o reverendo instruiu as tias a ficarem no fundo da igreja com o rapaz.

"Ele estava sem forças. Não conseguia nem falar", disse o reverendo. A congregação reuniu-se em torno do jovem para orar. Narmah ungiu a cabeça do jovem com óleo. Pediu aos membros para estenderem seus braços na direção do rapaz, mas não tocá-lo.

A família não adotou tais precauções. Para Martha Doryen, de 29 anos, outra tia, Kaizer era o sobrinho que sempre recorrera a ela, pedindo alguma coisa ou um trocado. Este ano, ao vê-lo jogar basquete pela primeira vez - e jogar tão bem a ponto de um fã lhe oferecer US$ 50 após o jogo - Martha percebeu com orgulho que ele era "um jogador muito bom". "Eles estavam com medo do Ebola", disse Martha aos membros da igreja. "Era o filho único da minha irmã. Como eu poderia ter medo? Não posso mentir. Eu toquei nele."

Os vizinhos dos Doryens intensificaram os pedidos para Kaizer sair de Capitol Hill o quanto antes. Os Doryens aquiesceram, dizendo para Mamie pegar seu filho. Kaiser morreu na manhã seguinte na casa de sua mãe perto do pântano. Nenhum outro membro da família, exceto sua avó, foi lá para ajudar. "Nós estávamos zangados e também com medo", disse o tio de Kaiser, Abraham Keita.

Mamie continuou a insistir que Kaizer não tinha o Ebola. Talvez por causa de suas afirmações, cinco membros da igreja se juntaram ao redor do leito de morte de seu filho. Enquanto Kaizer jazia ali moribundo, ele disse que viu a mulher de preto que havia acenado para ele em seus sonhos agitados. Ele não poderia mais se esconder dela, ela lhe disse, enquanto os que se reuniam em torno dele rezavam alto.

De repente, Kaizer levou a mão ao pescoço. "Ele disse que viu a mulher, o espírito, debruçada sobre ele, sufocando-o", disse Rose Mombo, um membro da igreja local. "Ele estava lutando." Kaizer, os olhos bem abertos, rompeu em lágrimas, balbuciou alguma coisa e morreu.


Isto ocorreu no momento em que seu próprio pai estava sendo enterrado. Durante o serviço fúnebre para o pai de Kaizer, os presentes esparsos ficaram sabendo que Kaizer havia morrido também.

O governo ainda era incapaz de atender às questões mais básicas, incluindo o recolhimento dos corpos altamente infecciosos dos mortos por Ebola. Assim, dois dias depois da morte de Kaizer, o fedor de seu cadáver vazando para os vizinhos, sua mãe pediu a um deles, Jerome Mombo, para enterrar seu filho.

Mombo tomou precauções contra o Ebola, somando US$ 15 do próprio bolso aos US$ 55 em moeda americana que a mãe de Kaizer havia lhe entregado. Ele pagou US$ 60 a pescadores e gastou o resto em cloro, uma pistola de spray, seis sacos de arroz vazios para serem costurados em uma mortalha e garrafas de gim Manpower.

Os homens beberam o gim antes de entrar no quarto, e depois de novo lá dentro. "Se não, eu não conseguiria", disse Mombo, que mais tarde fez uma breve despedida para Kaizer. "Tive de beber alguma coisa para me dar forças."

A chuva forte permitiu que os pescadores remassem até uma área inundada atrás da casa da mãe de Kaizer. Tony Kaba, de 22 anos, um jogador de basquete e amigo de Kaizer, permaneceu à distância e observou os homens levarem o cadáver embora. "Não havia nenhum familiar", ele disse.

Levou meia hora pelo Rio Mesurado para chegar à ilha de Kpoto, uma das muitas ilhas desabitadas em um canal chamado Creek N.º 2. Com solo arenoso e macio, Kpoto há muito vem sendo usada pelos pobres para enterrar seus mortos. Agora, túmulos recém-escavados são comuns no mato espesso.

Muitos parentes de vítimas do Ebola teriam realizado enterros secretos por toda a região, porque os corpos simplesmente não são recolhidos em tempo, ou as famílias não querem entregar parentes para incinerações em massa. Esses enterros estariam contribuindo para uma subestimação significativa do número de mortos por Ebola na Libéria, Serra Leoa e Guiné.

Para o time de Kaizer, os Timberwolves, sua morte subverteu o futuro. Ele tinha planejado construir a franquia em torno de Kaizer, que parecia destinado a se tornar o principal jogador da Federação de Basquete da Libéria, disse Jairus Harris, o vice-presidente do time.

Kaizer era rápido, arremessava bem e desafiava destemidamente qualquer adversário. No correr dos anos, dois liberianos chegaram perto de jogar na Associação Nacional de Basquete (NBA) dos Estados Unidos, uma fonte de orgulho para o basquete liberiano. "Kaizer teria chegado à NBA", disse Harris. "Tenho certeza."

Em vez disso, sua mãe voltou sozinha a Capitol Hill, buscando o conforto que os Doryens sempre haviam proporcionado uns aos outros. Mas as coisas foram diferentes desta vez. As consequências de a família se reunir em torno de Kaizer logo ficaram claras.

As duas tias favoritas de Kaizer, as que o haviam ajudado na igreja, morreram no mesmo dia, 27 de agosto, menos de três semanas depois dele. A avó de Kaiser e um primo estavam visivelmente doentes também. Alguns tios de Kaizer tinham fugido de Capitol Hill. Os Doryens restantes se reuniram aturdidos.

"Foi uma cena chocante", disse o reverendo Alvin Attah, que conhecia a família há décadas. Por insistência do pastor, a avó de Kaizer foi levada de ambulância para um centro de tratamento de Ebola.

Acusada de trazer o Ebola para Capitol Hill, a mãe de Kaizer não poderia voltar à casa de sua família. Ela caminhou para sua igreja a quase um quilômetro dali e bateu nas portas de membros da congregação, buscando um lugar para passar a noite.

"Mas eles se recusaram a recebê-la", disse Felicia Koneh, uma amiga da família. "Todo mundo estava com medo. Ninguém sabe para onde ela foi depois disso." É patético, sabe, ver uma família se desmanchar", ela disse.

Distância e culpa. O Ebola é uma doença insidiosa. Ele faz da compaixão um perigo. Faz da sobrevivência uma fonte persistente de culpa.

A prima de Kaizer, Esther, de 5 anos, filha de sua amada tia Tina, estava claramente doente. No dia em que Tina morreu, o pai de Esther enfrentou a angústia de ir visitar a filha enferma em Capitol Hill - mas com medo demais para chegar perto o bastante para confortá-la.

"Ela tentou me alcançar, mas eu permaneci afastado", disse seu pai, Lester Morris, 27 anos, que havia se separado de Tina este ano. "Eu lhe disse para ir para sua tia Julie." A culpa e dor de tentar se proteger formou um nó apertado no seu íntimo, um sentimento compartilhado por muitos outros sobreviventes.

"Ver um ente querido separado de você, você fala ao telefone e ouve 'Estou morrendo', e não pode ir. É mais doloroso do que a guerra", disse o pai de Lester, Joseph Morris.

É uma comparação ouvida com frequência, que pode parecer exagerada. A guerra matou possivelmente um quarto de milhão de liberianos. O Ebola somente 2.800, oficialmente, no país até agora. A destruição de Monróvia causada pela guerra ainda pode ser vista em suas ruas, escolas e edifícios destroçados. O Ebola não deixou nenhuma cicatriz física. Mas, para muitos liberianos, a dor do Ebola é maior. Com frequência, a única maneira segura de sobreviver é abandonar a própria família.

O pai e o tio de Esther imploraram por socorro do governo. A família telefonou repetidamente para sua linha de emergência sobre o Ebola para tirá-la de Capitol Hill, mas só recebeu promessas vazias. Era fim de agosto, e o governo estava em pânico. Ele tinha enviado soldados para manter em quarentena a maior favela de Monróvia, provocando tumultos mortais. O custo da paralisia da comunidade internacional continuava a aumentar.

Os Doryens temiam que Esther os infectasse, como Kaizer havia feito. Em 31 de agosto, uma das tias remanescentes, Julie Doryen, conduziu a garota com uma vara para a rua principal, fora de Capitol Hill. Esther desabou na calçada.

Uma grande e enfurecida multidão observava do outro lado da rua, atraindo a polícia e, por fim, uma ambulância. Esther, que parecia morta, recobrou a consciência. Seu pai, Lester, chegou alguns minutos depois de ela ser colocada na ambulância.

Ela foi levada para um centro de tratamento de Ebola. Seu pai e seu tio a visitaram e acharam que ela estava melhorando.

Antes de visitá-la de novo, Lester olhou esperançoso para um cartão de Natal do ano anterior. Nele, trajando um vestido vermelho com uma grande fita branca, Esther está parada diante de um pano de fundo idealizado de uma casa colonial, um gramado verde e uma cerca de ripas branca.


Durante a noite, seu tio recebeu um telefonema de um amigo de dentro do centro. Esther havia morrido. Ele não contou a Lester. Na corrida de táxi para lá, Lester começou a suspeitar que seu irmão estava lhe escondendo alguma coisa. Quando eles chegaram na frente do centro eram 10h 30, Lester estava gritando com o irmão. Lester andava de um lado para outro, os olhos injetados.

"Ele está chorando", disse um homem próximo.

"Talvez alguém esteja morrendo", disse outro.

"Irmão, você tem de ser um homem", disse um motorista de táxi. "Seja homem, sim? Não chore."

Lester não chorou dentro do centro quando lhe contaram sobre a morte da filha. Ele não disse nada. Seu irmão perguntou pelo corpo para um funeral apropriado, ou ao menos uma foto. Nenhuma das duas coisas era possível.

Os irmãos foram para Capitol Hill para informar os Doryens. A família remanescente se reuniu do lado de fora. Martha Doryen, tia de Kaizer, começou a chorar, atirando as mãos para o alto. Não havia lágrimas, mas o som ecoou por toda Capitol Hill.

Sem um corpo para enterrar, Lester não poderia cumprir seus deveres tradicionais. De repente, ele começou a chorar descontroladamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto. As mulheres e seu irmão desviaram o olhar.

Lidando com a situação

Poucas horas depois da morte da tia Tina de Kaizer, a outra tia que o havia segurado na igreja, Edwina Doryen, morreu também. Duas semanas depois, seu marido, Mark Jerry, estava sentado, abatido, do lado de fora do centro de tratamento de Ebola. Sua filha Princess estava sentada à sua direita, com a testa apoiada na parede. Os dois estavam fracos demais até para beber água.

"Estou convencido de que era Ebola", disse Mark.

Era meados de setembro, e a Libéria estava à beira de um precipício. Monróvia havia se tornado o ponto focal do surto na África Ocidental. As infecções estavam dobrando a cada duas a três semanas.

Jerry e Princess tiveram sorte, receberam tratamento. Jerry, 27, melhorou, mas o mesmo não aconteceu com Princess, 9. Ela morreu em poucos dias.

Depois de receber alta por meio de uma carta que dizia que ele "já não representava um risco para a saúde", Jerry começou a trabalhar para a organização Médicos Sem Fronteira. Ele, que antes negava o Ebola, tornou-se um pregador.

Jerry, funcionário de uma agência de câmbio, e Edwina, a tia de Kaizer, que trabalhava num restaurante, economizaram durante anos US$ 900 para construir sua casa, uma habitação muito simples a poucos metros da casa da família Doryen. Ele logo suspeitou que Kaizer estava com Ebola. O mal-estar dos vizinhos dos Doryen em Capitol Hill o preocupava.

Mas todas as suas dúvidas desapareceram quando Edwina caiu doente. O que poderia fazer senão cuidar dela?

"Eu e Edwina éramos como uma pessoa só", ele disse. "Eu dava banho nela. Ela ia ao banheiro o dia todo. Eu a limpava, e depois de dois ou três minutos, ela voltava ao banheiro. E eu voltava a limpá-la".

Ele a levou para uma clínica local, onde disseram que ela tinha bronquite aguda. Finalmente, Edwina não conseguia mais andar e sangrava pela boca, então Jerry a carregou nas costas e a levou de táxi ao hospital. Recusada pela falta de leitos, ela foi conduzida a um centro de tratamento de Ebola. Morreu no dia seguinte, sobre um colchão marrom no chão imundo, cercada de fluidos corporais.

A raiva foi crescendo dentro dele. Todo o sofrimento - todas as mortes sem sentido na família - era a decorrência de uma traição, ele disse: A recusa de Mamie a admitir que se enganara com Kaizer.

Pelo menos ela devia ter suspeitado da verdade, disse Jerry. Quando Edwina começou a apresentar os sintomas, a mãe de Kaizer, autora da história do envenenamento, fez uma advertência.

"Ela disse: 'Mark, com o cuidado que você está dedicando a Edwina, precisa ter água clorada sempre por perto, e quando acabar de cuidar dela, deve lavar as mãos' ", ele lembra.

"Ela agiu de uma maneira muito feia, minha cunhada; ela sabia que seu filho estava com o vírus e não falou para a gente ," disse Mark."Na minha opinião ela é perversa. Não considero isto ignorância. Considero uma perversão".

A revolta

A morte da mãe de Kaizer rapidamente deixou os Doryen desorientados, sofrendo com uma morte após a outra sem o apoio de sua figura central.

Num mês, morreram quatro tias e primos de Kaizer. No dia 31 de agosto, morreu também a avó de Kaizer. Mas os Doryen só ficaram sabendo que ela havia morrido duas semanas mais tarde. Mamie, como chefe da família, deu seu telefone para contato quando a ambulância levou a vovó. Quando Mamie desapareceu, as autoridades não conseguiram contatar a família.

A ausência de Mamie desencadeou um violento desentendimento, uma nova fonte de divisão na família. Alguns a consideraram uma prova de sua trapaça. Outros, como seu irmão, Anthony Doryen, ficaram imaginando sua dor.

"Todo mundo está furioso com ela", ele disse. "Mas "ela perdeu a mãe, perdeu o filho, perdeu duas irmãs".

Enquanto as notícias das mortes na família se espalhavam em Capitol Hill entre os vizinhos de Mamie, perto do mangue, ficaram alarmados. Mombo, que enterrou Kaizer, conseguiu falar com Mamie depois de várias tentativas.

"Por que você está correndo de um lugar para o outro?" Mombo perguntou a ela. "Mas depois disso, seu telefone ficou mudo".

Mamie insistiu, numa breve conversa por telefone, que Kaizer estava envenenado e morreu depois que a mulher de preto disse que ele estava "acabado".

"Todo mundo está falando o meu nome por aí", disse Mamie. "Eu não fiz nada".

"Ninguém deveria me criticar ", ela acrescentou. "O demônio está muito ocupado. As pessoas em Capitol Hill ficam falando que sou eu que estou espalhando o Ebola. Toda a minha família está morrendo".

Perdão e Esperança

No final de setembro, depois da morte de Kaizer e de seis parentes próximos, a doença parecia estar sob controle. Vinte e três dias tinham se passado desde que o último membro da família fora levado de Capitol Hill, dois dias além do período máximo de incubação da doença.

"É bom continuar vivo", disse Abraham Keita, tio de Kaizer.

Sorriu, se espreguiçou e pegou um DVD, Monrovia on Fire, um filme local sobre artes marciais no qual teve um papel de coadjuvante. Ele esperava um papel maior em uma continuação. Fabricante de móveis e mestre de tae-kwon-do, Keita tinha planos para o futuro.

Um dos irmãos Doryen regressara a Capitol Hill, mas sua mulher e filhos continuavam longe. Keita esperava que os outros Doryen voltassem, inclusive Mamie.

"Antes, sim, fiquei com raiva", ele disse. "Todos estavam furiosos com ela". Rui. "Agora consigo perdoá-la. É o que Deus manda fazer".

"Talvez depois de um mês, dois meses, ela volte, porque somos a mesma família".

Na Libéria também a situação começa a mudar. Os novos casos de Ebola caíram significativamente, e alguns representantes das organizações de saúde locais e internacionais acham que estão conseguindo vencer a doença. Na quinta-feira, a presidente da nação, Ellen Johnson Sirleaf, suspendeu o estado de emergência imposto ao país, afirmando: "Podemos nos orgulhar do progresso".

Semanas antes do anúncio, Martha Doryen, a tia de Kaizer, estava em frente à sua casa. Um número de celular e 'Yah' - o verdadeiro nome de Mamie - haviam sido rabiscados na parede com carvão.

O novo número de celular de Mamie?

Martha olhou para a filha de 13 anos, que acabava de comemorar seu primeiro celular e escrevera o número na parede da casa. Treze anos atrás, Martha pediu à irmã mais velha, Mamie, que desse seu nome à sua primeira filha. Mamie lhe deu seu nome, Yah, uma nova geração chegava finalmente.

Então, Martha lembrou que Mamie ligara pela manhã, pela primeira vez desde que fora obrigada a sair de Capitol Hill, um mês antes. Martha estava na varanda preparando a comida. Um número desconhecido piscava no celular.

"Ela diz que está bem", disse Martha. "Está dizendo que devemos lavar as mãos, ficar longe das pessoas e ficarmos entre nós. Ela mesma está muito bem, pondo em prática o conselho que deu para a gente".

*Tradução de Anna Capovilla, Celso Paciornik e Terezinha Martino

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