Mark Ralston/AFP
Mark Ralston/AFP

Uma máscara é bom. Duas é melhor?

Especialistas em saúde dobram seus conselhos para retardar a propagação do coronavírus

Katherine J. Wu, The New York Times

13 de janeiro de 2021 | 14h18

Os técnicos de futebol, os presidentes eleitos, até mesmo os senadores com algum conhecimento científico: à medida que os casos de coronavírus continuam a aumentar em escala global, algumas das pessoas mais proeminentes do país começaram a dobrar as camadas das máscaras - uma medida que os pesquisadores dizem que está sendo cada vez mais respaldada pelos dados.

A máscara dupla não é necessária para todo mundo. Mas, no caso das pessoas com coberturas faciais finas ou frágeis, “quando você combina várias camadas, você começa a alcançar eficiências muito altas” de bloqueio para o vírus sair e entrar nas vias respiratórias, disse Linsey Marr, especialista em transmissão de vírus na Virginia Tech e autora de um estudo recente sobre a ciência por trás do uso de máscaras.

Claro que existem prós e contras: em algum ponto, “corremos o risco de deixar a respiração muito difícil”, disse ela. Mas há muito espaço para respirar antes que o uso da máscara chegue a esse extremo.

Um ano depois do início da pandemia de covid-19, o mundo parece bem diferente. Mais de 90 milhões de infecções por coronavírus foram registradas em todo o planeta, deixando milhões de mortos e incontáveis pessoas com sintomas persistentes, em meio a dificuldades econômicas e fechamentos de escolas e empresas. Surgiram novas variantes do vírus, carregando mudanças genéticas que parecem aumentar sua capacidade de se espalhar de pessoa para pessoa.

E, embora várias vacinas já tenham superado os obstáculos regulatórios, a distribuição de injeções tem sido lenta e intermitente - e ainda não há evidências definitivas de que as vacinas terão um efeito substancial sobre a rapidez com que o vírus se espalhará.

Durante toda essa mudança, os pesquisadores se mantiveram firmes. “Os americanos não vão precisar usar máscara para sempre”, disse a Dra. Monica Gandhi, médica infectologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e também autora do novo estudo. Mas, por enquanto, vão precisar, sim, para proteger quem usa a máscara e quem está ao seu redor.

Os argumentos para o uso de máscara abrangem vários campos da ciência, entre eles a epidemiologia e a física. Vários estudos observacionais sugeriram que o uso generalizado de máscaras pode reduzir infecções e mortes em uma escala impressionante, em ambientes tão pequenos como salões de beleza ou tão grandes quanto países inteiros.

Um estudo, que acompanhou as políticas estaduais que obrigam o uso de coberturas faciais em público, descobriu que os casos conhecidos de covid-19 aumentavam e diminuíam quase que exatamente com as regras de uso de máscaras. Outro, que acompanhou as infecções por coronavírus entre profissionais de saúde em Boston, observou uma queda drástica no número de resultados de testes positivos depois que as máscaras se tornaram um dispositivo universal entre os funcionários. E um estudo em Pequim descobriu que as máscaras eram 79% eficazes no bloqueio da transmissão de pessoas infectadas para seus contatos próximos.

Trabalhos recentes de pesquisadores como Marr agora estão estabelecendo a base dessas relações em escala microscópica. A ciência, disse ela, é bastante intuitiva: vírus respiratórios como o coronavírus, que se movem entre as pessoas em bolhas de saliva e aerossóis, precisam de um canal aberto para entrar nas vias respiratórias, que estão repletas dos tipos de células que os vírus infectam. Máscaras que cobrem o nariz e a boca inibem essa invasão.

A questão não é fazer uma máscara hermética, disse Marr. Em vez disso, as fibras que compõem as máscaras criam uma pista de obstáculos aleatória através da qual deve passar o ar - e qualquer carga infecciosa.

“O ar tem que seguir esse caminho tortuoso”, disse Marr. “As coisas grandes que ele carrega não conseguem passar por esses trechos estreitos e sinuosos”.

Experimentos que testam até que ponto as máscaras podem conter a passagem dos aerossóis mostraram que mesmo materiais bastante básicos, como coberturas de tecido e máscaras cirúrgicas, podem ser pelo menos 50% eficazes, seja na saída ou na entrada de ar.

Vários estudos reafirmaram a ideia de que as máscaras parecem ser melhores para proteger as pessoas ao redor do usuário do que os próprios usuários. “Isso acontece porque você está bloqueando a fonte”, disse Marr. Mas, motivado por pesquisas recentes, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) observou que há grandes benefícios também para aqueles que usam a máscara.

A melhor máscara continua a ser a N95, projetada com uma eficiência de filtração ultra alta. Mas essa máscara continua em falta para profissionais de saúde, que precisam dela para tratar pacientes com segurança.

Sobrepor duas máscaras menos especializadas, uma sobre a outra, pode fornecer uma proteção comparável. Marr recomendou o uso de máscaras de pano amarradas ao rosto em cima das máscaras cirúrgicas, que tendem a ser feitas com materiais que filtram melhor, mas que se encaixam de maneira mais frouxa. Uma alternativa é usar máscaras de tecido que tenham um compartimento que pode ser preenchido com material filtrante, como as bolsas a vácuo.

Mas usar mais de duas máscaras, ou sobrepor camadas a máscaras que já têm uma filtragem muito boa, trará resultados decrescentes e deixará muito mais difícil respirar normalmente.

Outras medidas podem melhorar o ajuste da máscara, como amarrar o tecido na parte de trás da cabeça, em vez de usar as alças de orelhas, que permitem que as máscaras fiquem soltas e penduradas. As presilhas de ajuste nasal, que ajudam a fechar a parte superior da máscara mais confortavelmente, também oferecem um reforço de proteção.

Conseguir um bom nível de ajuste e filtragem “é realmente simples”, disse Gandhi. “Não precisa de nada sofisticado”.

Nenhuma máscara é perfeita e seu uso não elimina outras medidas de saúde pública, como distanciamento social e boa higiene. “Temos que ser honestos, pois a melhor resposta é aquela que requer várias intervenções”, disse Jennifer Nuzzo, especialista em saúde pública da Universidade Johns Hopkins.

O uso de máscaras continua infrequente em algumas regiões dos EUA, em parte devido à politização da prática. Mas os especialistas observaram que o comportamento exemplar dos líderes do país pode ajudar a virar essa maré. Em dezembro, o presidente eleito Joe Biden implorou aos americanos que usassem máscaras em seus primeiros 100 dias na presidência e disse que tornaria o uso uma exigência nos prédios federais e também em aviões, trens e ônibus que cruzam as linhas estaduais.

Uma grande análise sobre as evidências por trás do uso de máscaras, publicada este mês na revista PNAS, concluiu que as máscaras são uma ferramenta fundamental para reduzir a transmissão comunitária e que são “mais eficazes na redução da disseminação do vírus quando o compromisso com o uso é alto”.

Parte da mensagem também pode exigir mais empatia, comunicação aberta e reconhecimento expresso de que “as pessoas não gostam de usar máscaras”, disse Nuzzo. Sem mais paciência e compaixão, a simples ideia de dobrar as restrições para “consertar” o baixo compromisso com o uso vai sair pela culatra: “Nenhuma política vai funcionar se ninguém for aderir”./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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