Carl de Souza/AFP
Carl de Souza/AFP

Uma única vacina poderia funcionar contra todos os coronavírus?

Pesquisadores estão começando a desenvolver protótipos desse tipo de vacina com alguns resultados promissores, ainda que iniciais, de experimentos em animais

Carl Zimmer, The New York Times

11 de fevereiro de 2021 | 12h00

A invenção das vacinas contra a covid-19 será lembrada como um marco na história da medicina, criando em questão de meses o que antes demorava uma década. Mas Kayvon Modjarrad, diretor do Departamento de Doenças Infecciosas Emergentes do Instituto de Pesquisa do Exército Walter Reed em Silver Springs, Maryland, não está satisfeito.

“Isso não é rápido o suficiente”, disse ele. Mais de 2,3 milhões de pessoas em todo o mundo morreram e muitos países não terão acesso total às vacinas por mais um ou dois anos: “Rápido - realmente rápido - é ter lá no primeiro dia.”

Haverá mais surtos do novo coronavírus no futuro. Os morcegos e outros mamíferos estão repletos de cepas e espécies dessa família abundante de vírus. Alguns desses vírus irão inevitavelmente ultrapassar a barreira das espécies e causar novas pandemias. É só uma questão de tempo.

Modjarrad é um dos muitos cientistas que há anos clamam por um tipo diferente de vacina: uma que possa funcionar contra todos os coronavírus. Esses apelos foram amplamente ignorados até que a covid-19 demonstrou o quão desastrosos os coronavírus podem ser.

Agora os pesquisadores estão começando a desenvolver protótipos da chamada vacina contra todos os coronavírus, com alguns resultados promissores, ainda que iniciais, de experimentos em animais. Eric Topol, professor de medicina molecular no Scripps Research Institute em San Diego, acha que os cientistas deveriam se unir em outro projeto de criação de vacinas em grande escala imediatamente.

“Temos que conseguir uma força de trabalho real para acelerar isso, para que possamos tê-la este ano”, disse ele. Topol e Dennis Burton, imunologista do Scripps, reivindicaram este projeto sobre vacinas de amplo espectro contra o coronavírus na segunda-feira na revista Nature.

Depois que os coronavírus foram identificados pela primeira vez na década de 1960, eles não se tornaram uma alta prioridade para os fabricantes de vacinas. Por décadas, parecia que eles causavam apenas resfriados leves. Mas em 2002, um novo coronavírus chamado SARS-CoV surgiu, causando uma pneumonia mortal chamada síndrome respiratória aguda grave ou SARS. Os cientistas se mexeram rapidamente para fazer uma vacina contra ele.

Como ninguém havia feito uma vacina contra o coronavírus para humanos antes, havia muito o que aprender em relação a sua biologia. Em algum momento, os pesquisadores escolheram um alvo para a imunidade: uma proteína na superfície do vírus, chamada spike. Os anticorpos que aderem a essa proteína podem impedir que o coronavírus entre nas células e deter uma infecção.

As autoridades de saúde pública na Ásia e em outros lugares não esperaram que a invenção de uma vacina contra a SARS começasse a funcionar, entretanto. Suas quarentenas e outros esforços se mostraram notavelmente eficazes. Em questão de meses, eles eliminaram o SARS-CoV, com apenas 774 mortes durante o processo.

O perigo dos coronavírus ficou ainda mais claro em 2012, quando uma segunda espécie se espalhou dos morcegos, causando outra doença respiratória mortal chamada síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês). Os pesquisadores começaram a trabalhar com vacinas contra a MERS. Mas alguns pesquisadores se perguntaram se fazer uma nova vacina para cada novo coronavírus - o que Modjarrad chama de “abordagem de um medicamento para cada vírus” - seria a estratégia mais inteligente. Não seria melhor, eles pensaram, se uma única vacina pudesse funcionar contra SARS, MERS e qualquer outro coronavírus?

Essa ideia não foi a lugar nenhum por anos. A MERS e a SARS causaram relativamente poucas mortes e logo foram ofuscadas por surtos de outros vírus, como Ebola e Zika.

Em 2016, Maria Elena Bottazzi, especialista em vírus da Faculdade de Medicina Baylor, e seus colegas solicitaram apoio do governo dos EUA para desenvolver uma vacina contra todos os coronavírus, mas não receberam nada. “Eles disseram que não há interesse em uma vacina pancorona (de amplo espectro)”, lembrou Maria.

A equipe dela até perdeu verbas para desenvolver uma vacina contra a SARS mesmo depois que mostraram que ela funcionava em camundongos, não era tóxica para as células humanas e poderia ser fabricada em escala. Um coronavírus que havia desaparecido de vista simplesmente não era uma prioridade.

Sem dinheiro suficiente para iniciar os ensaios clínicos, os cientistas armazenaram sua vacina contra a SARS em um freezer e partiram para outras pesquisas. “Tem sido uma luta”, disse Maria.

Matthew Memoli, especialista em vírus do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, analisa essas decisões como um erro enorme. “É uma falha de nosso sistema de ciência”, disse ele. “Os financiadores tendem a ir atrás de coisas novas.”

Três anos depois, surgiu um terceiro coronavírus perigoso: a cepa SARS-CoV-2 que causa a covid-19. Embora esse vírus tenha uma taxa de mortalidade muito menor do que seus primos que causam SARS e MERS, ele faz um trabalho muito melhor de propagação de pessoa para pessoa, resultando em mais de 106 milhões de casos documentados em todo o mundo e este número ainda está aumentando.

Todas as lições que os pesquisadores aprenderam sobre os coronavírus os ajudaram a agir rapidamente para fazer novas vacinas contra o SARS-CoV-2. Maria e seus colegas usaram a tecnologia que criaram para fazer vacinas contra a SARS para desenvolver uma para a covid-19, que agora está no início dos testes clínicos.

Outros pesquisadores usaram métodos ainda mais novos para avançar mais rápido. A empresa alemã BioNTech criou uma molécula genética chamada RNA mensageiro que codifica a proteína spike. Em parceria com a Pfizer, as empresas receberam autorização do governo dos EUA para sua vacina em apenas 11 meses. O recorde anterior de uma vacina, contra a varicela, era de quatro anos.

Embora a pandemia de covid-19 ainda esteja longe de terminar, vários pesquisadores estão solicitando preparativos para o próximo coronavírus mortal.

“Isso já aconteceu três vezes”, disse Daniel Hoft, especialista em vírus da Universidade Saint Louis. “É muito provável que aconteça novamente.”

Pesquisadores da VBI Vacines, uma empresa sediada em Cambridge, deu um pequeno passo em direção a uma vacina contra todos os coronavírus no ano passado. Eles criaram estruturas semelhantes à dos vírus cravejadas de proteínas spike dos três coronavírus que causam a SARS, MERS e covid-19.

Quando os pesquisadores injetaram essa vacina com três proteínas spike em camundongos, os animais produziram anticorpos que trabalharam contra os três coronavírus. Curiosamente, alguns desses anticorpos também podem se prender a um quarto coronavírus humano que causa resfriados sazonais - embora as proteínas de spike desse vírus não tenham sido incluídas na vacina. Os cientistas tornaram esses dados públicos, mas ainda não os publicaram em uma revista científica.

No mês passado, Pamela Bjorkman, bióloga estrutural da Caltech, e seus colegas publicaram um experimento mais extenso com uma vacina universal contra o coronavírus na revista Science. Os pesquisadores anexaram apenas as extremidades das proteínas spike de oito coronavírus diferentes a uma parte central da proteína, conhecida como nanopartículas. Depois de injetar essas nanopartículas em camundongos, os animais produziram anticorpos que poderiam se prender a todos os oito coronavírus - e a quatro outros coronavírus que os cientistas não usaram na vacina.

Modjarrad está liderando uma equipe do Walter Reed no desenvolvimento de outra vacina baseada em uma nanopartícula cravejada de fragmentos de proteína. Eles preveem o início dos ensaios clínicos em voluntários no próximo mês. Embora a vacina atualmente use fragmentos de proteína spike apenas do SARS-CoV-2, Modjarrad e seus colegas estão se preparando para reequipá-la como uma vacina contra todos os coronavírus.

Hoft, da Universidade Saint Louis, está trabalhando em uma vacina universal que não depende de anticorpos para a proteína spike. Colaborando com a Gritstone Oncology, uma empresa de biotecnologia com sede na Califórnia, ele criou uma vacina que induz as células a produzir proteínas de superfície que podem alertar o sistema imunológico como se um coronavírus - qualquer coronavírus - estivesse presente. Eles agora estão preparando um ensaio clínico para verificar se ela é eficaz contra o SARS-CoV-2.

“Estamos interessados em desenvolver talvez uma vacina de terceira geração, que esteja na prateleira e pronta para o surto futuro”, disse Hoft.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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