Antonio Scarpinetti/Divulgação
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Unicamp, que integra rede de referência em pesquisa e tratamento contra covid-19, vai cortar gastos

‘A situação chega ser desesperadora’, desabafa reitor da Universidade Estadual de Campinas; queda de repasse com a pandemia chega a R$ 220 milhões

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 15h00
Atualizado 07 de maio de 2020 | 12h23

A Unicamp anunciou nesta semana um plano para reduzir gastos e minimizar os impactos gerados pela covid-19. A pandemia fez aumentar despesas extras com atendimentos médicos no Hospital das Clínicas (HC) -  a unidade, em Campinas (SP), é referência para tratamento de casos graves no interior paulista - e vai diminuir as receitas orçamentárias. A estimativa é de queda de até R$ 220 milhões no repasse previsto do governo do Estado, devido a redução calculada de ICMS – o imposto é a principal fonte de recursos da universidade.

“A gente não tem condições de bancar essa conta sozinho”, afirmou o reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel, após um cálculo superficial para a reportagem dos gastos extras que o enfrentamento à pandemia da covid-19 trouxe. São leitos especiais no HC, isolamento de área, insumos adicionais para as unidades de saúde e de pesquisa, como máscaras e luvas, reagentes e equipamentos de testes, estudos e atendimento ao público, mais remédios, gastos com pessoal, entre outros.

A Unicamp é uma das três universidades públicas do Estado de São Paulo que desde o início da crise do novo coronavírus direcionaram suas estruturas de atendimento público médico e os projetos de pesquisa e desenvolvimento de conhecimento científico para o enfrentamento à covid-19 ­- as outras são USP e Unesp. Foi a primeira a suspender atividades presenciais e uma das primeiras autorizadas a fazer testes de detecção do coronavírus pelo Instituto Butantã. 

Desde o início, foi criada uma força-tarefa multidisciplinar de pesquisadores da Unicamp para a covid-19. Em diferentes frentes, eles trabalham em estudos sobre reagentes alternativos para identificar a doença, terapias para o tratamento de pacientes, como a de uso de plasma (parte líquida do sangue) de doentes recuperados em pacientes graves e moderados, sobre a ação do vírus no cérebro, sobre o impacto da pandemia na sociedade, entre outros.

Leitos

Na área de saúde, o HC da Unicamp destinou 30 dos seus leitos de UTI – são ao todo 52 leitos de UTI operacionais – da ala adulto para pacientes suspeitos da covid-19 e outros 10 da UTI pediátrica. Com possibilidade de chegar ao limite de 300 leitos, em um caso extremo. Até este final de semana, o cenário é de aparente tranquilidade, com baixa demanda e ocupação na faixa de 50%, na última sexta-feira.

Foram prometidos recursos para abertura de 20 novos leitos de UTI. Mas a universidade precisa de recursos para compra de materiais especiais para atender os casos com suspeita de coronavírus e de equipamentos para pesquisa.

“Tranquilo não é. Primeiro porque estamos sempre sobrecarregados, a situação no HC era crítica antes da covid-19, e agora ficou ainda mais grave”, afirma o reitor. “Temos negociado, conversando, mas até agora não veio nenhum recurso extra.”

Diferente das duas outras universidades públicas de São Paulo, o Hospital das Clínicas e demais áreas de saúde integram o orçamento geral da Unicamp, já deficitária para 2020 – o documento previa R$ 2,7 bilhões de despesas e R$ 2,5 bilhões de receitas. Isso faz com que os "gastos extras" com a covid-19 pesem ainda mais no caixa da universidade.  Na USP, por exemplo, o custeio do HC é vinculado à Secretaria Estadual de Saúde.

A perspectiva de pico de atendimentos no interior paulista e o anúncio de envio de pacientes da capital, onde a taxa de ocupação de leitos já de 90%, agrava o quadro de alerta. “O sistema de saúde é um sistema único e nós somos parte do SUS. Vamos responder ao sistema de referenciamento, dentro das nossas possibilidades”, explica Knobel.

Segundo o reitor, o HC da Unicamp vai atender os pacientes que forem transferidos de outras regiões pelo sistema de regulação de vagas da Secretaria Estadual de Saúde. Mas avisa: “naturalmente, dentro dos nossos limites e da nossa capacidade de atendimento, senão, seria, realmente, colocar em risco a vida das pessoas”.

Cortes

O reitor da Unicamp é o ex-presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) - o atual é o reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandro Roberto Valentini. Ele afirma que a situação nas demais instituições também não é tranquila. “Entendemos que precisamos receber os recursos necessários para colaborar”, alerta. “Com a diminuição geral do ICMS, certamente as universidades vão sofrer bastante, assim como as prefeituras, empresas. A gente não tem condições de bancar essa conta sozinho.”

Cálculo divulgado pela Unicamp mostra que a queda da atividade econômica pode gerar uma redução de R$ 172 milhões – segundos dados do Estado – até R$ 220 milhões – cálculo da própria universidade - nas receitas da Unicamp de 2020. Decorrência da redução de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), pelo Estado.

Os números estimados de queda de receita foram divulgados junto com o anúncio de que a universidade “será obrigada a adotar medidas austeras para preservar sua capacidade de pagar os salários de seus docentes e funcionários em dia e de investir em infraestrutura”. O plano de contingenciamento de despesas e cortes de gastos prevê uma economia de R$ 72 milhões e inclui, entre as medidas, corte de 80% nas contratações de professores e pesquisadores e congelamento da progressão na carreira dos já contratados. 

O plano, que ainda precisa de aprovação do Conselho Universitário (Consu), propõem ainda corte de 25% nas despesas de custeio das unidades, revisão de contratos, desde água e luz, a restaurantes, transporte, limpeza, jardinagem, cortes em programas institucionais, como de contratação de professores e pesquisadores, de programas de bolsa auxílio intercâmbio, entre outros. Só a área de saúde fica fora dos cortes. “Por mais duras que possam parecer algumas das medidas”, informa a universidade, “já se sabe que elas serão capazes de amenizar as turbulências do momento, permitindo, assim, que a Unicamp continue a desempenhar de forma exemplar o papel que lhe cabe em uma crise de saúde pública, econômica e política da magnitude que estamos enfrentando e continuaremos a enfrentar”.

Sem receber recursos extras, nem do Estado nem da União, para o combate à covid-19 até agora, a Unicamp tem contado com repasses determinados pelo Poder Judiciário, que destinou pelo menos R$ 10 milhões de valores disponíveis de processos, e de doações que passou buscar. “Criamos uma área de doações. Tivemos muitas doações de pessoas físicas e empresas”, explica o reitor.

“Nessa situação de pandemia, nós estamos sofrendo bastante. Até agora não houve repasse extra", afirma o reitor. Segundo ele, os gastos estão elevados devido a pandemia. As máscaras, por exemplo, que custavam R$ 0,10 estão sendo vendidas a R$ 4,40 ou mais - a universidade usa 6 mil por dia. “A situação chega ser desesperadora.”

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