Raimundo Pacco/EFE
Raimundo Pacco/EFE

Universidade Federal do Pará nega ser responsável por plano de retomada econômica

Instituição informa que estudo é de responsabilidade apenas da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra)

Roberta Paraense, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 17h07

A Universidade Federal do Pará (UFPA) negou ser responsável pela autoria de qualquer estudo que tenha dado embasamento técnico ao plano de retomada das atividades econômicas no Pará. A manifestação da instituição foi publicada na terça-feira nas redes sociais.

A publicação foi em resposta aos questionamentos de um perfil de notícias local que indagou a instituição sobre um estudo técnico publicado pela UFPA, o qual diz que Belém ainda não passou pelo pico do novo coronavírus. "Alô @UFPA_oficial, gostaria de entender qual a relação da UFPA com a pesquisa divulgada pela @UFRA_oficial, que é diferente da Nota Técnica que o GT/COVID/UFPA publicou ontem. Por gentileza", perguntou o perfil "Belém Trânsito", pelo Twitter.

Por sua vez, a instituição afirmou que "o relatório mencionado é de responsabilidade institucional apenas da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), não da UFPA, ainda que tenha contado com a participação de docentes da UFPA, que atuaram com independência no estudo".

A universidade também disse que todas as posições institucionais da mesma têm sido vinculadas nos canais oficiais da instituição, com a indicação de que são baseadas diretamente nas recomendações do grupo de trabalho sobre o novo coronavírus.

Na última sexta-feira, 25, o governo do estado apresentou o Plano Retoma Pará, afirmando que o projeto foi definido segundo a capacidade de resposta do Sistema de Saúde e os níveis de transmissão da covid-19, estando baseado em estudos científicos feitos pela Ufra e UFPA.

O retorno gradativo às atividades, do qual elaborou o plano, iniciou nesta segunda-feira, 1º, em 47 municípios paraenses, da Região Metropolitana de Belém, Marajó Oriental, Baixo Tocantins e Região do Araguaia. "Belém ainda não passou pelo pico", aponta UFPA.

No primeiro dia da retomada, o qual contou com a reabertura do comércio de rua na capital, a UFPA publicou nota técnica de um Grupo de Trabalho sobre o novo coronavírus formado pela instituição, com novas informações científicas e análises do atual cenário de covid-19 no Pará.  

O documento conclui que não há como garantir uma queda na curva de contaminação no Estado. "Não há como afirmar inequivocamente que o Pará ou a região metropolitana de Belém esteja já na curva decrescente da pandemia. Assim, com base na prudência, em não havendo vacina ou medicamentos comprovadamente eficazes, a única estratégia para desacelerar a pandemia continua sendo o isolamento social."

A pesquisa ressalta que fatores da covid-19 como o ciclo, imunidade, período de incubação, por exemplo, ainda não estão definidos internacionalmente, portanto, "qualquer suposição sobre o comportamento da doença de modo uniforme seria mera especulação e não deveria ser considerada, de maneira segura e responsável, por gestores públicos", disse a nota técnica.

O estudo, conforme  a instituição, foi elaborado pelo Laboratório de Tecnologias Sociais, em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ao total, 11 profissionais se debruçaram na análise. O Grupo de Trabalho que aprovou o texto, por unanimidade, também contou com a participação do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e  do Ministério Público Federal (MPF).

Queda na curva. No último dia 25, o governo do estado publicou em sua agência de notícias uma matéria vinculando a autoria da pesquisa às duas universidades federais, com a informação que a Região Metropolitana de Belém alcançou nível de estabilidade e apresenta uma tendência de queda na curva de contágio.

O Estadão, na sexta-feira, 29, conversou com um dos pesquisadores da Ufra, que coordena o estudo mencionado pelo governo. Jonas Castro, que também é pro-reitor da Ufra, garantiu que a capital passou pelo pico da doença entre meados de abril e a primeira semana de maio.

"Estimamos, no primeiro momento, que o pico seria no dia 12 de maio e o estado teria cerca de 9 mil infectados. E à época os índices foram bem semelhantes. Estimamos em outras datas os números de óbitos que foram compatíveis com a projeção. É que a doença passa a se manifestar após cinco dias que a pessoa já está infectada, e depois é que ela faz a testagem, e o resultado sai em sete dias. O atraso, devido aos diagnósticos tardios, faz com que os números diários que alimentam o boletim, sejam de dias anteriores", detalhou Jonas Castro, que se mostrou preocupado com a migração da doença ao interior paraense.

Os informes feitos pela Ufra sobre o comportamento da covid-19, através da modelagem matemática e de inteligência computacional do Pará, são realizados com números alimentados diariamente do sistema da Secretaria de Saúde e não refletem a temporalidade em que são lançados. Ou seja, eles mantêm atrasos e apontam um cenário retrógrado.  

Nesta quarta-feira, o Estadão pediu à Ufra um posicionamento quanto ao assunto. A universidade se manifestou através de nota e garantiu que os "estudos apresentados até agora denotam o esforço de pesquisadores, a partir de diferentes metodologias, técnicas e bases de dados, em oferecer informações que possam abastecer os órgãos competentes". "É preciso entender que o estudo desenvolvido pela universidade não tem qualquer intenção de apresentar uma verdade absoluta", escreveu. A instituição garante que se baseia nos dados oficiais divulgados pela Secretaria de Saúde do Estado (Sespa).

A universidade reafirmou no texto "a necessidade do distanciamento como forma de controle da pandemia, posicionamento este que é reforçado pela própria decisão da Ufra de manter todas as suas atividades não essenciais suspensas por tempo indeterminado, incluindo as aulas. A instituição recomenda sobremaneira a permanência dos cuidados individuais e coletivos à sociedade paraense para evitar novas ondas de contágio."

A Ufra destacou ainda que, "o objetivo do trabalho de previsão de casos não é determinar a abertura ou o fechamento de estabelecimentos, mas, sim, oferecer indicadores numéricos, juntamente com outras universidades e instituições de pesquisa, para auxiliar de maneira técnica na construção de decisões por parte das autoridades públicas - estas, sim, responsáveis pela tomada de decisões.". 

O Estadão entrou em contato também com o governo do estado, que respondeu nesta quinta-feira.  "Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) esclarece que o estudo para analisar a curva epidemiológica e suas projeções no Estado é coordenado pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), com participação de pesquisadores de outras instituições, como UEPA, UFPA e UFOPA. Esse estudo é público e divulgado semanalmente pela UFRA. A Sespa reforça que a retomada das atividades comerciais em todo Estado está sendo feita de forma gradativa e responsável, de acordo com a necessidade de cada região. A secretaria informa ainda que na últimas 24h, nas regiões (RMB, Araguaia, Marajó Oriental e Baixo Tocantins) onde houve flexibilização o número de casos novos foi de 45 e de óbitos foi de 02."

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