Vanderlei Faria/Futura Press
Vanderlei Faria/Futura Press

UPA isolada por suspeita de Ebola vive 19 horas de desespero

No local havia 68 profissionais, pacientes e acompanhantes, que recorreram a orações. Eles serão monitorados por 21 dias

Fabiana Cambricoli e Miguel Portela, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2014 | 23h00

CASCAVEL - Um Pai-Nosso, dez Aves-Maria e trechos do livro religioso Minutos de Sabedoria foram as armas usadas por um grupo de pacientes e acompanhantes da UPA Brasília, em Cascavel, para controlar o desespero vivido nas mais de 19 horas em que ficou isolado na unidade de saúde responsável pelo atendimento do primeiro caso suspeito de Ebola no País. Entre funcionários, pacientes e acompanhantes, 68 pessoas estavam no local no momento em que Souleymane Bah, de 47 anos, era atendido. Todos eles serão monitorados por um período de 21 dias pelas autoridades sanitárias.

Uma delas é a vendedora Maria de Fátima Hommerdinig, de 60 anos, que acompanhava o sogro, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ela foi a responsável por comandar o grupo de oração em uma das salas da enfermaria. “Depois que avisaram que tinha um caso suspeito, todo mundo ficou preso na sala em que estava. Na minha, havia seis pacientes e quatro acompanhantes. Eu comecei a rezar pedindo proteção e tranquilidade e todo mundo acompanhou. Cada um leu um trecho do livro. A gente fez a reza três vezes. Só assim para segurar o emocional”, conta.


O sogro dela chegou à UPA no início da tarde de quinta-feira. O africano com suspeita de Ebola havia chegado à unidade às 10 horas. “Meu sogro chegou e foi levado direto lá para dentro, sem passar pela triagem, porque era AVC. Por algum tempo, os dois ficaram no corredor lado a lado, mas até aí ninguém sabia o que aquele rapaz tinha”, diz.

O alerta de isolamento e o fechamento da UPA aconteceram pouco antes das 19 horas de quinta. “Falaram que ninguém entrava e ninguém saía. Todo mundo ficou preocupado, com medo. Tinha gente que queria sair. Foi uma correria. Mas, depois, os funcionários vieram e explicaram como essa doença era transmitida, e a maioria do pessoal ficou mais tranquila, porque não tinha tido contato direto com o paciente suspeito”, diz o mecânico Ronaldo do Nascimento, de 52 anos, que acompanhava o pai.

Depois que Bah foi transferido para o Rio, na madrugada, os acompanhantes e pacientes que já tinham condições clínicas para sair passaram a ser liberados, mas antes precisaram seguir um protocolo de descontaminação, que incluiu banho, a aplicação de um produto desinfetante em gel e a entrega das roupas usadas para a equipe do hospital.


A UPA também passou por um processo de descontaminação em todos os ambientes. “Depois disso, os técnicos do Ministério da Saúde fizeram a vistoria e a gente reabriu normalmente, às 13 horas”, conta Clair Wagner, gerente de divisão de urgências da Secretaria Municipal da Saúde de Cascavel.

Ela diz que os três profissionais que participaram diretamente do atendimento ao paciente africano foram orientados a ficar em casa até a divulgação do resultado dos exames do paciente. No caso dos profissionais, uma equipe da Vigilância Epidemiológica deve ir à casa de cada um deles uma vez por dia para medir a febre e avaliar o quadro de saúde geral.

As demais pessoas que estavam no local não receberão a visita, mas tiveram a mesma recomendação de monitorar diariamente a temperatura.

“A indicação é para que elas fiquem em casa. No entanto, a possibilidade de contágio é considerada muito baixa, pois o Ebola não é transmissível pelo ar, mas pelo contato com o sangue, fluidos corporais do paciente ou então por objetos infectados”, explicou Reginaldo Andrade, secretário de Saúde do município. Entre os monitorados, estão 30 funcionários, 24 pacientes e 14 acompanhantes.

De acordo com ele, o africano não chegou a ir para a ala onde estavam outros pacientes internados.

Albergue. Também deverão ser monitoradas cerca de 20 pessoas que tiveram contato com Bah no albergue onde ele vivia na cidade.

Inicialmente, o Ministério da Saúde informou que o paciente morava com outras quatro pessoas em uma casa alugada no município. Os técnicos da pasta foram até o local, mas os moradores, quatro haitianos, negaram conhecer Bah ou ter morado com ele.

Mais tarde, foi confirmada a informação de que Bah estava morando no Albergue André Luiz, único da cidade e mantido pela Sociedade Espírita Irmandade de Jesus. De acordo com a psicóloga da unidade, Fabiane Fauth, o africano deu entrada no albergue no dia 21 de setembro e permaneceu no local até 8 de outubro, um dia antes de procurar atendimento médico.

“Ele sempre teve uma boa aparência, era alegre e não tinha aparência de ser doente. Ele se queixou de mal-estar apenas uma vez, no dia 29 de setembro. Eu indiquei um posto de saúde próximo do albergue, mas não sei se ele procurou atendimento médico.”

De acordo com Fabiane, o africano dividia o quarto com 20 pessoas. No dia 8 de outubro, ultimo registro de pernoite, havia oito africanos da Guiné. Uma equipe da Vigilância Epidemiológica esteve no local para averiguar a situação.


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