WERTHER SANTANA / ESTADÃO - 14/08/ 2019
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Uso de redes começa a preocupar quando jovem negligencia realidade, diz psicólogo

Especialista indica que pais fomentem sensação de amparo e proteção de filhos para que não precisem buscar nas mídias sociais

Entrevista com

Cristiano Nabuco

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2022 | 05h00

Negligenciar atividades do cotidiano - como estudar, praticar esportes ou encontrar amigos - é um dos sinais de que o consumo de redes sociais pelos adolescentes deixa de ser saudável e vira dependência. O alerta é feito pelo coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), Cristiano Nabuco. 

O problema, porém, tem solução. Segundo Nabuco, os pais e responsáveis têm de ser pacientes para lidar com o jovem. A sensação de amparo e proteção, acrescenta ele, podem ajudar a reduzir o tempo de uso das mídias.

Como diferenciar um comportamento saudável de consumo de redes sociais de uma dependência?

É uma pergunta difícil de ser respondida. As redes sociais se tornaram, na verdade, uma extensão da vida de cada um. Hoje, eles (jovens) ficam alternando entre vida offline e online, fazendo com que os números de utilização sejam cada vez mais expressivos.

Para se ter uma noção, o Brasil, hoje, é o segundo país no mundo onde mais se gasta tempo na internet. O brasileiro, de uma forma ou de outra, acaba encontrando na rede social uma perspectiva de nivelamento. Na rede social, essa grande alternância de status sociais, penetração e relevância foi diluída um pouco. Faz com que as pessoas ganhem um pouco de voz.

O problema que ocorre é que nessa utilização, muitos jovens acabam naturalmente se perdendo, porque têm na rede social um perfil, um contorno psicológico, que é muito mais agradável que o perfil da vida real. Na rede social, você retoca as fotografias, têm tempo para pensar o que vai expor, você consegue aprimorar sua imagem social.

Por essa e outras questões, a gente não consegue mais falar de um jovem hoje sem ter esse acesso contínuo. Talvez a gente nem possa mais falar de tantas horas que ele está conectado, porque ele está conectado o tempo todo. Isso começa a criar uma série de descompassos (com a realidade).

Como os pais podem identificar que o consumo se torna dependente?

O que se costuma convencionar é que o problema começa a se instalar quando esse jovem começa a negligenciar atividades cabíveis da vida real. Ele deixa de estudar como deveria. Acaba preferindo se relacionar preponderantemente por meio das redes. Eles ficam tão conectados que acabam negligenciando tudo aquilo que é esperado da vida comum. Deixa de interagir socialmente com a família.

A identidade elaborada se torna a principal. Algumas pesquisas vão mostrar dados bem alarmantes. Uma pesquisa com meninas adolescentes mostrou que as jovens que gastavam mais de três horas em redes sociais por dia, tinham aumento de 75% de chance de desenvolverem condutas autodestrutivas. Ou seja, quão insatisfeitas elas se tornam com a  vida concreta.  

Ao identificar esse comportamento de dependência, como os pais podem ajudar o adolescente a ter um comportamento de consumo mais saudável?

Na medida que você tem uma pessoa que sistematicamente se sente pouco incluída, protegida, assistida, a rede social acaba fazendo esse papel. A ideia de auxiliar esse jovem a “desmamar”, parte do princípio que, enquanto família, nem que seja de forma bem diminuta, você ofereça um pouco de amparo, apoio, suporte emocional. Eu sugeriria tentar desenvolver atividades em família. Atividades que visem a tornar esses jovens mais próximos. Quando você consegue recuperar a sensação de proteção, provavelmente, o jovem vai deixar de buscar na rede social aquilo que tanto busca em substituição ao que não tem.

Até que ponto é aconselhável os pais ou responsáveis interferirem no consumo de redes sociais de adolescente? Qual a melhor abordagem?

Sempre será produtivo. Muitos jovens que atendemos, quando os pais começam a fazer essa interferência, ficam completamente agressivos. Obviamente, porque essas redes sociais estão funcionando quase como uma droga digital.  Quando começamos a aumentar o contato com os pais, muitos dizem: ‘Vocês nunca ligaram pra mim e agora estão preocupados?'. Marcando a sensação de negligência e abandono. Pedimos um pouco de paciência. Em vez de falar necessariamente sobre tempo de uso, vamos tentar convidar esse filho para fazer alguma coisa, tentar um caminho de aproximação.  

Muito se fala dos malefícios das redes sociais aos adolescentes. Mas há benefícios? Quais?

Produzir um senso de pertencimento. Acredito que as redes sociais cumpram um fator importante de ajudar esses jovens a se sentirem mais aceitos pela comunidade.

O problema, que acaba sendo um tiro no pé, é que essa aceitação envolve uma maquiagem. Existe o benefício se você agir de forma natural, mas não é o que vemos, principalmente, dos jovens porque eles ainda não têm o cérebro plenamente desenvolvido. Isso quer dizer que só vão conseguir regular a utilização depois dos 25 anos de idade. Antes dos 25, não têm maturidade de exercer o que chamamos de freio comportamental. Eles não têm essa estrutura biológica que dá a capacidade de mudar comportamentos ou interferir no curso do comportamento. Aí entram os pais.

Voltando aos benefícios, você pode conhecer pessoas de outras localidades geográficas e experienciar papéis diferentes. Se você é muito tímido, ao entrar na rede social, ao fazer de conta que é mais “solto”, isso tem um fator importante do ponto de vista psicológico. As redes dão a possibilidade de esses jovens experimentarem reações de um outro ponto de vista.

A longo prazo, quais os efeitos do uso excessivo de redes sociais aos adolescentes?

A gente ainda não tem pesquisas específicas sobre redes sociais. Uma pesquisa sobre videogames, que envolve tomada de decisões rápidas, mostrou que mais de três ou quatro horas por dia fazia com que uma região do cérebro a pré-frontal, que é onde se faz o controle dos impulsos, perdia a consistência. O jovem fica mais vulnerável.

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