JF Diório/Estadão
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UTIs diversificam práticas para envolver família nos cuidados ao prematuro

Hospitais ampliam oportunidades para pais, avós e irmãos integrarem rotina do recém-nascido internado

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 03h00

Dentro de um baldinho e amparado pelas mãos do pai e da mãe, o pequeno Lucca toma banho e relaxa – tanto que até faz xixi na água morna. Na UTI neonatal do Hospital São Luiz, na zona sul de São Paulo, o pai e a mãe dão risadas do pequeno feito. Um sorriso que se alarga a cada dia, à medida que o bebê se desenvolve e ganha peso. 

“No primeiro mês, não consegui ter muito contato com ele”, diz o pai, Marcos Parise, de 35 anos. E a voz por pouco não é vencida pelas lágrimas. O filho do analista de sistemas e da mulher, Laura, nasceu tão pequeno que pesava menos do que uma caixinha de leite. Foram só 23 semanas de gestação até Lucca chegar ao mundo, com 720 gramas, e logo ser envolto em um emaranhado de fios e tubos para sobreviver. 

Quando completou um quilo, o bebê ganhou mensagem de parabéns da UTI, e os pais tiveram, finalmente, a chance de colocá-lo no colo. “Ele segurava nos pelos do meu peito e ficava ali debruçadinho, dormindo tão gostoso”, diz Parise sobre o método canguru ou “pele a pele” – técnica de contato entre o corpo do bebê e o do pai ou da mãe para ajudar no desenvolvimento. Lucca teve alta há uma semana, após 110 dias de internação. 

A prematuridade desafia o sistema de saúde brasileiro – da gestação, passando pela UTI até a alta dos bebês. No País, de um total de aproximadamente 3 milhões de nascimentos no ano passado, 345 mil (11,5%) foram prematuros, segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). E a prematuridade é uma das principais causas de mortalidade nos primeiros 5 anos de vida – não só no período neonatal.

Pai

Depois de perceber que os homens reivindicavam maior participação no cuidado dos prematuros, a UTI do São Luiz no Itaim-Bibi, na zona sul, instituiu neste ano o domingo como o dia do pai. Lá e na unidade Anália Franco, na zona leste, o cuidado com o bebê é exclusivo dos homens aos domingos: eles trocam fraldas, dão banhos e põem a criança no colo. 

O caso do São Luiz não é o único. UTIs neonatais de São Paulo apostam em práticas para integrar a família, aumentar o vínculo com o bebê e acelerar o desenvolvimento. O conforto do prematuro é outra meta. Para isso, as unidades aplicam técnicas que simulam o tempo no útero. Redes dentro da incubadora e banho de balde (ou ofurô) estão entre os cuidados. 

“Os pais queriam se envolver mais. Por que não criar um momento só para eles?”, indaga Graziela Lopes del Ben, médica responsável pela neonatologia do São Luiz. 

Na Maternidade Pro Matre Paulista, na região central, o vínculo paterno também é estimulado. “Temos um número grande de bebês de gestações gemelares e os pais se revezam. Cada vez é mais frequente”, diz Edineia Lima, neonatologista e chefe da UTI neonatal. 

++ Recém-nascidos ganham ‘spa’ para relaxar e desenvolver autoconfiança

Família

A Pro Matre também permite a visita dos avós aos bebês sempre que as ondas de viroses dão uma trégua. Os avós dos trigêmeos recém-nascidos Vinicius, Barbara e Melissa não abrem mão de ver os pequenos. “São os primeiros netos. Todo dia de visita é sagrado. Meu pai (avô das crianças) até me cobra”, diz a mãe Sheila Berton, de 44 anos. 

Quem ainda marca presença nas UTIs é o irmão ou irmã do bebê. No Hospital Albert Einstein, na zona oeste, as crianças podem conhecer o caçulinha prematuro. “Elas ainda penduram um desenho na incubadora como presente para o irmãozinho que chegou”, diz Romy Zacharias, coordenadora da UTI neonatal do Einstein. 

A mesma prática é feita no Hospital Metropolitano, na zona oeste. “Mamãe, elas são muito pequenininhas”, disse Rogério, de 8 anos, ao ver as irmãs pela primeira vez na UTI. “Ele estava ansioso e preocupado. Conversava com elas na minha barriga”, lembra a coordenadora de vendas Kemely Cardoso, de 33 anos, mãe de Rogério e das gêmeas Mariah e Sophia. 

Conforto

Na UTI neonatal do Hospital da Luz, na zona sul, é a música clássica que embala, desde março, o sono dos recém-nascidos. “A música estimula a linguagem, a emoção. E ajuda os pais, quebra o gelo da UTI”, explica Talita Amanda Germano, enfermeira supervisora do setor na unidade.

“Os bebês ficam calmos e acabam dormindo. Nós também ficamos mais aconchegados”, diz a consultora de óptica Priscila Trajano, de 24 anos, que bate ponto todos os dias no hospital. Mãe de gêmeos, Priscila se divide entre os cuidados com Heitor, que ainda está internado, e Miguel, que já ganhou alta. O difícil, relata a mãe, é voltar para casa no fim do dia sabendo que um dos filhos ainda está no hospital. 

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A UTI é hostil, tem barulho e luminosidade. E a criança é afastada da mãe porque fica muito tempo internada. Buscamos formas de mudar isso.
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Adriana Moreira, enfermeira do Hospital Geral de Pedreira, na zona sul

Para confortar os pais, a enfermeira neonatologista Adriana Moreira, do Hospital Geral de Pedreira, na zona sul, confecciona travesseiros que simulam o antebraço da mãe. Os objetos são colocados dentro das incubadoras. “O primeiro contato do travesseiro é com a mãe. O cheiro e o toque ficam com a criança.”

A unidade ainda põe os bebês sobre redinhas penduradas nas incubadoras – que trazem a sensação dos movimentos no útero – e dá banho de ofurô para relaxar.

 

Atenção deve ser individualizada, dizem especialistas

Em documento científico publicado no mês passado, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta para a importância da prevenção e do atendimento individualizado à criança prematura em UTIs neonatais. “Para reduzir a mortalidade infantil, tem de se investir nas políticas públicas próximas do nascimento”, resume Maria Albertina Santiago Rego, professora de Pediatria da Universidade Federal de Minas (UFMG) e membro do Departamento de Neonatologia da SBP. 

O tamanho do desafio é proporcional à complexidade do problema. “O grupo de prematuros é muito heterogêneo e está associado a um amplo espectro de condições clínicas”, diz Maria Albertina. Para ela, são necessárias ações desde o início da gravidez. “Um ultrassom confiável para datar a gestação tem de ser feito nas primeiras 14 semanas.”

Em casos em que o nascimento prematuro é inevitável, a SBP recomenda a criação de planos de cuidados individualizados para o bebê. O órgão também destaca a importância do aleitamento materno e do método canguru, de contato pele a pele entre a criança e os pais. “A mãe e o pai têm direito de participar dos cuidados na UTI”, diz a médica.

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Recém-nascido ganha ‘spa’ para desenvolver autoconfiança

Primeiro espaço do gênero no Brasil tem flutuação com boia para crianças a partir de 2 meses; cada sessão custa R$ 150

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Pedro não fala nem anda, mas já é cliente de um spa. Aos 6 meses, recebe sua dose semanal de mordomia, que inclui flutuação em água morna e massagem. As sessões começaram quando a criança tinha só 2 meses. “Ele pula tanto dentro da água, faz gracinhas e já empurra a beirada da piscina para ganhar espaço”, diz a mãe, a enfermeira Ana Raquel Côrtes, de 36 anos. Depois, Pedro faz shantala – massagem de origem indiana –, “sai de lá e capota”. A mãe diz que ele está dormindo melhor e tem menos cólicas. 

O Vila Baby Spa, em Belo Horizonte, é o primeiro do País a oferecer a flutuação para bebês. Os pequenos são colocados em uma boia apoiada no pescoço e ficam sozinhos na água aquecida a 37ºC durante 15 minutos. 

Spas com método semelhante já funcionam em outras partes do mundo, como Austrália, Estados Unidos e Portugal “As mães procuram porque o bebê não dorme e está com cólica. O método é eficaz para essas situações”, diz Ellen Rocha, enfermeira e gerente do espaço, que abriu em outubro de 2016 e já atendeu 144 bebês. 

++ UTIs diversificam práticas para envolver família nos cuidados ao prematuro

Autonomia. Metade deles, diz Ellen, são crianças que nasceram prematuras. A técnica, segundo ela, ajuda no sistema cardiorrespiratório e no desenvolvimento neuropsicomotor, além de estimular a autonomia das crianças. As sessões – que custam R$ 150 – têm acompanhamento de profissionais como enfermeiras, terapeutas ocupacionais e nutricionistas e a presença do pai ou da mãe é obrigatória. “A criança está solta (na água), mas o ponto de referência, de segurança, tem de estar ali. Isso fortalece o vínculo e a confiança”, diz Ellen. 

A gerente de recursos humanos Karin Lundberg, de 39 anos, procurou o método para o casal de gêmeos Maya e Gael. Os bebês nasceram de 31 semanas e ficaram um mês na UTI. Começaram a frequentar o spa com 8 semanas de vida – idade mínima para início das sessões. “Meu filho até dormiu na piscina. Se sentia à vontade”, afirma Karin. “Saíam morrendo de fome e dormiam bem à noite”, completa.

Vídeo: Gael dorme durante sessão de flutuação

Profissional. Consultado sobre a técnica, o fisioterapeuta e diretor científico da Sociedade Brasileira de Fisioterapia (SBF) Wiron Lima disse que “abordagens aquáticas são sempre positivas para bebês”. 

Segundo ele, as vantagens obtidas incluem “simular ambiente uterino, conforto térmico e a redução de impactos nas atividades”. Lima destaca ainda a importância da revisão das boias e a necessidade de acompanhamento de profissionais para a atividade.

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