Alberto Pizzoli/AFP
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Vacina boa é vacina no braço

Provavelmente teremos um certificado internacional nos moldes da febre amarela

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 05h00

Os números da covid ainda são assustadores e precisamos intensificar o processo de vacinação. Somos sabedores que os imunizantes estão em falta e a corrida contra o tempo se faz mais do que necessária. A maioria dos países europeus, com exceção do Reino Unido, ainda não tem um plano adequado e os casos ainda afloram em mortos e internações.

Em nosso País, observamos melhora no número de casos e óbitos, o que pode ser o resultado de medidas de distanciamento social e uso de máscaras muito mais frequentes por parte da população – e, na minha visão, da aplicação das vacinas. A vacinação já alcança 18% da população com os imunizantes do Instituto Butantan e de Oxford/Fiocruz. Com a chegada de nova plataforma vacinal na semana passada, a da Pfizer - de RNA mensageiro -, novas esperanças surgem para acelerar o processo, com a aquisição de 100 milhões de doses neste momento e uma possibilidade até de mais até o fim do ano. Quero acreditar que seja verdade para podermos voltar a um novo normal. Muito gratificante você observar as pessoas mais integradas e alegres em Israel e EUA, que já aboliram as máscaras em espaços abertos. 

Muito se falou acerca do intervalo da dose da Pfizer: em bula e na maior parte dos países o intervalo é de 21 dias. Em território nacional vamos experimentar 12 semanas. Quais seriam as explicações? A mais convincente e óbvia recai em poder imunizar maior número de pessoas em maior espaço de tempo enquanto as doses estão a ser produzidas e desembarcadas. Existe esse tipo de situação na Escócia com sucesso e em outros países europeus e até no Canadá. O CDC (órgão de saúde dos EUA) recomenda até 42 dias de intervalo, mas também não existem estudos que configuram o intervalo. 

Como o Brasil apresenta vasta área territorial, será um desafio vacinar com Pfizer pelas características do armazenamento e pelo processo de logística com freezer a baixas temperaturas. Pareceu a meu ver acertado usar apenas nas capitais. Não podemos perder doses em hipótese nenhuma.

Há muitas informações chegando à população sobre viagens internacionais: ingressar nos EUA para trabalho ou turismo e ser vacinado com Pfizer, Moderna ou Janssen – e na Europa, incluindo Oxford/Astra Zeneca. Notamos uma busca frenética pelas pessoas da vacina da Pfizer. Como se pudéssemos escolher neste momento crítico. Precisamos pensar em tomar vacina. Vacina boa é aquela no braço. 

Creio que a OMS vai emitir um parecer mais à frente, orientando que a Coronavac também fará parte do processo de entrada em todos os países. Questão de tempo. Muito provavelmente vamos caminhar para um certificado internacional nos mesmos moldes que já temos da febre amarela, que funciona muito bem, com dose única.

Em covid-19, ainda não sabemos qual seria a periodicidade: cada 6-8 meses, anual, bianual. Os estudos com a evolução da vacinação em mundo real trarão respostas. Fazer reforço com uma terceira dose do mesmo imunizante ou de outra plataforma vacinal é dúvida que permeia a ciência e deixa todos angustiados. O grande problema poderão ser as variantes, e até o momento as vacinas estão com cobertura eficaz. 

Dúvida que fica no ar: e com a variante indiana, as vacinas terão proteção? Sinceramente muito precoce falar nisto. Devemos ajudar o povo indiano, dando apoio no que for necessário por lá e, talvez por um momento, fechar entrada pelos aeroportos para não disseminar neste momento algo que seja mais agressivo do que a nossa P.1. Temos de reforçar sempre que a covid-19 é uma doença traiçoeira e traz sérios danos e óbitos, independentemente da idade e de comorbidades. 

*COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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