Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Militares levam vacina de covid a aldeias, mas discurso anti-imunizante de Bolsonaro chega antes

Boa parte dos moradores da região tem medo da vacinação e desinformação preocupa as autoridades

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

AMAZONAS - A vacina Coronavac chegou nesta terça-feira, 19, à aldeia Umariaçu I, a mais próxima do centro de Tabatinga, no Amazonas, na tríplice fronteira do Brasil com Peru e Colômbia. Foram quase dois dias de viagem até o Território Ticuna, maior etnia indígena do País. As 1.100 doses foram levadas em dois aviões: o cargueiro C-130 Hércules e o turbo-hélice C-97 Brasília, ambos da FAB. As ampolas em caixas de isopor climatizadas passaram, nos porões dessas aeronaves, por Guarulhos, Brasília e Manaus, ao longo da segunda-feira.

A expectativa era grande, mas o cacique da comunidade, Dikicinei Ramos Lopes, não apareceu para recebê-las no começo da cerimônia, nem uma parcela dos ticunas. A desinformação teria também chegado à aldeia, desconfiada pelos “efeitos colaterais” falsos da vacina. 

A campanha do Exército de levar as ampolas a uma região isolada da Amazônia enfrentou os efeitos do discurso antivacina propagado especialmente pelo Palácio do Planalto. “Até agora ele não apareceu aqui, né? Então ele ainda está com pensamento duvidoso”, disse o técnico de enfermagem Tarcis Marques Mendes, de 34 anos, sobre a ausência do cacique. “Meu povo ticuna aqui está em pânico, porque falaram que a vacina mata, que quem toma vai ficar doido na hora. Uma pessoa que fale um boato ou mentira, eles acreditam”.

Terceiro indígena aldeado a receber a vacina contra o novo coronavírus na região do Alto Solimões, Marques afirmou que o cacique rechaçou apelos para conversar e tranquilizar a comunidade. O chefe da tribo ecoou o discurso do Planalto de que a vacinação não poderia ser obrigatória. “Ele estava esperando chegar a vacina, achava bom, mas depois falou que estava com dúvida de tomar. Disse que quem quiser toma, mas quem não quiser não pode (ser obrigado a) tomar”, contou o técnico de enfermagem.

 Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Especial de Saúde Indígena, Ticuna se apresentou para a imunização horas depois.  A coordenação local do órgão fez contato com ele após ter sido questionada pela reportagem sobre a contrariedade do líder e presenciar enfermeiros indígenas relatando sobre o medo da vacina e desinformação espalhada na aldeia. Ao fim, quinhentas pessoas receberam a primeira dose em Umariaçu. 

Redes sociais

A desinformação circula nas aldeias por meios digitais e físicos. São as redes sociais, como Facebook, e aplicativos como WhatAspp, usados pelos indígenas em lan houses ou no celular. Isso quando conseguem conexão ao intermitente sinal das operadoras de telefonia. Até as unidades militares da região sofrem com a precariedade do sinal.

O cacique usou uma forma mais rudimentar de comunicação nas aldeias, um sistema de rádio com alto-falantes espalhados entre as casas e ocas, apelidado de “boca de ferro”. A recado dele afastou indígenas da Coronavac.

O enfermeiro Euzimar Tananta, de 45 anos, da etnia Kokama, no Alto Solimões, confirmou a apreensão entre os ticunas. Segundo ele, o cacique faz parte de um grupo na política partidária municipal e tem seus seguidores. Ele também diz que a chuva nessa época do ano dificulta a vacinação e afasta os indígenas do polo de saúde. “Eles vieram falar que estavam com medo, que o próprio cacique colocou na boca de ferro que não era para ninguém se vacinar, porque a vacina não tinha sido comprovada”, disse o enfermeiro, orgulhoso de ter sido o aplicador da primeira dose em Umariaçu. A escolhida foi Isabel Mariano Cezário, de 68 anos. “Não tive medo. Estou muito agradecida”, disse ela. “A vacinação é importante para a comunidade, as outras etnias têm que tomar também.”

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