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Pazuello diz que, se Pfizer conseguir adiantar entrega, vacinação emergencialpode começar em dezembr Frank Augstein|AP Photo

Pazuello diz que, se Pfizer conseguir adiantar entrega, vacinação emergencialpode começar em dezembr Frank Augstein|AP Photo

Vacina contra a covid-19: quando os brasileiros serão imunizados?

Imunização em outros países aumenta expectativa sobre o início do processo no Brasil. Saiba o que falta para ficarmos protegidos do novo coronavírus

Gonçalo Junior , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Pazuello diz que, se Pfizer conseguir adiantar entrega, vacinação emergencialpode começar em dezembr Frank Augstein|AP Photo

A notícia aguardada há meses no mundo todo foi confirmada: a aprovação de uma vacina contra a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A partir de vários projetos promissores, desenvolvidos em uma mobilização inédita de cientistas, os estudos da americana Pfizer e a alemã BioNtech resultaram em um imunizante liberado pelo Reino Unido. Foi o primeiro em um país ocidental. A vacinação começou na terça-feira por lá. Isso significa que há uma saída efetiva para o fim da pandemia.

Mas e agora? Quando será a vacinação no Brasil? Abaixo, as principais perguntas sobre o caminho da aprovação da vacina, passo que ainda falta ser dado para aquela picadinha da agulha deixar os brasileiros mais aliviados.

Datas e prazos de vacinação

Quando começa a vacinação no Brasil?

A previsão inicial era começar a vacinação em março. Em reunião com governadores na terça-feira, 8, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, prometeu começá-la no fim de fevereiro. Nessa quarta-feira, 9, Pazuello disse que as primeiras doses podem ser aplicadas em caráter emergencial em dezembro ou janeiro. Ele não marcou um dia específico.

Qual vacina será aplicada?

Por enquanto, o governo brasileiro garantiu 100 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, que também será produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O Ministério da Saúde também sinalizou a compra de 70 milhões de doses da vacina da Pfizer. O Brasil deve receber vacinas pelo consórcio Covax, ainda indefinidas.

A população terá que pagar?

Não. A vacina será gratuita para todos através do Sistema Único de Saúde (SUS).

A aplicação das vacinas pode ser feita na rede privada?

A princípio, não. As negociações dos laboratórios e farmacêuticas estão restritas aos governos nacionais e estaduais. Walter Cintra, professor de Especialização em Administração Hospitalar e de Serviços e Sistemas de Saúde da FGV, lembra que as negociações estão sendo feitas em grandes escalas. “Quando o governo compra, o contrato se refere a milhões de doses. Não acredito que os laboratórios privados farão compras nessa quantidade”, opina.

As vacinas já estão aprovadas no Brasil?

Não. O Brasil ainda não tem uma vacina aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Algumas farmacêuticas estão compartilhando resultados prévios para agilizar a análise para o registro.

Grupos que serão vacinados

Quem será vacinado?

De acordo com o Ministério da Saúde, serão vacinados idosos com 75 anos ou mais, profissionais de saúde e indígenas.

Por que esses grupos serão imunizados em primeiro lugar?

O virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a ideia mais difundida entre os especialistas no mundo é dar preferência aos indivíduos que apresentam risco elevado de contrair a covid-19 na hora da imunização. “O maior grupo de risco é o de idosos. Por isso, eles encabeçam a lista. Além disso, indivíduos que apresentam maior risco de exposição ao vírus e aos grupos de risco também deve ser vacinados. Isso inclui profissionais da saúde”.

Como será a distribuição das vacinas?

A campanha de imunização será dividida em quatro etapas. Cada uma delas deve alcançar uma parcela dos brasileiros. Na primeira fase, o foco está nos trabalhadores da saúde, comunidades indígenas e população idosa com mais de 75 anos. Na segunda fase, o foco são os idosos com idades entre 60 a 74 anos. Na etapa seguinte, as campanhas vão imunizar pessoas com comorbidades, aquelas com risco maior chance de complicações. Por exemplo, pacientes com doenças renais crônicas e cardiovasculares. Na quarta fase, serão vacinados os professores, as forças de segurança e salvamento.

E quem não está dentro do grupo prioritário?

Ainda não há definição sobre a vacinação do restante da população.

A vacina tem contraindicações?

Por enquanto, apenas a vacina da Pfizer, aplicada no Reino Unido, apresentou reação em duas pessoas após o começo da vacinação em massa no país. Quem tem histórico de reações alérgicas graves a medicamentos, vacinas ou alimentos não deve tomar o imunizante por enquanto. 

A vacina demora quanto tempo para fazer efeito?

De acordo com a Pfizer/BioNTech, a única aprovada entre os países ocidentais, há redução de risco logo após a primeira dose, inclusive de contaminação grave. No caso da segunda dose, aplicada no intervalo de 21 dias, o risco de contaminação cai até sete dias depois.

Quem já teve a doença causada pelo novo coronavírus deve ser vacinado?

A pergunta divide os especialistas. O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que sim. “A imunidade é de curta duração. A pessoa tem que ser vacinada para se proteger de uma reinfecção. Para a infectogista Sylvia Lemos Hinrichsen, a resposta ainda não está pronta. Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações, afirma que a imunidade depois da doença ainda está sendo estudada. “Como a gente desconhece a imunidade a longo prazo dessa doença, é recomendado que a vacina seja aplicada também para quem tem histórico da doença”, afirma.

Qual é a eficácia das vacinas?

A vacina de Oxford possui eficácia média de 70%, dado obtido a partir de dois usos diferentes. No primeiro, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo, a eficácia foi de 90%. O segundo grupo recebeu duas doses completas. Aqui, a eficácia foi de 62%. A Pfizer relatou 95% de eficácia do produto em testes. Os resultados foram publicados nesta quinta-feira, 10. A Coronavac vai divulgar os dados na semana que vem. Em novembro, um estudo publicado na revista científica Lancet Infectious Diseases informou que ela produz resposta imune no organismo 28 dias após sua aplicação em 97% dos casos. A vacina da farmacêutica AstraZeneca e da Universidade de Oxford tem eficácia de 70%, segundo estudo da revista Lancet. Moderna e Sputnik V anunciaram dados de 94% e 92%, respectivamente.

Quantidade de vacinas

Quantas vacinas o Brasil já tem?

Cerca de 300 milhões de doses estão garantidas para 2021, de acordo com o governo federal. Cada indivíduo precisará tomar duas doses. Isso significa que existem vacinas para 150 milhões de pessoas. O Ministério da Saúde assinou uma carta de intenção, como uma promessa de compra, para mais 70 milhões de doses.

Essa quantidade é suficiente?

Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, os números são razoáveis. “São números razoáveis, mas me preocupa não ter nenhuma indicação sobre a Coronavac, que está pronta, e também nada sobre a vacina da Moderna. Quantitamente os números parecem adequados, mas, na prática, eu não sei quando essas vacinas estariam disponíveis para a população brasileira, que é o que mais importa”, alerta o pesquisador.

Quais são essas vacinas?

Existem acordos com o laboratório AstraZeneca e da Universidade de Oxford para 260 milhões de doses. Outras 42 milhões chegarão do consórcio mundial Covax Facility - a vacina não está definida. As outras 70 milhões são da americana Pfizer.

Quando elas começam a chegar?

Quinze milhões dessas doses começam a chegar em janeiro. As primeiras 8,5 milhões de doses da Pfizer devem chegar ao País no primeiro semestre.

 

A vacinação em São Paulo

Quando começa a vacinação em São Paulo?

De acordo com o governador João Doria, a vacinação terá início em 25 de janeiro no Estado de São Paulo. A vacina utilizada na campanha paulista será a Coronavac, do laboratório chinês Sinovac e que será produzida pelo Instituto Butantã.

As datas de vacinação serão diferentes em São Paulo e no Brasil?

Por enquanto, sim. Os cronogramas são diferentes. Mas isso deve mudar. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que “o PNI (Plano Nacional de Imunização) é nacional. Não pode ser paralelo”. O PNI é o programa que reúne todas as vacinas no País.

Quem é de outro Estado vai poder tomar a Coronavac em São Paulo?

O governo de São Paulo disse que não será necessário comprovar residência no Estado para tomar a vacina. Por outro lado, os gestores não explicaram o que vão fazer se o Estado receber muita gente de outras cidades num movimento que já está sendo chamado de “turismo de vacina”

Onde será possível se vacinar?

Nos postos de vacinação. O governo de SP, em parceria com 645 municípios do Estado, irá ampliar de 5.200 para 10 mil o número de locais para que a população se imunize. Para tanto, serão implantadas estratégias especiais de vacinação incluindo quartéis da Polícia Militar, farmácias credenciadas, escolas aos finais de semana, terminais de ônibus e também por drive thru.

Qual será o horário nos postos de vacinação?

De segunda a sexta-feira, das 7h às 22h. Aos fins de semana, das 7h às 17h30. Este poderá ser estendido também até as 22h caso seja necessário.

Como será a logística de vacinação?

A campanha contará com 54 mil profissionais de saúde e 25 mil agentes de segurança enquanto durar o período de vacinação.

Qual grupo será vacinado na primeira fase?

A partir do dia 8 de fevereiro, serão imunizados os idosos com 75 anos ou mais. Na semana seguinte, a partir do dia 15 de fevereiro, será a vez dos idosos entre 70 a 74 anos. A partir de 22 de fevereiro, receberá a imunização a faixa etária de 65 a 69 anos. Por fim, no dia 1º março, começarão a ser vacinados os indivíduos de 60 a 64 anos. No grupo de idosos, serão 7,5 milhões de imunizados. Doria não informou como será a vacinação dos demais grupos de risco da covid-19, como portadores de doenças crônicas.

São Paulo terá quantas vacinas?

O governo fechou um acordo com a chinesa Sinovac para 46 milhões de doses. Seis milhões vão chegar prontas da China. O restante será produzido pelo Instituto Butantã. Depois, devem chegar 15 milhões de doses até março. O governo estadual promete disponibilizar 4 milhões para outros Estados. De acordo com o poder estadual, onze Estados já se interessaram. 

Qual é cronograma de vacinação?

A vacinação será realizada entre os dias 25 de janeiro a 28 de março com a aplicação de 18 milhões de doses. Serão aplicadas duas doses por pessoa, com intervalo de 21 dias entre a primeira e a segunda. O cronograma de vacinação é o seguinte:

1ª dose

  • 25/01 - Profissionais da Saúde, indígenas e quilombolas

  • 08/02 - Pessoas com 75 anos ou mais

  • 15/02 - Pessoas com 70 a 74 anos

  • 22/02 - Pessoas com 65 a 69 anos

  • 01/03 - Pessoas com 60 a 64 anos

2ª dose

  • 15/02 - Profissionais da Saúde, indígenas e quilombolas

  • 01/03 - Pessoas com 75 anos ou mais

  • 08/03 - Pessoas com 70 a 74 anos

  • 15/03 - Pessoas com 65 a 69 anos

  • 22/03 - Pessoas com 60 a 64 anos

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Vacina contra a covid-19: o que a União, Estados e municípios podem fazer?

Estados e municípios podem comprar e produzir a vacina, mas ela tem de ser autorizada e liberada pela Anvisa

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 15h00

Diante da demora do governo federal de fechar acordos de compra ou antecipar a campanha de vacinação contra a covid-19, governadores e prefeitos têm se mobilizado por conta própria para conseguir imunizantes. O Estadão mostrou na terça-feira, 8, que parte dos gestores recorre à gestão João Doria (PSDB), de São Paulo, para obter doses da Coronavac, desenvolvida em parceria com o laboratório chinês Sinovac. Outros governos já preveem negociação direta com a Pfizer, se fracassar o negócio com a União. Mas, o que cada governador ou prefeito pode fazer para combater a doença causada pelo novo coronavírus? Veja a resposta para essa e outras perguntas sobre os limites e as responsabilidades da União, dos Estados e municípios.

Quem é responsável pela aprovação da vacina no Brasil?

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o órgão do governo federal responsável pela aprovação dos medicamentos no País, inclusive os imunizantes. Só a Anvisa pode dar registro de medicamento no Brasil. Para obter isso, o laboratório prepara um dossiê sobre a vacina, com detalhamento de todas as fases de testes.

Estados e cidades podem comprar ou produzir vacinas por conta própria?

Walter Cintra, professor de Especialização em Administração Hospitalar e de Serviços e Sistemas de Saúde da FGV, afirma que a situação não é usual, mas pode ocorrer. “Poder, eles (Estados e municípios) podem. Nada impede que eles comprem insumos, remédios e vacinas diretamente das farmacêuticas. Não é usual. É uma sintoma da situação do “salve-se quem puder” que estamos vivendo”, diz o especialista.

O Ministério da Saúde pode impedir a aplicação da vacina em Estados e cidades?

Não. Se a vacina tiver registro no órgão regulador do País, Estados e municípios podem usá-la de acordo com sua vontade. O imunizante só pode ser distribuído e entregue para a população com essa autorização, lembra o médico Gonzalo Vecina, fundador, ex-presidente da própria Anvisa e colunista do Estadão.

Um Estado pode entrar na Justiça para liberar uma vacina que já tenha sido aprovada em outro país?

Existe essa possibilidade, de acordo com o médico e advogado sanitarista Daniel Dourado, pesquisador da Universidade de Paris e cofundador do think tank HealthTech & Society. Em maio, o Congresso aprovou uma lei que concede autorização excepcional e temporária para importação e distribuição de medicamentos essenciais no combate à pandemia e que sejam registrados em pelo menos uma de quatro autoridades estrangeiras. São elas: Estados Unidos (FDA), Europa (EMA), Japão (PMDA) e China (MMPA). “Se for essencial e estiver registrado em uma dessas quatro agências, os Estados poderão ter autorização excepcional e temporária sem registro na Anvisa”, diz Dourado.

As vacinas compradas pelo Ministério da Saúde devem ser entregues para todas as regiões do País de forma igualitária?

É importante que haja um programa nacional integrado, opina Walter Cintra. “Uma competição entre os entes federativos para buscar a vacina para a população é o pior do mundos. O Ministério da Saúde deve assumir a coordenação do programa de vacinação”, afirma. Daniel Dourado explica que a decisão não é unicamente do Ministério da Saúde. “A partir dos princípios do SUS, o Ministério da Saúde deve buscar a equidade e isso precisa ser pactuado com gestores municipais e estaduais da saúde”, explica.

Por que essa corrida pelas vacinas? O Brasil está atrás de outros países?

Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, o Brasil está numa posição intermediária, atrás de alguns países e na frente de outros na corrida pelas vacinas. A Inglaterra, que já está vacinando a população, está na nossa frente, obviamente. Os Estados Unidos estão na nossa frente. Por outro lado, o Brasil está numa posição de destaque em testagem e desenvolvimento das vacinas. O Brasil só está atrapalhado em relação a decidir logo quantas doses de cada vacina para começar a distribuição”, opina.

Como foi possível criar uma vacina tão rapidamente?

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o conhecimento acumulado em outras experiências foi importante. “Foram utilizadas tecnologias já disponíveis e que só precisaram ser adaptadas a esse vírus em suas diversas plataformas (DNA, RNA mensageiro, vetores virais e vírus atenuado)”, diz Brandão.

O médico Gonzalo Vecina também não se surpreende com a velocidade das pesquisas. “Em 2003, tivemos um evento quase epidêmico com um vírus da família do coronavírus. Já tinha gente trabalhando numa vacina. Em 2012, tivemos o evento do Mers, que também é da família do coronavírus. As pesquisas para a vacina não começaram há um ano. O que tivemos a partir do início dessa pandemia foi uma grande pressão, muito dinheiro e o envolvimento dos grandes laboratórios envolvidos nisso. Todas as multinacionais estão envolvidos nisso. Não surpreende e não é inédito”, diz o especialista.

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Vacina contra a covid-19: como está a vacinação em outros países?

Vacinação já começou na Rússia e no Reino Unido; vários países planejam aplicar doses ainda em 2020

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 16h23
Atualizado 14 de dezembro de 2020 | 08h50

Mais de 10 bilhões de vacinas contra a covid-19 já foram compradas antecipadamente por dezenas de países, segundo levantamento da empresa de pesquisas Airfinity. Desenvolvedores que alcançaram a fase 3 de produção estimam que terão doses suficientes para imunizar um terço da população mundial até o fim de 2021.   

As três principais fabricantes com maior alcance global — AstraZeneca, Pfizer e Moderna — planejam ter capacidade total de produção de 5,3 bilhões de doses até 2021 e imunizar entre 2,6 bilhões e 3,1 bilhões de pessoas, de acordo com a revista Nature.

Os países mais ricos têm vantagem na corrida pela vacina, enquanto os outros depositam a esperança na Covax, uma iniciativa internacional liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para distribuir a vacina por todo o planeta.

A imunologista e pesquisadora da University College London, Ariane Cruz, vê duas principais dificuldades para as campanhas de vacinação: a logística e a aderência à vacinação. "Os desafios vão depender dos requerimentos específicos de cada tipo de vacina quanto à logística de cadeia fria para armazenamento e distribuição, e às infraestruturas existentes de outros programas de imunização em cada país". 

Segundo Cruz, o Brasil é referência mundial em programas de imunização em larga escala e possui um sistema público de saúde, o SUS, que tem possibilidades de chegar a cantos remotos de um país com território continental. 

A possível resistência por parte da população para tomar a vacina também chama a atenção da pesquisadora. "Vejo com grande preocupação a usurpação desse assunto tão sério para a saúde e economia em palanques eleitoreiros", afirma. "Seria importante uma ação a nível nacional visando informar e educar a população quanto ao processo de desenvolvimento das vacinas a fim de aumentar a confiança e adesão da população."

Confira a situação das vacinas pelo planeta:

Estados Unidos

País mais afetado pela pandemia com 288 mil mortes e mais de 15,3 milhões de contaminados, os Estados Unidos aguardam a aprovação da vacina da Pfizer e da BioNTech pela Agência de Alimentação e Medicamentos (FDA, em inglês). As primeiras doses devem ser despachadas logo depois da aprovação, que pode sair ainda esta semana.

O governo pretende distribuir 3 milhões de doses em todo o país 48 horas após a aprovação de emergência. O presidente eleito, Joe Biden, prometeu aplicar 100 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 nos 100 primeiros dias de governo. Biden assume em 20 de janeiro.

A Pfizer deve entregar exatamente 100 milhões de doses aos EUA nos próximos meses, número suficiente para vacinar 50 milhões de americanos. O país tem 328 milhões de habitantes. 

Rússia

A Rússia foi o primeiro país ocidental a aprovar uma vacina, em agosto. A Sputnik V, que tem 95% de eficácia, segundo os desenvolvedores, começou a ser distribuída no dia 5 de dezembro a profissionais de saúde, idosos e professores

Especialistas de saúde, por outro lado, ainda se mantêm céticos sobre o nível de sua eficácia. O ministro de saúde da Turquia, Fahrettin Koca, afirmou que o país não comprará a vacina russa por “faltar com boas práticas laboratoriais”. O governo russo planeja vacinar 2 milhões de pessoas ainda em dezembro.

Reino Unido

O Reino Unido começou a campanha de vacinação em 8 de dezembro após aprovar a vacina da Pfizer. Cerca de 400 mil idosos e profissionais de saúde fazem parte da campanha inicial. Idosos em casas de repouso e funcionários são prioridade.

Depois, maiores de 80 anos e as equipes de saúde. A segunda fase terá como alvo os mais vulneráveis, incluindo professores e trabalhadores de transporte. Depois virá o restante da população. O país comprou 40 milhões de doses da Pfizer e espera que 4 milhões delas cheguem até o fim do ano.

França

A França comprou 200 milhões de doses de diferentes vacinas e acredita poder vacinar até 100 milhões de pessoas - quase duas vezes o total de 66 milhões de franceses. O desafio é convencer a população a ser imunizada, já que a vacina não será obrigatória. Uma pesquisa do Ipsos mostra que apenas 59% dos habitantes estão dispostos a ser vacinados - número inferior ao dos Estados Unidos, de 67%.

A imunização será feita em cinco fases. Na primeira, serão vacinados 650 mil idosos em casas de repouso. Na segunda, pessoas com mais de 75 anos e mais de 65 anos com comorbidades. Na terceira, indivíduos com mais de 50 anos e abaixo dessa faixa com comorbidades. Na quarta, pessoas com alto risco de contaminação, que tiveram contato com pessoas infectadas. Na última, todos os maiores de 18 anos. 

Alemanha

Os primeiros a tomar a vacina serão idosos, profissionais de saúde, funcionários de casas de repouso e forças de segurança. A Alemanha garantiu 300 milhões de doses pela Comissão Europeia, contratos bilaterais e outras opções, segundo o ministro da saúde Jens Spahn. O governo do país mais populoso da Europa, com 83 milhões de pessoas, acredita que só em 2022 concluirá a vacinação de todos. 

Canadá

O país aprovou a vacina da Pfizer nesta quarta-feira, 9, e deve iniciar a campanha de vacinação já na próxima semana. O primeiro-ministro Justin Trudeau afirmou que o país receberá 249 mil doses até o fim deste ano.

O Canadá comprou 20 milhões de doses da Pfizer, com opção para compra de mais 56 milhões de unidades, suficientes para imunizar 38 milhões de pessoas - pouco mais do total de 37 milhões de habitantes do país.

México

Logo após o Reino Unido autorizar a aplicação da vacina da Pfizer, o México comprou 34,4 milhões de doses da empresa. De acordo com o governo, 250 mil unidades devem chegar ao país no dia 17 de dezembro. Espera-se que a vacina da Pfizer seja aprovada no dia 11 de dezembro.

Profissionais da área de saúde do México serão o primeiro grupo prioritário a receber a vacina contra covid-19. O presidente Andrés Manuel López Obrador afirmou a intenção de começar a campanha de vacinação já em dezembro para profissionais de saúde e começar a vacinar idosos acima de 60 anos em fevereiro.

No México, a vacina chinesa da CanSino está na fase 3 de testagem. O país deve assinar um acordo para ter 35 milhões de doses da vacina da CanSino. Outras três empresas aguardam parecer da agência regulatória para iniciar testes no país de 130 milhões de pessoas. 

Japão

O Japão tem acordo com Pfizer, AstraZeneca-Oxford e Moderna para obter 290 milhões de doses para 145 milhões de pessoas e já prepara a cadeia de resfriamento para receber o conteúdo.

O Ministério da Saúde japonês anunciou nesta quinta-feira, 10, que o país comprará 10.500 resfriadores para armazenar as vacinas que precisam ser contidas em unidades a temperaturas de -20ºC (Moderna) e -70ºC (Pfizer).

Coreia do Sul

A Coreia do Sul comprou 64 milhões de doses de quatro companhias farmacêuticas (AstraZeneca-Oxford, Pfizer, Johnson & Johnson e Moderna) para inocular o imunizante contra o novo coronavírus em 34 milhões de pessoas. Mais 10 milhões de doses virão do plano de vacinação da OMS, a Covax.  

As vacinas, suficientes para imunizar 88% da população, devem ser enviadas já em fevereiro. País deve começar a campanha de vacinação geral no segundo semestre do próximo ano. 

China

A China aposta na produção de mais de uma vacina em seus laboratórios. O país hoje tem quatro vacinas diferentes já na última fase de testes - antes de poder ser distribuída ao público. Uma das principais na corrida, a da Sinovac, tem 86% de eficácia, segundo os Emirados Árabes Unidos, um dos compradores da imunização. A Coronavac, distribuída em São Paulo, deve ter os últimos resultados publicados pelo Instituto Butantã na próxima semana.

O país ainda não definiu quando deve começar a iniciar a campanha de vacinação, mas mais de 1 milhão de profissionais de saúde receberam vacinas experimentais. Oficiais de saúde chineses afirmam que o país deve produzir 610 milhões de doses até o fim deste ano e 1 bilhão em 2021. 

Nações ricas x nações pobres

Nesta quinta, uma aliança da Anistia Internacional, da Frontline AIDS, da Global Justice Now e da Oxfam fez um alerta de que as nações ricas terão vantagem na garantia de uma vacina contra o coronavírus em comparação com os países em desenvolvimento. Em cerca de 70 países em desenvolvimento, espera-se que apenas 1 em cada 10 residentes receba a vacina covid-19 no próximo ano, de acordo com a People’s Vaccine Alliance. 

“O acúmulo de vacinas mina os esforços globais para garantir que todos, em todos os lugares, possam ser protegidos da covid-19”, disse Steve Cockburn, chefe de justiça econômica e social da Anistia Internacional. “Os países ricos têm obrigações claras de direitos humanos não apenas de se abster de ações que possam prejudicar o acesso às vacinas em outros lugares, mas também de cooperar e fornecer assistência aos países que dela precisam.” / Levy Teles com informações de agências internacionais 

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