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Universidade do Ceará busca testes de vacina contra covid; Anvisa diz que pedido não foi feito

Imunizante desenvolvido na Universidade Estadual do Ceará (Uece) foi testado na etapa pré-clínica em camundongos com resultados promissores; pesquisadores buscam agora a possibilidade de estudos clínicos em seres humanos

Victoria Netto, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 10h00
Atualizado 14 de maio de 2021 | 11h26

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) submeteu à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) documentos para iniciar a solicitação que pode autorizar testes em humanos de uma candidata à vacina contra a covid-19. Ao Estadão, a Anvisa afirmou, em nota, que as tratativas se referem a etapas que antecedem a solicitação e que, por isso, o pedido formal ainda não foi feito. 

“A Anvisa esclareceu e orientou os investigadores sobre os requisitos necessários e as normas regulatórias para instrução do Dossiê de Desenvolvimento Clínico de Medicamento (DDCM) a ser submetido para análise da agência tão logo o processo esteja instruído”, diz o texto. A pesquisa da Uece, desenvolvida no Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular (LBBM) desde abril de 2020, já foi testada na etapa pré-clínica com camundongos e obteve resultados com até 95% de proteção. Uma das diferenças em relação a outros produtos contra o coronavírus é a possibilidade de uso intranasal. 

A Anvisa já analisa outros dois pedidos de testes de imunizantes cujo desenvolvimento e fabricação serão feitos no Brasil. Um deles é a Butanvac, pesquisa do Instituto Butantan. Embora o governo paulista tenha anunciado o produto como "100% nacional", mais tarde admitiu que a tecnologia foi desenvolvida originalmente nos Estados Unidos. Outro projeto cuja liberação para testes em humanos depende da Anvisa é a Versamune, desenvolvida pela Faculdade de Medicina da USP. 

Pesquisa em camundongos

Batizada de 2H120-Defense, a vacina cearense utiliza um coronavírus aviário (IBV) enfraquecido da mesma família do SARS-CoV-2, que causa a covid-19, mas que pertence a outro grupo. De acordo com os pesquisadores, essa variação do coronavírus não causa infecção em humanos e já era usada há décadas na imunização de aves. 

Diante do histórico aviário bem-sucedido, o pesquisador Ney de Carvalho Almeida, médico veterinário à frente do estudo, propôs testar o mesmo imunizante em mamíferos. O objetivo era analisar como os animais responderiam imunologicamente com diferentes dosagens da vacina quando expostos ao SARS-CoV-2. Para as análises, a equipe utilizou 60 camundongos divididos em grupos conforme a concentração do imunizante e a via de administração: subcutânea, oral, intranasal e controle. 

Os testes em cada grupo de roedores durava 45 dias - no dia zero, ocorria a primeira imuização e coleta de sangue para análise. No 15º dia, os pesquisadores administravam a dose de reforço e faziam nova coleta sangínea. Após esse período, seguiam monitorando periodicamente para aviliar as respostas imunológicas. Os testes começaram com baixa dosagem em uma amostra específica do total de animais. Dois meses depois, a concentração do imunizante foi aumentada em dez vezes em uma amostra diferente para novas análises.

O resultado inicial foi promissor. “A regra de ouro, isto é, a neutralização do SARS-CoV-2 verificada nos camundongos, foi superior a 82%, chegando a 95% conforme a dosagem do vírus utilizada no imunizante. Esperamos que os resultados em humanos sejam equivalentes ao que foi testado em camundongos”, diz Almeida, que desenvolveu a pesquisa em sua tese de doutorado ao lado da professora Izabel Florindo, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (Renorbio/Uece) e do professor Maurício van Tilburg.

Segundo Almeida, a escolha de um imunizante de 1ª geração - que usa o vírus atenuado ou inativado - se deu por questões logísticas e por experiências anteriores. “Como veterinário, eu já tinha conhecimento do vírus em aves, eu sabia como ele agia. A literatura científica aponta que trabalhar com o vírus morto não é tão eficaz, por isso pegamos o coronavírus aviário enfraquecido e expusemos ele ao SARS-CoV-2 em camundongos”, diz.

Para o infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), Renato Kfouri, o estudo de modelo animal cumpre com os critérios de prova de conceito, isto é, validação de uma hipótese, mas ainda está longe de qualquer evidência de funcionamento em humanos. “É uma vacina incipiente. Pode induzir proteção em camundongos e não induzir em humanos, produzir resposta imune, mas não proteger de doença clínica”, diz. 

De acordo com Kfouri, há mais de 300 vacinas sendo investigadas para diferentes doenças no Brasil, mas apenas um terço delas chega em estudos em humanos, 20% chegam na Fase 3 e 20% acabam licenciadas. “A grande maioria fica pelo caminho”, afirma.

Para que a solicitação de testes em humanos seja efetivamente encaminhada junto à Anvisa, falta pelo menos mais uma fase pré-clínica: o Desafio em Animais, isto é, quando os roedores são infectados para verificar se sobrevivem à doença. A equipe do Ceará afirmou que ainda vai realizar esse experimento em hamsters para novas análises.

Baixo custo e financiamento

Se os testes em humanos iniciarem e todas as etapas dos estudos clínicos forem bem-sucedidas, a vacina cearense pode ser a de menor custo do mercado. Como os resultados da administração por via subcutânea e intramuscular foram equivalentes ao uso intranasal, a equipe planeja seguir a pesquisa na modalidade mais acessível.

“Em gotinhas no nariz é mais fácil. Sigo o mesmo protocolo feito nas aves, primeira dose, dose de reforço após 15 dias e reforço a cada seis ou oito meses”, explica o pesquisador.  Para Almeida, a possibilidade de administração pelas narinas pode facilitar a disponibilização do imunizante nos postos de saúde, caso haja a aprovação do uso após a conclusão de todas as fases da pesquisa. 

Segundo os pesquisadores, com R$ 11 é possível comprar 250 doses e imunizar 125 pessoas, considerando duas doses. Assim, cada dose custaria cerca de R$ 0,44, sem outros custos contabilizados, como embalagem, transporte e armazenamento. No Brasil, a vacina mais barata aplicada hoje é a Coronavac, produzida pelo Butantan, cujo custo é de R$ 16 por dose.

Na fase pré-clínica com camundongos, o estudo foi financiado com recursos do próprio laboratório da Uece. Diante dos resultados, o governo do estado do Ceará já assinou um termo de compromisso para financiar as próximas etapas da pesquisa, caso haja aprovação da Anvisa. Segundo os pesquisadores, o estudo demanda no mínimo investimento governamental.

"A universidade faz o básico, mas eu não sei se o orçamento da universidade seria capaz de cobrir esses custos atualmente", diz Almeida, que estima um investimento de até R$ 20 milhões para as fases clínicas. Se autorizada, a equipe seguirá em busca de outras fontes de financiamento, tanto em parcerias privadas, quanto no governo federal. 

Em setembro de 2020, a Uece já havia iniciado o processo de pedido de patente para a vacina em desenvolvimento. A solicitação ganhou caráter prioritário por se tratar de um imunizante contra a covid-19, mas ainda está tramitando. 

Etapas clínicas da vacina

Qualquer vacina tem uma lógica básica: ela treina o sistema imune ao apresentar a ele algo inócuo - pedaço do vírus, vírus inativado ou vetor - capaz de desencadear uma reação de defesa eficaz. 

O sistema imune produz uma resposta para enfrentar o vírus, processo que gera uma memória imunológica. Assim, quando o corpo encontra, de fato, o vírus, ele tem uma resposta imune mais ágil e eficaz para combatê-lo. 

Os estudos clínicos de vacinas são feitos em quatro fases. Confira, a seguir, o que é avaliado em cada uma delas:

  • Fase 1: Esta etapa, aplicada em um número de 20 a 100 adultos saudáveis, busca constatar efeitos adversos sérios. Os voluntários devem ter entre 18 e 60 anos.
  • Fase 2: Aqui, o estudo clínico é ampliado para um número entre 100-1.000 voluntários. São observados efeitos adversos a curto prazo, resposta do sistema imune e dose de imunização mais eficaz.
  • Fase 3: Milhares de voluntários (30 mil, 60 mil), abrangendo diferentes regiões do País. É realizada comparação entre grupo imunizado e grupo controle (duplo cego). São averiguados sintomas adversos mais frequentes, segurança e eficácia.
  • Fase 4: Após a aprovação da Anvisa e da vacinação em massa com o imunizante, há monitoramento da produção, sistema de notificação de eventos adversos e avaliação da segurança real e efetividade da vacina.

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