Amanda Perobelli/Reuters
Anvisa liberou neste domingo uso emergencial das vacinas Coronavac e da Astrazeneca. Amanda Perobelli/Reuters

Guia da vacina: o que você precisa saber sobre a campanha de imunização contra a covid-19

Cada Estado define seu próprio cronograma e agendamento da vacinação; máscara e distanciamento social continuam sendo necessários mesmo para quem já foi vacinado

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 21h56
Atualizado 25 de junho de 2021 | 15h59

A campanha de vacinação nacional contra a covid-19 começou no dia 18 de janeiro. O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 lista 29 grupos prioritários para a imunização. A maior parte das pessoas com prioridade na vacinação já foi vacinada. Veja aqui o calendário de vacinação em 20 cidades brasileiroas.

Três das vacinas disponíveis no Brasil precisam de duas doses para ter o efeito esperado: a da Pfizer, a da AstraZeneca/Universidade de Oxford e a Coronavac. No caso da Coronavac, o intervalo recomendado entre as doses é de três a quatro semanas; para a de Oxford/AstraZeneca e a da Pfizer o intervalo é de 12 semanas. A vacina da Janssen, que chegou ao País em junho, é de dose única. 

Também há acordos para adquirir os imunizantes Sputnik V, Fundo Russo de Investimentos, e Covaxin, da indiana Bharat Biotec. Estas não foram oficialmente compradas porque ainda não foram aprovadas pela Anvisa.

As vacinas Coronavac, de Oxford/AstraZeneca e da Janssen só poderão ser aplicadas em pessoas maiores de 18 anos. O imunizante da Pfizer já foi autorizada para pessoas acima de 12 anos, mas ainda não há previsão para a vacinação de menores de idade no Brasil. Testes clínicos em crianças e adolescentes estão em andamento em vários países.

Abaixo, perguntas e respostas sobre o assunto:

Quando começou a vacinação no Brasil?

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, autorizou o início do Plano Nacional de Imunização em 18 de janeiro. Um dia antes, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez um evento que deu o pontapé inicial para a campanha e começou a aplicação de doses em profissionais de saúde na capital paulista.

Entre os dias 18 e 19 de janeiro, após alguns atrasos, todos os Estados iniciaram a vacinação. A campanha avança para os demais grupos prioritários conforme as doses vão sendo distribuídas pelo País. Os locais de vacinação são divulgados pelos municípios.

Quem pode se vacinar? Já posso ir ao postinho?

Os municípios estão vacinando a população que está contemplada nos grupos prioritários do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 (PNO). Paralelamente, a população em geral está sendo vacinada por ordem decrescente de idade. A vacina ainda não está disponível amplamente, então só se dirija a um local de vacinação se a prefeitura da sua cidade informar que chegou a sua vez de ser vacinado.

Quais são os grupos prioritários?

Os primeiros a receber as vacinas foram os profissionais de saúde da linha de frente do combate à covid-19, idosos com mais de 60 anos que vivem em instituições de longa permanência, pessoas a partir de 18 anos de idade com deficiência que vivem em residências inclusivas e indígenas que vivem em terras indígenas. Quilombolas foram tirados do topo da lista pelo ministério, mas o governo de São Paulo decidiu que eles também serão vacinados em São Paulo. As pessoas desses grupos receberam a imunização nos locais onde vivem/trabalham, sob a coordenação de cada município.

Veja a lista completa dos grupos prioritários elencados pelo Ministério da Saúde: 

  • Pessoas com 60 anos ou mais institucionalizadas
  • Pessoas com Deficiência Institucionalizadas
  • Povos indígenas vivendo em terras indígenas
  • Trabalhadores da Saúde
  • População idosa
  • Povos e comunidades tradicionais ribeirinhas e quilombolas
  • Pessoas com comorbidades
  • Pessoas com deficiência permanente
  • Pessoas em situação de rua
  • População privada de liberdade
  • Funcionários do sistema de privação de liberdade.
  • Trabalhadores da educação
  • Forças de Segurança e Salvamento
  • Forças Armadas
  • Trabalhadores de Transporte Coletivo Rodoviário de Passageiros Urbano e de Longo Curso
  • Trabalhadores de Transporte Metroviário e Ferroviário
  • Trabalhadores de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos
  • Trabalhadores de Transporte Aéreo
  • Trabalhadores de Transporte Aquaviário
  • Caminhoneiros
  • Trabalhadores Portuários
  • Trabalhadores Industriais e da Construção Civil

Além destes grupos, o governo federal incluiu as gestantes e puérperas na lista de prioridades. Alguns Estados estão vacinando também as lactantes. 

Todos os profissionais de saúde serão vacinados?

Ao longo da campanha de vacinação, sim. No primeiro momento foram vacinados os que estão na linha de frente do combate à pandemia, as equipes que estiveram inicialmente envolvidas na vacinação e os trabalhadores das instituições de longa permanência de idosos e de residências inclusivas. 

O critério para definir os grupos prioritários foi o grau de exposição à infecção e de maiores riscos para agravamento e óbito pela doença. Equipes de apoio dos estabelecimentos de saúde — como pessoal da limpeza, recepcionistas, seguranças e maqueiros — também devem ser vacinados.

Cada cidade está montando um cronograma específico para vacinar os profissionais de saúde. Em alguns municípios, todos os profissionais maiores de 18 anos que estejam atuando na área puderam receber a vacina. Em outros, as doses só estão disponíveis para quem está exposto à covid-19.

Quais trabalhadores estão incluídos nessa categoria?

Nesse grupo dos trabalhadores da saúde estão incluídos, além de médicos e enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, biólogos, biomédicos, farmacêuticos, odontólogos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, profissionais da educação física, médicos veterinários e seus respectivos técnicos e auxiliares. Assim como os trabalhadores de apoio, como recepcionistas, seguranças, pessoal da limpeza, cozinheiros e auxiliares, motoristas de ambulâncias e outros que trabalham nos serviços de saúde, mas que não estão prestando serviços direto de assistência à saúde das pessoas.

Estudantes dessas áreas também serão vacinados nesta primeira etapa?

De acordo com Ministério da Saúde, a vacina será ofertada para acadêmicos em saúde e estudantes da área técnica em saúde que estejam em estágio hospitalar, de atenção básica e clínica, assim como aos profissionais que atuam em cuidados domiciliares como os cuidadores de idosos e doulas/parteiras, bem como funcionários do sistema funerário que tenham contato com cadáveres potencialmente contaminados.

O governo de São Paulo criou um pré-cadastro para a vacinação. Devo preenchê-lo?

O Estado recomenda que as pessoas preencham o pré-cadastro no site Vacina Já para agilizar o atendimento nos locais de vacinação e evitar aglomerações. A ferramenta está disponível para toda a população. Os profissionais da educação têm um local específico para se cadastrar e devem preencher o cargo ocupado, a escola em que trabalha e enviar holerites recentes. Quem não fizer o pré-cadastro também poderá se vacinar, mas terá de fazer o cadastro completo no local de vacinação.

Quais serão os locais de vacinação?

Cada Estado definirá os postos de vacinação. Na capital paulista, a vacinação acontece nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos serviços de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) integrados com UBS, em postos drive-thru, em Serviços de Atenção Especializada e em centros-escolas. Veja aqui a lista completa dos locais de vacinação na cidade de São Paulo.

Quais vacinas serão aplicadas no Brasil?

Estão disponíveis quatro vacinas. A Coronavac foi a primeira a chegar e é produzida pelo Instituto Butantan. A vacina Covishield, criada pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca, chegou em seguida e está sendo fabricada pela Fiocruz. A Cominarty, da Pfizer, foi a terceira a desembarcar no Brasil e é fabricada no exterior. Em junho, o País recebeu doses da vacina da Janssen, que também é produzida fora do Brasil.

A Coronavac, Covishield e Cominarty precisam de duas doses para ter o efeito esperado. No caso da Coronavac, o intervalo recomendado entre as doses é de três a quatro semanas. Para a Covishield e Cominarty, o intervalo é de 12 semanas. A vacina da Janssen é de dose única.

Até o momento, as vacinas da Pfizer e a de Oxford/AstraZeneca foram registradas de forma definitiva pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Coronavac e a vacina da Janssen têm autorização emergencial da agência.

A Anvisa negou os pedidos de certificação das fábricas do laboratório indiano Bharat Biotech, que produz a vacina Covaxin. Este aval é exigido para liberar o uso emergencial ou o registro do produto no Brasil. O Ministério da Saúde possui acordos para adquirir 20 milhões de doses do imunizante, mas a compra só será fechada se a vacina for aprovada pela agência.

O governo federal estaria ainda tentando destravar a autorização da vacina russa Sputnik pela Anvisa.

A vacina será gratuita?

Sim. Inicialmente, a vacina será aplicada apenas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de forma gratuita a toda população.

Há previsão de que se possa comprar a vacina em clínicas particulares?

Ainda não há previsão de compra das vacinas aprovadas pelas clínicas particulares. A autorização da Anvisa para uso emergencial é restrita para a rede pública de saúde.

Como funciona a vacina da Janssen?

O imunizante da Janssen (Johnson&Johnson) é o único aprovado no Brasil que precisa de apenas uma dose para fazer o efeito esperado. A vacina foi aprovada pela Anvisa em 31 de março de 2021 e outros órgãos regulatórios reconhecidos, como a Food and Drug Administration (FDA, dos Estados Unidos), e a European Medicines Agency (EMA, da União Europeia) já tinham dado aval ao produto.

O Brasil comprou 38 milhões de doses da vacina que devem ser entregues até o fim do ano. A primeira remessa chegou em junho. A princípio, as doses serão distribuídas para todas as cidades do Brasil. "É um imunizante de uma dose apenas e isso permite vacinar o dobro de pessoas em relação às outras vacinas. Com ela a cobertura vacinal pode aumentar muito e outro dado importante é que pode ser conservada entre 2°C e 8°C, o que ajuda bastante na logística", diz Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações.

Para Kfouri, a vacina tem boa eficácia, mas não foi tão bem em estudos na África do Sul, provavelmente por causa da variante do coronavírus que estava circulando por lá. A vacina contra a covid-19 da Janssen registrou eficácia global de 66%, e se mostrou eficaz em 85% para casos graves. 

Por que a vacinação é importante e todos devem se vacinar?

Quanto maior o número de pessoas vacinadas, mais rápido terminará a pandemia. Isso porque diminuirá a circulação do vírus e maior parte da população fica protegida. De acordo com a rede Todos pelas Vacinas, "para uma vacina ser eficaz no indivíduo e na comunidade, ela deve cobrir uma porção determinada da população. Essa quantidade de pessoas depende do tipo de vacina e do patógeno. Uma cobertura vacinal alta previne pessoas vulneráveis a infecções, como pacientes com o sistema imunológico debilitado, recém-nascidos e idosos." Esse fenômeno de proteção indireta é o que ficou conhecido como "imunidade de rebanho". 

As vacinas são seguras?

Sim. Todas as vacinas aprovadas no Brasil contra o coronavírus passaram pelos testes de segurança e foram reconhecidas como seguras pela Anvisa. Os eventos adversos em geral apresentados já em bula são leves. Os mais comuns são dores no local da aplicação e às vezes febre baixa, além de fadiga e dor de cabeça. "Mesmo que existam casos relatados com evolução para alguma gravidade, a chance disso ocorrer é pequena e o risco é totalmente compensado pelos benefícios obtidos com a vacina", explica a rede Todos pelas Vacinas. O grupo também frisa: vacinas não alteram DNA. Isso é impossível. "A gente pode ficar muito tranquilo. Nenhuma vacina vai fazer mal para ninguém, não vai transformar em jacaré. E o benefício que elas trazem para a sociedade supera absurdamente esses riscos mínimos", disse a microbiologista Natália Pasternak, da USP  e do Instituto Questão de Ciência em live no Estadão.

Contrair a covid-19 dá uma proteção melhor do que tomar a vacina?

Não. A imunidade que o nosso corpo desenvolve após contrair a doença ainda não está clara e pode durar pouco tempo, como sugerem os casos de reinfecção que vêm sendo relatados. Além disso, o risco de morrer ao contrair a covid-19 é de cerca de 1% – taxa que aumenta consideravelmente com a idade e com a ocorrência de comorbidades (como diabetes, hipertensão e obesidade). E mesmo quem se recupera da doença pode apresentar ainda por vários meses sintomas, como fadiga, além de outras sequelas mais graves. Então não vale a pena. Melhor tomar a vacina.  

Mesmo vacinado, eu ainda posso ter covid?

A chance com a vacina diminui, mas não 100%. O que os testes indicam, porém, é que mesmo se uma pessoa vacinada contrair a doença, os sintomas podem ser de leves a moderados, mas a chance de precisar de hospitalização diminui muito.

Há um risco da vacina para pessoas mais velhas e doentes?

Os testes tanto com a vacina de Oxford quanto com a Coronavas tiveram poucos participantes idosos e ainda não foi possível concluir quanto elas são eficazes para eles, mas a segurança em geral foi similar.

No dia 28 de janeiro, a Alemanha havia decidido que não aplicaria a vacina de Oxford em idosos. A determinação era em razão da falta de dados mais detalhados sobre os efeitos do imunizante em todas as faixas etárias. No entanto, no dia 4 de março, o país voltou atrás e permitiu a aplicação do imunizante em pessoas acima de 65 anos.

Para Ann Costa Clemens, coordenadora de ensaios clínicos da vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil, a aplicação é segura em todas as idades, mas o estudo ainda não teve tempo de incluir, em seis meses, o grupo de idosos - o retorno seria mais demorado porque pessoas mais velhas tendem a se proteger mais, apresentando menos casos de infecção. 

Hábitos saudáveis podem proteger contra a covid-19 e substituir a vacina?

Não. A rede Todos pelas Vacinas explica: "Qualquer imunização é a provocação de uma resposta imune adaptativa (anticorpos e linfócitos de memória) através da inoculação de antígenos. Uma pessoa só está imune a uma doença se produzir anticorpos e linfócitos de memória. Hábitos saudáveis podem auxiliar na resposta imune eficaz, mas não imunizar".

Quanto tempo após tomar a vacina a pessoa pode se considerar imunizada?

A imunidade depende de cada vacina. Um imunizante geralmente demora de duas a três semanas para fazer efeito. As vacinas Coronavac, de Oxford/AstraZeneca e da Pfizer precisam de duas doses para atingir a eficácia total. No caso da Coronavac, as vacinas devem ser aplicadas com intervalo de 28 dias. Já as vacinas de Oxford e da Pfizer podem ter espaço de 21 dias a 3 meses entre as aplicações. A vacina da Janssen é de dose única.

Quantas pessoas precisam ser vacinadas para se alcançar a chamada 'imunidade de rebanho'?

O epidemiologista Pedro Hallal, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), diz que é preciso imunizar 70% da população para alcançar a imunidade de rebanho. O cálculo é feito com base no histórico de epidemias e campanhas de vacinação já realizadas no mundo. Com o ritmo atual da campanha, essa porcentagem deve ser alcançada no final de 2021.

Se a imunidade de rebanho deve demorar ainda a chegar, quais são os resultados mais imediatos na pandemia que podemos esperar com a vacinação?

Para a microbiologista Natália Pasternak, da USP, quando o número de doses disponíveis for grande o bastante para realmente conseguir atingir os grupos de risco, o primeiro impacto que pode ser sentido é a queda de hospitalização e de mortes.

À medida que a imunização ocorra, as medidas de isolamento podem ser relaxadas?

Não. Os próprios técnicos da Anvisa ressaltaram na reunião pública em que aprovaram o uso emergencial das vacinas Coronavac e AstraZeneca/Oxford que o País ainda está longe de vislumbrar um cenário em que as medidas de restrição impostas com base na ciência deixem de ser necessárias. Por isso, ainda é fundamental manter o isolamento sempre que possível, o distanciamento e usar máscara e álcool em gel.

Depois que eu for vacinado, posso abraçar as pessoas normalmente?

Não. Os cuidados de distanciamento social continuam até que se alcance a imunidade de rebanho, ou seja, em que cerca de 60% a 70% da população esteja imunizada. Como as vacinas não têm 100% de eficácia, ainda existe a chance de se infectar, então é preciso continuar se precavendo.

O que são esses insumos, o tal IFA? 

O chamado Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) é o cerne das vacinas, o insumo principal de todo medicamento, é  substância confere a atividade farmacológica à vacina ou a qualquer outro medicamento. No caso da Coronavac, é o próprio vírus inativado. No caso de Oxford, é um adenovírus modificado geneticamente para carregar com uma sequência genética do Sars-CoV-2. São eles que vão "enganar" o nosso corpo para produzir os anticorpos, que vão reagir se e quando o corpo for realmente contaminado. Os outros componentes presentes na vacina são chamados excipientes e, apesar de não serem responsáveis pela atividade farmacológica, são importantes para seu perfeito funcionamento até o final do prazo de validade.

Quem são os principais fornecedores da matéria-prima?

O Brasil depende da China e da Índia, especialmente, na fabricação de insumos. No Brasil, não há uma política governamental para incentivar a produção dos insumos farmacêuticos ativos. A fábrica que daria autonomia para o Brasil na produção da Coronavac só deve ficar pronta em outubro.

Quais acordos para a importação?

Os insumos devem ser enviados dentro do que foi acordado entre os governos e o Butantan e a Fiocruz. Os dois institutos têm tecnologia para transformar esse insumo em vacinas, mas sem a substância não poderão fazer nada.

Por que o Brasil já não faz o insumo? 

No caso das vacinas do Butantan e da Fiocruz, os IFAs são o vírus inativado e o adenovírus, respectivamente, que serão os responsáveis por gerar a resposta imunológica. A tecnologia de fabricação do IFA é das empresas estrangeiras e ainda não foi transferida para o Brasil. O Instituto Butantan prevê autonomia para produzir a vacina contra a covid - do começo ao fim - em outubro. O Brasil teria condições de produzir esses insumos, pois tem tecnologia e pesquisadores aptos para isso, mas é necessário investimento. As empresas estrangeiras investiram pesado para ter uma vacina tão rapidamente.

Qual a capacidade de produção da Coronavac no Brasil?

O Instituto Butantan tem capacidade para fabricar um milhão de doses por dia, de acordo com presidente do órgão, Dimas Covas. Mas, para isso, ainda depende de insumos feitos pelo laboratório chinês Sinovac, que precisam ser importados. A instituição estima que ainda demore dez meses para ter capacidade de produzir a vacina sem depender de insumos importados. O Butantan está construindo uma nova fábrica que seria capaz de produzir todos os insumos necessários para a fabricação de uma vacina 100% nacional: as obras foram iniciadas em novembro e devem ficar prontas até 3o de setembro.

A vacina de Oxford já está sendo produzida no Brasil?

Sim. A vacina está sendo produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), no Rio de Janeiro.

A taxa geral de eficácia da Coronavac se revelou de 50,38%. O que isso significa?

Essa taxa significa que a vacina reduz pela metade o risco de adoecer. Essa é a capacidade da vacina de evitar casos sintomáticos de um modo geral, independentemente da gravidade. Com ela, a pessoa vacinada tem 50,38% menos chance de desenvolver a doença.

Qual é a diferença desse número para o que foi anunciado anteriormente, de 78%?

Esse número foi obtido com um recorte do estudo, que considerou a ocorrência de casos leves de covid-19 que demandaram alguma intervenção médica. Foram 31 casos assim no grupo placebo e apenas 7 no que foi vacinado. Ou seja, mesmo entre quem acabou ficando doente, a vacina reduziu em 78% a chance de ter uma doença leve que precise de assistência médica. Essa sim seria uma gripezinha.

A vacina de Oxford tem eficácia melhor?

As duas vacinas têm eficácia suficiente para ajudar no combate à pandemia. Nos testes, a vacina de Oxford foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. Esses dois resultados permitiram estimar que a eficácia média da vacina é de 70%.

É possível tomar as duas doses de vacinas diferentes? É possível escolher qual tipo de vacina tomar?

O Plano Nacional de Imunização (PNI) prevê o uso de diferentes imunizantes, mas não a utilização da chamada intercambialidade de doses - quando uma pessoa recebe a primeira injeção de um imunizante e a segunda, de outro. Não será possível escolher qual vacina tomar. Elas estão sendo distribuídas por Estado e a distribuição está a cargo do PNI. 

Grávidas podem tomar a vacina?

Segundo os especialistas, vai depender do caso. "Não há estudos que indiquem efeito prejudicial da aplicação das vacinas contra a covid-19 em grávidas. Porém, fique de olho: também não há, ainda, estudos que comprovem sua segurança nesse grupo", aponta a rede Todos pelas Vacinas. Os estudos clínicos dos imunizantes aprovados para uso emergencial no Brasil não incluiu mulheres grávidas entre os voluntários. Caso pertença a algum grupo de risco – seja ela obesa, hipertensa ou diabética –, a mulher deve ser informada de que se trata de uma vacina nova, ainda não testada para o caso dela. Mas, mesmo assim, ser infectada pela covid-19 representa um risco maior que o de ser vacinada. A recomendação é de que as gestantes conversem com seus obstetras antes de tomar uma decisão. A Sociedade Brasileira de Infectologia chegou a fazer uma recomendação de que a Coronavac é segura para grávidas no terceiro trimestre. Mas isso não está em bula nem na recomendação do PNI.

Quem está com febre pode tomar a vacina? E quem está tomando antibiótico?

As pessoas com febre devem aguardar para receber a vacina. Quem está tomando antibiótico deve conversar com o seu médico antes.

Se uma pessoa infectada, mas sem saber, tomar a vacina, ela pode ter algum problema? Pode tomar? E quem já foi infectado?

Pode. E quem já foi infectado deve, sim, tomar a vacina. Porque a imunidade natural ao vírus não é constante na população e não é mensurável. Algumas pessoas que tiverem uma forma leve da doença às vezes nem produzem muitos anticorpos, enquanto gente que teve uma forma mais grave pode ter uma resposta mais robusta. Quando se dá a vacina para a população como um todo, essa resposta fica padronizada e é mais garantido que de fato todo mundo está imunizado.

A Coronavac pode ser tomada com outras vacinas?

O Ministério da Saúde recomendou um intervalo mínimo de 14 dias entre as vacinas covid-19 e as diferentes vacinas do Calendário Nacional de Vacinação, visto que não foram feitos estudos de administração simultânea das vacinas.

Quando a população em geral vai começar a ser vacinada?

O Ministério da Saúde lançou uma nota técnica em 28 de maio autorizando a vacinação da população em geral por faixa etária. A imunização está acontecendo em ordem decrescente de idade.

Crianças e adolescente também serão vacinados?

Por enquanto não. Ainda não há resultados de testes clínicos das vacinas em menores de 18 anos e o risco para essa faixa etária é considerado menor. A Universidade de Oxford iniciou os testes em crianças e adolescentes em 13 de fevereiro.

Se poucas pessoas forem vacinadas e o intervalo para voltar a vacinar for muito grande, essa imunidade pode se perder? Ou pode não servir pra nada?

A possibilidade cogitada pelo governo de João Doria (PSDB) de adiar a aplicação da segunda dose da vacina Coronavac em um intervalo superior a 28 dias é uma decisão tomada no escuro, segundo especialistas, já que não há dados que demonstrem o quanto uma única dose é capaz de gerar resposta imune.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que o intervalo continue sendo seguido, já que a aprovação do uso emergencial da Coronavac está baseada nos dados dos estudos apresentados - que falam sobre a aplicação da segunda dose em um período de duas a quatro semanas. "Não há resposta fácil. As vacinas foram testadas para um determinado regime de doses e alterar isso é sempre um risco, porque não há dados científicos para prever o que vai acontecer", explica Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC). 

A imunidade da vacina é duradoura?

Ainda não se sabe. Essa resposta só será obtida com o passar do tempo, depois que muitas pessoas estiverem vacinadas. Há o risco de que novas variantes do vírus possam acabar "driblando" a vacina e muitos especialistas estimam que com o tempo, seja necessário atualizar a vacina e reaplicá-la, como ocorre com as vacinas da gripe. 

Para as variantes que já surgiram do coronavírus, as vacinas disponíveis ainda são capazes de nos proteger?

Mutações em vírus são esperadas e ocorrem com mais rapidez quando o vírus está se replicando muito, como ocorre em uma situação de pandemia. "Até agora, as mutações que apareceram não tornam o vírus tão diferente a ponto de não ser mais reconhecido pela vacina. Mas tem de ficar de olho, porque se aparecer uma mutação muito diferente, vamos precisar adaptar as vacinas", afirma Natália Pasternak.

Um estudo mostrou que a cepa da África do Sul reduz em dois terços a eficácia a vacina da Pfizer. Como ainda não há um parâmetro de referência estabelecido para determinar o nível de anticorpos necessários para proteger contra o coronavírus, não está claro se essa redução tornará a vacina ineficaz contra a variante. Há outra pesquisa mostrando que a vacina é, sim, capaz de neutralizar a variante. A farmacêutica estuda uma terceira dose de reforço para proteger contra essa mutação.

Estudos preliminares sugerem que a vacina de Oxford/AstraZeneca é menos eficaz contra a variante sul-africana, o que fez o país interromper o uso do imunizante. Apesar disso, a OMS recomendou o uso da vacina mesmo para países que tenham a presença das novas variantes, mas sugeriu que cada nação faça sua própria análise de risco/benefício.

Mesmo representando um impacto positivo, a vacina da Johnson & Johnson teve eficácia menor, de 57%, para casos moderados e graves na África do Sul. Os testes foram realizados quando a variante sul-africana já estava em alta circulação. O imunizante da Novavax também apresentou eficácia mais baixa na África do Sul. Em um pequeno ensaio realizado no país, a eficácia da vacina foi de 49,4%.

As vacinas da Pfizer, de Oxford/AstraZeneca e da Novavax foram eficazes contra a variante encontrada no Reino Unido

Vacinas que usam o vírus inativado, como a Coronavac, têm a vantagem de, por usar o vírus inteiro, terem também mais alvos para a vacina, de modo que esse tipo de mutação não deve ser um problema. Mas, por enquanto, uma análise preliminar com dados de oito pessoas sugeriu que a variante de Manaus pode escapar dos anticorpos produzidos pela Coronavac, principal imunizante aplicado no Brasil.

Dados preliminares de um estudo feito pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca indicam que sua vacina induz resposta adequada contra a variante de Manaus.

Quais são as principais variantes encontradas no mundo?

O mundo vive em estado de alerta para três variantes. A cepa Alfa, detectada originalmente no Reino Unido, é 56% mais contagiosa e já foi identificada em mais de 70 países, incluindo o Brasil. A cepa apresenta grande número de mutações, oito delas ocorrendo na proteína da espícula viral (spike). "A spike é a proteína que o vírus usa para se ligar à célula humana e, portanto, alterações nela podem tornar o vírus mais infeccioso. Os cientistas ingleses acreditam que seja esta a base de sua maior transmissibilidade", explica o virologista da Dasa, José Eduardo Levi. 

A epidemiologista responsável pela resposta da OMS à pandemia de covid-19, Maria Van Kerkhove, afirmou no dia 27 de janeiro que a nova variante do coronavírus identificada no Reino Unido parece aumentar a mortalidade. O primeiro-ministro Boris Johnson já havia mencionado possível associação a um maior nível de letalidade. 

A variante Beta, identificada inicialmente na África do Sul, carrega uma mutação em comum com a Alfa, chamada de N501Y. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, estudos preliminares apontam que a variante tem carga viral maior e, por isso, maior transmissibilidade. Outros fatores devem influenciar a capacidade de transmissão e estão sendo estudados. Ainda não é possível afirmar que esta variante é mais letal que o primeiro vírus a entrar em circulação. 

A Gama, variante encontrada no Brasil - e já disseminada para outros países - tem mutações em comum com as variantes inglesa e sul-africana. Segundo Lucas Augusto Moyses Franco, pós-doutorando da Faculdade de Medicina da USP e colaborador do grupo Cadde, além de também carregar a N501Y, que provoca alterações na proteína spike do vírus, a nova linhagem "contém uma composição única de mutações definidoras de linhagem", como a presença das mutações E484K e K417N/T. A E484K.  gera preocupação por já ter sido associada em outros estudos a um potencial de escapar de anticorpos. Isso precisa ser melhor estudado, mas, segundo especialistas, é mais provável que esse escape favoreça reinfecções, mas não atrapalhe a ação das vacinas contra a covid. 

A variante Delta foi detectada pela primeira vez na Índia em fevereiro de 2021 e foi classificada como "variantes de preocupação" pela OMS em 10 de maio. Especialistas americanos e britânicos agora acreditam que a cepa Delta é provavelmente mais transmissível. O governo britânico disse em junho que a cepa é "cerca de 40% mais transmissível" do que a variante Alfa, anteriormente dominante, que já era mais transmissível em comparação com a cepa original do vírus.

Quem foi vacinado deve continuar usando máscara? 

Sim. As pessoas devem continuar usando máscara facial e tomando todos os cuidados preventivos até que a transmissão no meio da sociedade tenha caído de forma que seja permitido o relaxamento das medidas de controle. "É importante lembrar que as vacinas devem ser aplicadas em duas doses, no intervalo de tempo indicado. Esperamos que a proteção ocorra após a segunda aplicação. No entanto, devemos estar cientes de que as vacinas foram desenhadas para diminuir a mortalidade, mas não sabemos ainda a eficácia delas para reduzir a transmissão. Então, não sabemos ainda se as pessoas que vão receber a Coronavac ou a vacina de Oxford não podem ter uma infecção pelo vírus e passá-lo para uma pessoa suscetível que ainda não tenha sido vacinada", afirma Lauro Ferreira Pinto Neto, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Santa Casa de Vitória.

Raquel Stucchi, infectologista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da SBI, também concorda e orienta a população que já foi vacinada. "Quem foi vacinado, que já recebeu uma ou duas doses da imunização, deve continuar usando máscara corretamente e, se for de pano, que seja fabricada com tecido de trama mais fechada e ideal com três camadas", acrescenta. Segundo a especialista, nenhuma vacina tem 100% de proteção. "Posso ter sido vacinado e posso não ter tido resposta adequada à vacina. E em segundo lugar, porque só vamos conseguir diminuir a circulação do vírus quando tivermos 90% da população vacinada. Até que isso acontece, precisamos continuar usando máscara, mantendo o distanciamento social, não fomentando aglomerações e fazendo a higienização correta das mãos", aconselha a professora da Unicamp.

Sendo os idosos pessoas do grupo de risco é importante que todos se vacinem. Caso seja infectado, o idoso terá menos complicações estando imunizado?

Sim. "É importante a vacinação nos idosos, pois as alterações imunológicas associadas ao envelhecimento ou imunossenescência fazem aumentar o risco de infecções e com a vacinação oportunizamos que os mesmos produzam anticorpos neutralizantes contra o vírus Sars-Cov-2 fazendo com que não adoeçam ou pelo menos que evoluam sem gravidade e necessidade de hospitalização", afirma Lorena de Castro Diniz, especialista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Parentes vacinados não trazem imunidade para idoso que convive junto com eles. Apenas a vacina ajuda a proteger a pessoa?

Segundo Lorena de Castro Diniz, especialista da ASBAI, os parentes vacinados trazem o que chamamos de estratégia cocoon ou de casulo. "Isto é imunidade indireta, pois diminuímos a chance de os contatos se infectarem e consequentemente transmitirem a doença para o familiar idoso", disse. No entanto, essa estratégia apenas é usada quando o idoso ou o paciente tem alguma contraindicação de ser vacinado diretamente. Em suma o ideal é que todos os idosos que possam sejam imunizados.

FONTES: Ministério da Saúde; Governo de São Paulo; Rede Todos pelas Vacinas; Natalia Pasternak, microbiologista da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência; Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm);  Luiz Gustavo de Almeida, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Questão de Ciência; Eliana Bicudo, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI/DF);  Rosimeire Alves, doutora em Química Orgânica pela Universidade de Brasília (UnB); Ubiracir F. Lima, membro da Comissão Química Farmacêutica do Conselho Regional de Química/SP; Gerson Pianetti, professor titular na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e conselheiro do Conselho Federal de Farmácia (CFF); Lauro Ferreira Pinto Neto, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Santa Casa de Vitória; Raquel Stucchi, infectologista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da SBI; e Lorena de Castro Diniz, especialista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).  /  COM REPORTAGEM DE BRUNO RIBEIRO, FABIANA CAMBRICOLI, GIOVANA GIRARDI, JOÃO PRATA, PABLO PEREIRA, PAULO FAVERO, RENATA OKUMURA E ROBERTA JANSEN

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Como funciona a Coronavac?

Vacina desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantã é produzida com vírus inativados do novo coronavírus (Sars-CoV-2), que induziriam o sistema imunológico a produzir anticorpos contra a doença

Jonathan Corum e Carl Zimmer, The New York Times

15 de janeiro de 2021 | 13h46

A empresa privada chinesa Sinovac desenvolveu uma vacina contra o novo coronavírus chamada CoronaVac. Pesquisadores no Brasil anunciaram que a CoronaVac tem uma eficácia global de pouco mais de 50%, o limite mínimo estabelecido por muitas agências reguladoras para autorizar uma vacina contra a covid-19.

Uma vacina produzida a partir de novos coronavírus

A CoronaVac funciona ensinando o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o coronavírus SARS-CoV-2. Os anticorpos se conectam às proteínas virais, como as chamadas proteínas spike que se espalham por sua superfície.

Para criar a CoronaVac, os pesquisadores da Sinovac começaram obtendo amostras do novo coronavírus de pacientes na China, Grã-Bretanha, Itália, Espanha e Suíça. No fim, uma amostra da China acabou servindo como base para a vacina.

Matando o Vírus

Os pesquisadores cultivaram grandes estoques do novo coronavírus em células renais de macacos. Em seguida, eles encharcaram os vírus com uma substância química chamada beta-propiolactona. O composto desativou os novos coronavírus ao se conectar com seus genes. O novo coronavírus inativado não conseguia mais se replicar. Mas suas proteínas, incluindo a spike, permaneciam intactas

Os pesquisadores então extraíram os vírus inativados e os misturaram com uma pequena quantidade de um composto à base de alumínio chamado adjuvante. Os adjuvantes estimulam o sistema imunológico a aumentar sua resposta a uma vacina.

Os vírus inativados têm sido usados há mais de um século. Jonas Salk os usou para criar sua vacina contra a poliomielite na década de 1950 e eles são a base para vacinas contra outras doenças, como raiva e hepatite A.

Provocando uma resposta imunológica

Como os novos coronavírus na CoronaVac estão mortos, eles podem ser injetados no braço de alguém sem causar covid-19. Uma vez dentro do corpo, alguns dos vírus inativados são tragados por um tipo de célula imunológica chamada célula apresentadora de antígeno.

A célula apresentadora de antígeno quebra o novo coronavírus e exibe alguns de seus fragmentos em sua superfície. Os chamados linfócitos T auxiliares podem detectar o fragmento. Se o fragmento se encaixa em uma de suas proteínas de superfície, o linfócito T torna-se ativado e pode ajudar a recrutar outras células imunológicas para responder à vacina.

Produzindo anticorpos

Outro tipo de célula do sistema imunológico, chamada de linfócito B, também pode encontrar o novo coronavírus inativado. Os linfócitos B têm proteínas de superfície em uma grande variedade de formatos e algumas podem ter a forma certa para se prender ao novo coronavírus. Quando um linfócito B se fixa, ele pode extrair parte ou todo o vírus para dentro de si e apresentar fragmentos do novo coronavírus em sua superfície.

Um linfócito T auxiliar ativado contra o novo coronavírus pode se agarrar ao mesmo fragmento. Quando isso acontece, o linfócito B também é ativado. Ele prolifera e libera anticorpos que têm o mesmo formato das proteínas de superfície deles.

Parando o vírus

Uma vez vacinado com a CoronaVac, o sistema imunológico pode responder a uma infecção de novos coronavírus vivos. Os linfócitos B produzem anticorpos que se fixam aos invasores. Os anticorpos que têm como alvo a proteína spike podem impedir que o vírus entre nas células. Outros tipos de anticorpos podem bloquear o vírus por outros meios.

Lembrando do vírus

Embora a CoronaVac possa oferecer alguma proteção contra a covid-19, ninguém pode dizer ainda por quanto tempo essa proteção dura. É possível que o nível de anticorpos diminua ao longo dos meses. Mas o sistema imunológico também contém células especiais chamadas linfócitos B de memória, que podem reter informações sobre o novo coronavírus por anos ou até mesmo décadas.

Linha do tempo da vacina

  • Janeiro de 2020: A Sinovac começa a desenvolver uma vacina com vírus inativado contra o novo coronavírus.
  • Junho: Os testes das fases 1 e 2 com 743 voluntários não encontraram efeitos colaterais graves.
  • Julho: A Sinovac inicia os testes da Fase 3 no Brasil, e em seguida, na Indonésia e Turquia. A Reuters relata que o governo chinês concedeu aprovação para uso emergencial e limitado à vacina da Sinovac.
  • Outubro: As autoridades na cidade de Jiaxing, no leste da China, anunciam que estão dando a CoronaVac para pessoas em empregos de risco relativamente alto, como profissionais de saúde, inspetores de portos e funcionários do serviço público.
  • 19 de outubro: Autoridades no Brasil dizem que a CoronaVac é a mais segura das cinco vacinas testadas que estão na Fase 3 dos ensaios clínicos.
  • Novembro: A Sinovac publica os detalhes de seus testes das Fases 1 e 2 em uma revista científica, mostrando uma produção relativamente modesta de anticorpos. Apenas um teste de Fase 3 demonstrará se isso é suficiente para proteger as pessoas da covid-19.
  • 19 de novembro: O governo brasileiro anuncia que suspendeu os testes da vacina da Sinovac no país no mês anterior devido a um evento adverso. Os detalhes da pausa foram obscuros, levantando suspeitas de que política estava envolvida. Dois dias depois os testes foram retomados. O ensaio clínico brasileiro registrou casos suficientes de covid-19 para permitir que os pesquisadores determinassem a eficácia da vacina da Sinovac. Eles esperavam divulgar seus resultados até 23 de dezembro.
  • Dezembro: A Sinovac diz que espera fabricar 300 milhões de doses em 2020 e aumentar a capacidade para uma produção anual de 600 milhões de doses.
  • 23 de dezembro: Pesquisadores brasileiros anunciam em 23 de dezembro que a CoronaVac tem uma eficácia superior a 50%.
  • 24 de dezembro: As autoridades turcas anunciam que a vacina tem eficácia de 91,25%.
  • 7 de janeiro de 2021: Pesquisadores no Brasil anunciam que CoronaVac tem uma eficácia de 78%. Nenhum dos voluntários vacinados na Fase 3 do ensaio clínico desenvolveu casos graves ou moderados de covid-19. Mas a estimativa de eficácia foi baseada no desempenho da vacina em um subgrupo de voluntários. A eficácia global não é divulgada formalmente.
  • 11 de janeiro: A Indonésia autoriza a vacina para uso emergencial.
  • 13 de janeiro: Pesquisadores no Brasil anunciam que a CoronaVac tem eficácia global de pouco mais de 50%. A Turquia autoriza a vacina para uso emergencial.

Fontes: National Center for Biotechnology Information; Science; The Lancet; Lynda Coughlan, Escola de Medicina da Universidade de Maryland; Jenna Guthmiller, Universidade de Chicago.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Como funciona a vacina Oxford-AstraZeneca

Depois que a vacina é injetada, adenovírus colidem com células e se fixam em proteínas na superfície delas; a célula envolve o vírus em uma bolha e o puxa para dentro; uma vez lá dentro, o adenovírus escapa da bolha e viaja para o núcleo

Jonathan Corum e Carl Zimmer, The New York Times

17 de janeiro de 2021 | 14h00

A Universidade de Oxford fez parceria com a empresa sueco-britânica AstraZeneca para desenvolver e testar uma vacina contra o novo coronavírus conhecida como ChAdOx1 nCoV-19 ou AZD1222. Um ensaio clínico revelou que a vacina era de 62 a 90 por cento eficaz, dependendo da dosagem inicial administrada. Apesar de algumas incertezas sobre os resultados do ensaio, o Reino Unido autorizou a vacina para uso emergencial em dezembro e a Índia autorizou uma versão da vacina que recebe o nome de Covishield e é produzida no país em 3 de janeiro.

Um pedaço do novo coronavírus

O vírus SARS-CoV-2 é repleto de proteínas que usa para entrar nas células humanas. Essas proteínas chamadas de spike são um alvo tentador para potenciais vacinas e tratamentos.

A vacina Oxford-AstraZeneca é baseada nas instruções genéticas do vírus para produzir a proteína spike. Mas, ao contrário das vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna, que armazenam as instruções em RNA de fita simples, a vacina Oxford usa DNA de fita dupla.

DNA dentro de um adenovírus

Os pesquisadores adicionaram o gene da proteína spike do novo coronavírus em um outro vírus chamado adenovírus. Os adenovírus são vírus comuns que geralmente causam resfriados ou sintomas semelhantes aos da gripe. A equipe Oxford-AstraZeneca usou uma versão modificada de um adenovírus que infecta chimpanzés, conhecida como ChAdOx1. Ele consegue entrar nas células, mas não pode se replicar dentro delas.

A AZD1222 é resultado de décadas de pesquisa com vacinas baseadas em adenovírus. Em julho, foi aprovada a primeira para uso geral - uma vacina para o Ebola, da Johnson & Johnson. Ensaios clínicos avançados estão em andamento para outras doenças, incluindo H.I.V. e Zika.

A vacina Oxford-AstraZeneca para a covid-19 é mais resistente do que as vacinas de mRNA da Pfizer e Moderna. O DNA não é tão frágil quanto o RNA, e o revestimento de proteína resistente do adenovírus ajuda a proteger o material genético interno. Como resultado, a vacina Oxford não precisa ficar congelada. A vacina deve durar pelo menos seis meses quando refrigerada a 38-46 ° F (2-8 ° C).

Entrando em uma Célula

Depois que a vacina é injetada no braço de uma pessoa, os adenovírus colidem com as células e se fixam em proteínas na superfície delas. A célula envolve o vírus em uma bolha e o puxa para dentro. Uma vez lá dentro, o adenovírus escapa da bolha e viaja para o núcleo, a câmara onde o DNA da célula é armazenado.

O adenovírus empurra seu DNA para o núcleo. O adenovírus é modificado de forma que não consiga produzir cópias de si mesmo, mas o gene para a proteína spike do novo coronavírus pode ser lido pela célula e copiado em uma molécula chamada RNA mensageiro, ou mRNA.

Produzindo proteínas spike

O mRNA deixa o núcleo e as moléculas da célula leem sua sequência e começam a produzir proteínas spike.

Algumas das proteínas spike produzidas pela célula formam espículas (spikes) que migram para sua superfície e projetam suas pontas. As células vacinadas também quebram algumas das proteínas em fragmentos, que vão para a superfície delas. Essas espículas salientes e os fragmentos de proteínas spike podem então ser reconhecidos pelo sistema imunológico.

O adenovírus também provoca o sistema imunológico ao ligar os sistemas de alarme da célula. A célula envia sinais de alerta para ativar as células do sistema imunológico próximas. Ao disparar esse alarme, a vacina Oxford-AstraZeneca faz com que o sistema imunológico reaja mais fortemente às proteínas spike.

Identificando o invasor

Quando uma célula vacinada morre, os detritos contêm proteínas spike e fragmentos de proteínas que podem então ser absorvidos por um tipo de célula do sistema imunológico chamada célula apresentadora de antígeno.

A célula apresenta fragmentos da proteína spike em sua superfície. Quando outras células chamadas linfócitos T auxiliares detectam esses fragmentos, os linfócitos T auxiliares podem fazer soar o alarme e ajudar a organizar outras células do sistema imunológico para combater a infecção.

Produzindo anticorpos

Outras células do sistema imunológico, chamadas linfócitos B, podem colidir com as espículas do novo coronavírus na superfície das células vacinadas, ou fragmentos de proteínas spike flutuantes. Alguns dos linfócitos B podem ser capazes de se fixar às proteínas spike. Se esses linfócitos B forem então ativados por linfócitos T auxiliares, eles começarão a proliferar e a liberar anticorpos que têm como alvo a proteína spike.

Parando o vírus

Os anticorpos podem se prender às espículas do novo coronavírus, marcar o vírus para destruição e prevenir a infecção ao impedir as espículas de se fixarem a outras células.

Matando células infectadas

As células apresentadoras de antígeno também podem ativar outro tipo de célula do sistema imunológico chamada linfócito T citotóxico para procurar e destruir quaisquer células infectadas pelo novo coronavírus que apresentem os fragmentos de proteína spike em suas superfícies.

Lembrando do vírus

A vacina Oxford-AstraZeneca requer duas doses, administradas com um intervalo de quatro semanas , para preparar o sistema imunológico para lutar contra o novo coronavírus. Durante o ensaio clínico da vacina, os pesquisadores, involuntariamente, deram a alguns voluntários apenas meia dose.

Surpreendentemente, a combinação da vacina em que primeiro foi aplicada apenas meia dose foi 90 % eficaz na prevenção da covid-19 no ensaio clínico. Em contraste, a combinação de duas injeções de doses completas resultou em apenas 62% de eficácia. Os pesquisadores especulam que a primeira dose mais baixa fez um trabalho melhor em imitar a experiência de uma infecção, promovendo uma resposta imunológica mais forte quando a segunda dose foi administrada.

Como a vacina é muito recente, os pesquisadores não sabem quanto tempo sua proteção pode durar. É possível que nos meses seguintes à vacinação, o número de anticorpos e linfócitos T citotóxicos diminuam. Mas o sistema imunológico também contém células especiais chamadas linfócitos B de memória e linfócitos T de memória que podem reter informações sobre o novo coronavírus por anos ou até mesmo décadas.

Linha do tempo da vacina

  • Janeiro de 2020: Pesquisadores do Instituto Jenner da Universidade de Oxford começam a trabalhar em uma vacina contra o novo coronavírus.
  • 27 de março: Pesquisadores de Oxford começam a examinar voluntários para um ensaio clínico com humanos.
  • 23 de abril: Oxford inicia testes das Fases 1 e 2 de ensaio clínico na Grã-Bretanha.
  • 30 de abril: Oxford estabelece parceria com a AstraZeneca para desenvolver, fabricar e distribuir a vacina.
  • 21 de maio: O governo dos EUA promete até US$ 1,2 bilhão para ajudar a financiar o desenvolvimento e a fabricação da vacina pela AstraZeneca.
  • 28 de maio: Testes das Fase 2 e 3 da vacina começam na Grã-Bretanha. Alguns dos voluntários recebem acidentalmente metade da dose planejada.
  • 23 de junho: Testes da Fase 3 do ensaio clínico começam no Brasil.
  • 28 de junho: Estudo com testes das Fases 1 e 2 começam na África do Sul.
  • 30 de julho: Um artigo publicado na Nature mostra que a vacina parece segura em animais e parece prevenir a pneumonia.
  • 18 de agosto: Testes da Fase 3 da vacina começam nos EUA com 40.000 participantes.
  • 6 de setembro: Testes em humanos são suspensos em todo o mundo após uma suspeita de reação adversa em um voluntário britânico. Nem AstraZeneca nem Oxford divulgam a pausa.
  • 8 de setembro: A notícia a respeito da suspensão dos testes torna-se pública.
  • 12 de setembro: O ensaio clínico é retomado no Reino Unido, mas permanece suspenso nos EUA.
  • 23 de outubro: Após investigação, a agência que regulamenta medicamentos e alimentos nos EUA (FDA, na sigla em inglês) permite que os testes da Fase 3 continuem nos EUA.
  • 23 de novembro: A AstraZeneca anuncia dados de ensaios clínicos que mostram que uma meia dose inicial da vacina seguida por uma dose completa parece mais eficaz do que duas doses completas. Mas irregularidades e omissões suscitam muitas questões quanto aos resultados.
  • 7 de dezembro: O Instituto Serum da Índia anuncia que solicitou ao governo indiano a autorização de uso emergencial da vacina, conhecida como Covishield no país.
  • 8 de dezembro: Oxford e AstraZeneca publicam o primeiro artigo científico sobre testes da Fase 3 de ensaio clínico de uma vacina contra o novo coronavírus.
  • 11 de dezembro: A AstraZeneca anuncia que irá colaborar com os criadores russos da vacina Sputnik V, que também é feita a partir de adenovírus.
  • 30 de dezembro: Reino Unido autoriza a vacina para uso emergencial.
  • 3 de janeiro de 2021: A Índia autoriza uma versão da vacina chamada Covishield, produzida pelo Instituto Serum.
  • 2021: A empresa espera produzir até dois bilhões de doses este ano. Cada pessoa vacinada precisará de duas doses e o custo estimado de cada dose é de US$ 3 a US$ 4.

Fontes: National Center for Biotechnology Information; Nature; Lynda Coughlan, Escola de Medicina da Universidade de Maryland.

/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Cadastro no Conecte SUS não será obrigatório na vacinação contra covid; entenda

Cidadão poderá ser imunizado se apresentar CPF ou Cartão Nacional do SUS; aplicativo ajudará a controlar aplicação das doses

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2021 | 11h18

Postagens em redes sociais têm espalhado a informação falsa de que será obrigatório ter cadastro no Conecte SUS para ser vacinado contra a covid-19. A plataforma do Ministério da Saúde será utilizada na campanha de imunização, mas como uma facilitadora para o controle de quem já foi imunizado e para acompanhamento da aplicação das doses. O plano nacional de vacinação contra a covid-19 destaca que a identificação do cidadão poderá também ser feita pelo CPF ou o Cartão Nacional do SUS (CNS). 

Lançado em 2019, o Conecte SUS é um aplicativo criado a partir do antigo Meu DigiSUS e que tem o objetivo de reunir o histórico de saúde de cada usuário das redes pública e privada de saúde. Hoje, permite acesso a informações como, por exemplo, o histórico de vacinas e o resultado de exames do novo coronavírus em laboratórios credenciados, dentre outros dados, e permite a emissão de uma versão virtual do CNS.

No plano nacional, o app aparece como uma das tecnologias que vão facilitar a identificação dos grupos prioritários e o controle das doses aplicadas, a partir dos registros feitos no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). 

“Uma solução tecnológica está em desenvolvimento, por meio do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), com o objetivo de simplificar a entrada de dados e agilizar o tempo médio de realização do registro do vacinado no SI-PNI, além de considerar aspectos de interoperabilidade com outros Sistemas de Informação e integração com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)”, diz o texto. 

Segundo o plano, o sistema possibilitará a utilização de QR-Code para identificar o cidadão durante o processo de vacinação, cujo código poderá ser gerado pelo Conecte Sus. “O cidadão que faz parte dos grupos prioritários elegíveis para a vacinação, mas que chega ao serviço de saúde sem o seu QR-Code em mãos não deixará de ser vacinado”, destaca. 

“Para isso, o profissional de saúde terá uma alternativa de busca no SI-PNI, pelo Cadastro de Pessoa Física (CPF) ou Cartão Nacional de Saúde (CNS), a fim de localizar o cidadão na base de dados nacional de imunização e tão logo avançar para o ato de vacinar e de execução do registro da dose aplicada. Será realizado pré-cadastro para alguns grupos-alvo”, explica o plano. 

Ainda de acordo com o plano, diferentes bases de dados, incluindo o Conecte Sus, serão utilizadas para identificar manualmente as pessoas que estão no grupo prioritário de vacinação. “Entretanto, caso o cidadão comprove que faz parte do grupo prioritário e não esteja listado na base de dados do público-alvo, o profissional de saúde poderá habilitá-lo no SI-PNI para receber a vacina. A ausência do nome do cidadão na base de dados do público-alvo não deve ser impedimento para ele receber a vacina, desde que comprove que integra algum grupo prioritário”, esclarece.

No caso dos locais de vacinação que não estiverem devidamente informatizados ou com acesso adequado à internet, o registro será feito de forma manual e deverá trazer ao menos 10 de 28 informações exigidas, tais como CPF/CNS do vacinado, data de nascimento, gênero, grupo-alvo, data de vacinação, nome e fabricante da vacina, lote e validade, dentre outras.

Além disso, o Conecte SUS está entre as cinco “mensagens-chave” previstas para a campanha de comunicação do plano de imunização. No caso do app, a ideia é incentivar a população a baixá-lo, ressaltando que trará “o registro da vacina utilizada, doses ministradas, além de alerta da data para segunda dose, em caso de necessidade”.

Em nota ao Estadão, o ministério disse que o app será uma ferramenta “imprescindível” para a vacinação, especialmente porque o País deve adotar a aplicação de vacinas de diferentes laboratórios.  “Será possível que o agente de saúde aplique a segunda dose da vacina correta na data prevista, assim como que evite que uma pessoa tome doses de vacinas de laboratórios diferentes, o que poderia acarretar eventos adversos desconhecidos e indesejáveis.”

O plano nacional de vacinação contra a covid-19 foi apresentado em dezembro pelo governo federal. Ele estima que serão necessárias 108,3 milhões de doses para imunizar todos os grupos prioritários em quatro fases, considerando a aplicação de duas doses. Esses grupos – que incluem profissionais de saúde, idosos, indígenas, forças de segurança e professores – têm cerca de 51,4 milhões de brasileiros. 

Na semana passada, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a vacinação poderia iniciar, no melhor cenário, em 20 de janeiro. Além disso, no sábado, 9, a pasta afirmou que as doses serão distribuídas em quantidade proporcional à população de cada Estado

Como acessar o Conecte Sus:

Download para dispostivos Android: https://play.google.com/store/apps/details?id=br.gov.datasus.cnsdigital&hl=pt&gl=US

Download para dispositivos iOS: https://apps.apple.com/br/app/conecte-sus/id1045754608

Página para acesso pelo computador: https://conectesus-paciente.saude.gov.br/menu/home

 

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Quantas doses da vacina cada Estado irá receber?

Vacinas serão transportadas para as capitais por aviões da Força Aérea Brasileira; distribuição para os municípios será de responsabilidade dos governos estaduais

Gonçalo Junior e Carla Menezes, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 07h00

O Ministério da Saúde autorizou o início da vacinação contra o coronavírus nesta segunda-feira, a partir das 17h. A decisão foi divulgada no ato simbólico de recebimento dos imunizantes com os governadores de Estado nesta segunda-feira, 18, em evento no Centro de Distribuição Logística do Ministério da Saúde, localizado em Guarulhos (SP), nas proximidades do Aeroporto Internacional de Cumbica. A partir desse centro de distribuição, essas vacinas partirão para os Estados, que então iniciam as imunizações. Oficialmente, a vacinação começaria na terça-feira, 19, mas o ministro Eduardo Pazuello liberou o início da vacinação ainda nesta segunda. 

A antecipação ocorreu por pressão direta dos governadores minutos antes da reunião. "Depois de ouvir os governadores, chegamos à decisão de que estamos distribuindo hoje as vacinas aos Estados. A gente pode colocar a ideia de hoje ao final do expediente os estados começarem no município principal a começar a vacinar, com isso a gente adianta um dia. Acho que a gente pode começar hoje ao final do expediente”, afirmou o ministro.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia autorizado por unanimidade o uso emergencial das vacinas Coronavac e da Universidade de Oxford contra a covid-19. A campanha de vacinação será iniciada com a Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com o laboratório chinês Sinovac. “Este é o marco inicial da vacinação ocontra o coronavírus no País”, afirmou Pazuello. “Hoje, nós distribuiremos todas as vacinas aos Estados”, completou.

Com o início oficial da vacinação nesta terça-feira, o governo federal antecipa em um dia o início da campanha nacional de imunização. O convite aos governadores para a entrega dos imunizantes foi feito depois de a primeira vacina ter sido dada em São Paulo pelo governador João Doria, neste domingo. 

No evento desta segunda-feira, os governadores conheceram os estoques das vacinas do Ministério da Saúde. Em seguida, eles foram conduzidos até a Base Aérea de Cumbica para acompanhar, de perto, os primeiros embarques dos lotes de vacina. Vários aproveitaram o momento para tirar fotos perto dos aviões cargueiros da FAB que estavam sendo abastecidos com as vacinas. A imprensa teve livre acesso para registrar o abastecimento. Ao todo, foram enviadas 44 toneladas do imunizante. "Este é um momento de esperança para a população", afirmou o governador Hélber Barbalho, do Pará, diante da câmera de seus assessores, perto do avião. As primeiras aeronaves começaram a sair por volta das 10h para Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. 

Governadores criticam vacinação antecipada em São Paulo

Governadores presentes à distribuição simbólica da vacina criticaram a iniciativa do governo paulista de iniciar a vacinação no domingo. A primeira brasileira vacinada do País foi a enfermeira Mônica Calazans, que trabalha no Hospital Emilio Ribas. “É um gesto que coloca os outros governadores em situação de segunda categoria. Um gesto que envolve a saúde pública não pode ser transformado em campanha eleitoral. A solidariedade precisa ser respeitada e não o foi ao se iniciar a campanha quando os outros governadores não tinham sequer vacina em seu Estado”, criticou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM-GO).

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT-PI), reforçou as críticas ao governo paulista. “Foi uma decisão ruim. O Programa Nacional de Imunização é um programa nacional, que envolve todos os Estados. Deveria haver igualdade entre todos”, afirmou. 

A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), evitou comentar a aplicação da primeira dose em São Paulo. Por outro lado, ainda na reunião com os governadores, a chefe do Executivo estadual afirmou que "houve muito tumulto e descoordenação ao longo do período [pandemia]".

Questionado sobre o início da vacinação em São Paulo, Pazuello desconversou. “Ontem é passado. Ontem é para historiador. Quero saber do futuro”. O governador João Doria não participou do evento. Ele foi representado pelo vice-governador Rodrigo Garcia. "A vacinação em São Paulo já começou. Nesta segunda-feira, as vacinas começam a ser  distribuídas para as cidade dos interior do Estado", afirmou Garcia. 

Distribuição da vacina por Estado

A distribuição das doses disponíveis da vacina será feita com o apoio de aviões da FAB e das companhias aéreas Azul, Gol, Latam e Voepass. A distribuição, segundo o ministro, será feita para “pontos focais” já previamente definidos em cada Estado. Idosos que vivem em asilos, indígenas e profissionais de saúde da linha de frente são os primeiros a receber o imunizante. O Ministério da Saúde reservou 907,2 mil doses para os indígenas que vivem aldeados. 

O País dispõe de 6 milhões de doses da Coronavac. O governo paulista pretende manter no Estado cerca de 1,4 milhão, um volume que não cobre as prioridades. Outras duas milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, fabricada na Índia, estão com a compra acertada pelo ministério, mas ainda sem data para chegar ao Brasil. Além disso, o aval da Anvisa só vale para essas 8 milhões de doses, mas não para as demais a serem produzidas já no Brasil.

Veja a quantidade de doses que será distribuída 

Região Norte - 296.520 doses

  • Rondônia - 33.040
  • Acre - 13.840
  • Amazonas - 69.880
  • Roraima - 10.360
  • Pará - 124.560
  • Amapá - 15.000
  • Tocantins - 29.840

Região Nordeste - 1.200.560 doses

  • Maranhão - 123.040
  • Piauí - 61.160
  • Ceará - 186.720
  • Rio Grande do Norte - 82.440
  • Paraíba - 92.960
  • Pernambuco - 215.280
  • Alagoas - 71.080
  • Sergipe - 48.360
  • Bahia - 319.520

Região Sudeste - 2.493.280 doses

  • Minas Gerais - 561.120
  • Espírito Santo - 95.440
  • Rio de Janeiro - 487.520
  • São Paulo - 1.349.200

Região Sul - 681.120 doses

  • Paraná - 242.880
  • Santa Catarina - 126.560
  • Rio Grande do Sul - 311.680

Região Centro-Oeste - 415.880 doses 

  • Mato Grosso do Sul - 61.760
  • Mato Grosso - 65.760
  • Goiás - 182.400
  • Distrito Federal - 105.960

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Vacinas contra a covid-19: resultados de eficácia já apresentados

Índices variam entre 50,38% e 95%; OMS estipula taxa mínima de 50% para que o imunizante contra a doença seja aprovado

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 12h36

Pelo menos cinco laboratórios que produzem a vacina contra a covid-19 já divulgaram dados de eficácia do imunizante em desenvolvimento. Duas das vacinas, Coronavac e Oxford/AstraZeneca, que também receberam da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no domingo, 17, aprovação para uso emergencial no País, apresentam eficácia de 50,38% e média de 70,32%, respectivamente. 

Na última terça-feira, 12, o governo de São Paulo e o Instituto Butantã anunciaram que a taxa de eficácia geral da Coronavac é de 50,38%, um pouco acima do índice mínimo de 50% estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e defendido pela Anvisa para que uma vacina contra a doença seja aprovada. Conforme o Estadão já havia revelado, o porcentual é inferior ao apresentado na semana anterior pelo governo paulista, de 78%, pois a taxa mais alta referia-se somente a um recorte do estudo. 

"A eficácia é muito importante, mas a segurança também é extremamente importante. Apesar do índice de eficácia mais baixo, não podemos deixar de levar em consideração que a Coronavac é uma vacina feita com tecnologia tradicional. Pouco provável, que a gente venha a descobrir, utilizando a longo tempo, qualquer tipo de efeito colateral inusitado, pela proposta de tecnologia dela", afirma Ekaterini Simões Goudouris, diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Para Entender

Como funciona a Coronavac

Coronavac é produzida com vírus inativados do novo coronavírus (Sars-CoV-2), que induziriam o sistema imunológico a produzir anticorpos contra a doença

"A vacina da BCG para tuberculose dada em recém-nascidos, por exemplo, é a que tem uma eficácia menor entre as vacinas que já utilizamos. Protege de manifestações graves. É uma vacina que temos em uso, não tem eficácia elevadíssima, nem por isso deixa de ser importante", acrescenta Ekaterini.  

Segundo ela, o que preocupa não é o aspecto individual, mas o aspecto coletivo, ou seja, o número de pessoas que devem ser imunizadas contra a covid-19 para se atingir a imunidade coletiva. "Se tenho vacina com níveis de 50% de eficácia, tenho que vacinar quase 100% da população, ao contrário de uma vacina que tenha eficácia maior."

Os dados de eficácia dentro de estudos controlados servem para mostrar os impactos que as vacinas terão uma vez introduzidas no programa de vacinação. "O principal desfecho que gostaríamos de ter é a prevenção de formas graves, com redução de óbitos, casos graves e internações", afirma Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Na opinião de Kfouri, o programa de vacinação é dependente de eficácia, número de doses e capacidade de imunização. "Vacinar 15% da população terá diminuição de 15%, se vacinar 90% da população, a redução de óbitos e internação será muito maior. É preciso ainda monitorar para que a população tome adequadamente a vacina, dentro dos intervalos recomendados entre primeira e segunda dose."

Ainda sobre a variação das taxas de eficácia, o diretor da SBIm avalia que as vacinas estão "apresentando taxas diferentes de eficácia também porque são de tecnologias diferentes", ressalta Kfouri.

Em novembro do ano passado, a Pfizer e a BioNTech anunciaram que a vacina contra a covid-19 apresentou eficácia de 95%, após a conclusão da fase 3 dos testes clínicos.

A diretora da ASBAI lembra que no primeiro dia de aplicação da vacina no Reino Unido em dezembro, duas pessoas que receberam a vacina da Pfizer desenvolveram uma reação alérgica grave ao imunizante, de acordo com informações divulgadas na época pelas autoridades britânicas. "Dois casos de reações anafiláticas foram reportados", disse.

Feita com tecnologia de RNA mensageiro, a vacina traz as informações genéticas específicas da proteína do vírus que pode desencadear a resposta imune no corpo. "São as primeiras vacinas desta tecnologia que estão sendo lançadas. Ainda não conhecemos todos os efeitos colaterais que podem ser provocados", afirma Ekaterini.

No mesmo mês, a empresa de biotecnologia Moderna, que utiliza o mesmo princípio que a Pfizer, anunciou que os resultados preliminares da análise da vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela companhia apontaram eficácia de 94,5% na prevenção da doença, incluindo casos graves. De acordo com a farmacêutica, não foi relatada nenhuma preocupação significativa com a segurança. E as reações adversas observadas foram leves a moderadas, como dor no local de injeção, fadiga, mialgia e cefaleia, geralmente de curta duração.

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Como funciona a vacina Oxford-AstraZeneca

Depois que a vacina é injetada, adenovírus colidem com células e se fixam em proteínas na superfície delas; a célula envolve o vírus em uma bolha e o puxa para dentro; uma vez lá dentro, o adenovírus escapa da bolha e viaja para o núcleo

Já a vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo consórcio da farmacêutica britânica AstraZeneca e da Universidade de Oxford apresentou eficácia que varia de 62% a 90%, eficácia média de 70,32%. A eficácia é de 90% para voluntários que receberam primeiramente metade de uma dose, depois uma dose completa um mês depois. O índice, porém, cai para 62% no grupo vacinado com duas doses completas. Os resultados foram criticados em razão do erro na injeção de meia dose. 

Sobre a vacina  Sputnik V, no fim do ano passado, o governo da Rússia e o Centro de Epidemiologia e Microbiologia Nikolai Gamaleya anunciaram que a imunização apresentou eficácia acima de 95% após a segunda dose. Com apenas uma dose, a eficiência foi de 91,4%

Para Kfouri, são dados que precisam ser avaliados com cuidado. "Precisamos ainda ver com cautela, porque o governo russo fez apenas um anúncio. Não foi feita apresentação de dados para a comunidade científica", afirma.

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Como funciona a vacina Sputnik V

Imunizante é desenvolvimento na Rússia e possui uma eficácia de 91,4%; Anvisa poderá autorizar uso no Brasil

As vacinas Sputnik V e de Oxford usam a mesma tecnologia de fator viral, mas com composições diferentes. Enquanto a de Oxford usa adenovírus de chimpanzé, a Sputnik V usa adenovírus de humanos.

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Saiba as semelhanças e diferenças entre as vacinas Coronavac e Oxford

Anvisa aprovou no domingo, 17, o uso emergencial dos dois imunizantes na campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 14h17

Por unanimidade, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no domingo, 17, o uso emergencial da Coronavac e da vacina fabricada pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. Oficialmente, a vacinação começaria nesta terça-feira, 19, mas o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, autorizou que os governadores iniciassem a imunização com a Coronavac nesta segunda-feira, 18, já que o ministério aguarda a chegada das doses da vacina de Oxford. O Estado de São Paulo, no entanto, imunizou ontem a primeira brasileira, minutos após a Anvisa liberar o uso emergencial da vacina.

Mesmo sendo indicadas para proteção contra uma mesma doença, as duas imunizações possuem diferentes métodos de formulação. A Coronavac usa uma versão inativada do vírus, método usado em grande parte dos imunizantes administrados no Brasil. A Oxford tem como base o fator viral. Ambas devem ser dadas em duas doses, com intervalos diferentes, e podem ser armazenadas em geladeira com temperaturas que variam de 2 a 8 ºC.

Conheça a seguir as semelhanças e diferenças entre as vacinas Coronavac e Oxford:

Como as vacinas são produzidas?

A Coronavac funciona ensinando o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o coronavírus SARS-CoV-2. Os anticorpos se conectam às proteínas virais, como as chamadas proteínas spike que se espalham por sua superfície. Para criar a Coronavac, os pesquisadores da Sinovac começaram obtendo amostras do novo coronavírus de pacientes na China, Grã-Bretanha, Itália, Espanha e Suíça. No fim, uma amostra da China acabou servindo como base para a vacina.

Os pesquisadores então extraíram os vírus inativados e os misturaram com uma pequena quantidade de um composto à base de alumínio chamado adjuvante. Os adjuvantes estimulam o sistema imunológico a aumentar sua resposta a uma vacina.

Os vírus inativados têm sido usados há mais de um século. Jonas Salk os usou para criar sua vacina contra a poliomielite na década de 1950 e eles são a base para vacinas contra outras doenças, como raiva e hepatite A.

Já na vacina Oxford/AstraZeneca, conhecida como ChAdOx1 nCoV-19 ou AZD1222, o vírus SARS-CoV-2 é repleto de proteínas que usa para entrar nas células humanas. Essas proteínas chamadas de spike são um alvo tentador para potenciais vacinas e tratamentos.

A vacina é baseada nas instruções genéticas do vírus para produzir a proteína spike. Mas, ao contrário das vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna, que armazenam as instruções em RNA de fita simples, a vacina Oxford usa DNA de fita dupla.

Os pesquisadores adicionaram o gene da proteína spike do novo coronavírus em um outro vírus chamado adenovírus. Os adenovírus são vírus comuns que geralmente causam resfriados ou sintomas semelhantes aos da gripe. A equipe Oxford/AstraZeneca usou uma versão modificada de um adenovírus que infecta chimpanzés, conhecida como ChAdOx1. Ele consegue entrar nas células, mas não pode se replicar dentro delas.

A AZD1222 é resultado de décadas de pesquisa com vacinas baseadas em adenovírus. Em julho, foi aprovada a primeira para uso geral - uma vacina para o Ebola, da Johnson & Johnson. Ensaios clínicos avançados estão em andamento para outras doenças, incluindo H.I.V. e Zika.

Quais os efeitos colaterais?

Até o momento, as duas vacinas não apresentaram efeitos colaterais graves. Entre os sintomas, dores na região em que a vacina foi aplicada, febre, dor muscular, dor de cabeça (de intensidade leve ou moderada), fadiga e calafrios, reações consideradas comuns por profissionais da saúde.

Como funciona o armazenamento?

A vacina Oxford/AstraZeneca para a covid-19 é mais resistente do que as vacinas de mRNA da Pfizer e Moderna. As duas vacinas das farmacêuticas americanas precisam ser armazenadas a -70º e -20ºC, respectivamente e exigem duas doses de aplicação. Ao contrário delas, na vacina britânica, o DNA não é tão frágil quanto o RNA, e o revestimento de proteína resistente do adenovírus ajuda a proteger o material genético interno. Como resultado, a vacina de Oxford não precisa ficar congelada. A vacina deve durar pelo menos seis meses quando refrigerada entre 2 e 8°C.

A Coronavac também está no perfil desejado do Ministério da Saúde para armazenamento em temperaturas normais de geladeira comum de 2 a 8 °C, podendo permanecer estável por até três anos.

Quantas doses são necessárias, segundo estudos, e qual o intervalo entre as dosagens?

As duas vacinas são aplicadas em duas doses.

A de Oxford/AstraZeneca requer duas doses, administradas com um intervalo de quatro semanas, para preparar o sistema imunológico para lutar contra o novo coronavírus. 

Já a Coronavac pode ser administrada de 14 a 28 dias após a dose inicial. No entanto, segundo a Anvisa, o Butantã ainda não apresentou os dados de eficácia de acordo com o intervalo entre a primeira e a segunda dose.

Quantas vacinas há disponíveis da Coronavac e Oxford?

O País dispõe de 6 milhões de doses da Coronavac. O governo paulista pretende manter no estado cerca de 1,4 milhão. O volume não cobre as prioridades. Outros 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca fabricada na Índia estão com a compra acertada pelo Ministério da Saúde, mas ainda sem data para chegar ao Brasil. Além disso, o aval da Anvisa só vale para essas 8 milhões de doses, mas não para as demais a serem produzidas já no Brasil.

No Brasil, a Coronavac é desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, do Governo de São Paulo, já a vacina britânica, fabricada pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, será produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Em quais países já foram aplicadas as duas vacinas?

Ambas as vacinas já foram aplicadas fora da fase de testes. Em 4 de janeiro, um britânico de 82 anos se tornou a primeira pessoa do mundo a ser vacinada com o imunizante produzido pela parceria Oxford/AstraZeneca.

Além da China, a Indonésia iniciou na última quarta-feira, 13, a campanha de vacinação contra a covid-19 com o uso emergencial da Coronavac, que demonstrou eficácia de 65,3% em testes clínicos locais. No dia seguinte, 14, a Turquia também começou a vacinar sua população com a vacina chinesa, com autorização emergencial.

Em 31 de dezembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concedeu a primeira aprovação emergencial para uma vacina desde o início da pandemia do coronavírus, ao imunizante desenvolvido pelo Pfizer e pela BioNTech. A Coronavac e Oxford aguardam aprovação da OMS.

Qual a eficácia das vacinas?

As duas vacinas têm eficácia suficiente para ajudar no combate à pandemia. Nos testes, a vacina de Oxford foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. Esses dois resultados permitiram obter eficácia média de 70,32%.

Já a taxa geral de eficácia da Coronavac se revelou de 50,38%, o que significa que de cada cem pessoas vacinadas que tiverem contato com o vírus, 50,38% não vão manifestar a doença graças à imunidade conferida pela vacina. Para  quem acabou ficando doente, a vacina reduziu em 78% a chance de ter uma doença leve que precise de assistência médica. 

Estudos publicados na revista científica The Lancet mostraram ainda que ambas as vacinas são seguras, o que foi confirmado pela Anvisa.

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Máscaras de tecido protegem contra novas variantes do coronavírus?

Apesar de recomendação por parte das autoridades francesas, especialistas afirmam que ainda é cedo para discutir eficácia das máscaras de pano e que o ideal é manter todos os cuidados de prevenção 

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 10h00

Diante do maior potencial de transmissão de novas variantes do novo coronavírus, autoridades francesas desaconselharam, recentemente, o uso de máscaras caseiras de tecido por considerá-las menos eficientes na proteção. No entanto, especialistas consultados pelo Estadão defendem que são necessários mais estudos para investigar a eficácia desse tipo de proteção contra as cepas recém-descobertas do Sars-CoV-2. Eles concordam que, por enquanto, o recomendado é que as pessoas mantenham os mesmos cuidados: usar máscara facial, evitar aglomerações, manter distanciamento social e higienizar corretamente as mãos.

Segundo Raquel Stucchi, infectologista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a nova variante altera a 'superfície externa do vírus'. "Apesar da transmissão mais fácil pela nova variante, o vírus continua do mesmo tamanho e possivelmente a transmissão ainda se faz por meio de gotículas. As máscaras caseiras em duplo tecido e tecido de trama fechada são eficazes no bloqueio da transmissão", afirma. A divulgação de informações sobre novas variantes ainda é muito recente. "Precisamos aguardar estudos que mostrem que a máscara (de tecido) continua sendo efetiva ou não. Mas ainda é muito cedo para fazer uma análise neste momento", acrescenta Raquel.

Para ela, os cuidados de proteção adotados inicialmente devem ser mantidos. "Até que tenhamos grande parte da população vacinada, cerca de 90%, devemos manter as mesmas medidas de bloqueio de transmissão do vírus: máscara facial, ter mais de uma máscara para trocar em períodos longos fora de casa, evitar aglomerações, manter distanciamento social e higienizar com frequência as mãos, lavando com água e sabão por 20 segundos, no mínimo, ou usando álcool em gel", aconselhou a infectologista.

"Independentemente da variante, o vírus se espalha com mais facilidade entre as pessoas aglomeradas e sem máscaras. Se utilizadas corretamente e, respeitando todas as outras medidas, as máscaras caseiras de boa qualidade, bem ajustadas, de dupla ou tripla face, têm a mesma eficácia que as máscaras cirúrgicas na proteção", afirma Unaí Tupinambás, infectologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas (UFMG). 

Sobre a eficácia das proteções de tecido, embora considere que as máscaras cirúrgicas e N95 conferem maior proteção, Leonardo Weissmann, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas,  afirma que ainda não há estudos relacionando as novas variantes com o uso de máscaras. "Muito provavelmente, a orientação da França seja por causa da incerteza sobre a possibilidade da formação de aerossóis (como causa da maior transmissibilidade)", diz ele, consultor da SBI.

Lauro Ferreira Pinto Neto, professor da Santa Casa de Vitória, concorda que não há estudos que comprovem que a máscara de pano não funciona contra novas variantes. "Não conheço nenhum trabalho que possa confirmar isso. Claro que as máscaras cirúrgicas e N95 são melhores, mas não há produção em escala para atender toda a população. O que sabemos é que a máscara, mesmo de pano, usada adequadamente, tem papel fundamental na proteção ao novo coronavírus", reforça o infectologista da SBI.

Para ele, diante do surgimento de novas variantes, mais importante que discutir a eficácia da máscara de tecido, é abordar o uso correto das máscaras. "A questão é que os ocidentais são muito indisciplinados com o uso correto. As pessoas usam máscara no queixo ou com nariz de fora", complementa ao lembrar que é importante que a máscara seja trocada após quatro horas de uso ou se estiver úmida. 

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