Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Vacina contra febre amarela é segura, mas ainda precisa mudar, dizem especialistas

Considerado eficaz, imunizante tem causado reações que, ainda que mínimas ante o público total, estão sendo estudadas

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 17h00

A ressurgência da febre amarela no Brasil trouxe à tona a necessidade de desenvolver uma nova vacina contra a doença, com menos risco de efeitos adversos. A vacina atual, usada desde a década de 1930, é comprovadamente segura, mas há casos raros de pessoas doentes – que chegam a morrer após a injeção.

“Sim, estamos preocupados. Não estamos satisfeitos”, disse ao Estado o especialista Akira Homma, assessor científico sênior do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz), instituição responsável pelo desenvolvimento e produção da vacina da febre amarela no Brasil. Pesquisas já estão em curso para o desenvolvimento de um novo imunizante, mas levará ao menos uma década para se chegar a um produto final, testado e aprovado. 

Até lá, a vacina atual continuará a ser usada. “O custo-benefício é muito positivo”, afirma Homma, ressaltando que os riscos são bem menores do que os da doença — cuja taxa de mortalidade, nos casos mais graves, beira os 50%. Efeitos colaterais simples, como mal-estar, febre e dor de cabeça são relativamente comuns, ocorrendo em até 5% dos vacinados. Reações adversas graves, que incluem a própria febre amarela (ou doença viscerotrópica aguda), são bem mais raras, com estatísticas que variam de 1 a cada 400 mil até 1 milhão de aplicações, dependendo do estudo e da população em questão.“São casos extremamente raros, porém extremamente graves”, diz o virologista Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA), que também defende o desenvolvimento de uma nova vacina. “Temos vários grupos no Brasil capazes de fazer isso.”

No Estado de São Paulo, pelo menos 3 pessoas morreram por reação à vacina desde janeiro de 2017, em um universo de 7 milhões de pessoas vacinadas, segundo dados mais recentes da Secretaria de Estado da Saúde. Outros casos estão em investigação. “É um risco aceitável nas condições atuais. Mas vale a pena, sim, investir em uma vacina mais moderna”, reforça o imunologista Jorge Kalil, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Histórico. A vacina usada hoje é, essencialmente, a mesma que foi desenvolvida pelo infectologista Max Theiler nos Estados Unidos, no fim da década de 1930 — que lhe valeu o Prêmio Nobel de Medicina, em 1951. O risco decorre do fato de ela utilizar um vírus vivo, porém atenuado (enfraquecido), que é inofensivo para a maioria das pessoas, mas pode ser perigoso para alguns grupos de risco, como idosos e pessoas com deficiência imunológica. Vários imunizantes, como os de raiva, rubéola, pólio e sarampo, utilizam vírus vivos atenuados.

A cepa atenuada da febre amarela, conhecida como 17DD, foi obtida por um processo biológico de sucessivas passagens do vírus por diferentes meios de cultura, de modo a enfraquecer sua virulência. Uma alternativa para aumentar a segurança da vacina seria produzir uma versão mais atenuada — como se tenta na vacina contra o zika.

O problema é que, quanto mais atenuado o vírus, mais fraca é a resposta imunológica. “Menor é a proteção”, diz o pesquisador Luís Carlos Ferreira, do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Nesse caso, pode ser necessário aplicar várias doses — criando desafios logísticos, econômicos e de adesão.

O mesmo vale para algumas vacinas que utilizam apenas parte dos vírus, ou vírus inativados (mortos), que é uma das estratégias sendo pesquisadas pela Fiocruz. Estudos iniciais, realizados em modelos animais, mostram que a vacina funcionaria dessa forma, mas com um tempo de proteção mais curto. “Vamos ver se o rendimento dessa tecnologia nos permitirá chegar a um produto”, afirma Homma. “O que se deseja é uma vacina que seja eficaz e segura ao mesmo tempo. Esse equilíbrio é difícil de encontrar”, afirma Ferreira, do ICB-USP.

Boatos. Vários boatos sobre a vacina contra a febre amarela têm circulado nas redes sociais, em formas de vídeos, áudios e textos. A maior parte não tem fundamento. Veja, abaixo, alguns deles:

"A vacina não tem alta tecnologia de desenvolvimento e não é segura".

Um áudio que circula nas redes sociais com declarações de uma suposta funcionária do Instituto Butantan foi o principal responsável por espalhar esse boato. O Butantan esclareceu que não produz a vacina e nenhum funcionário foi autorizado a fazer comentários - isto é, a fonte é falsa. A Fiocruz, que produz a vacina, afirma que ela "é uma das vacinas mais seguras que conhecemos" e que "a ocorrência de eventos adversos é extremamente rara, com registros de 1 caso a cada 400mil doses aplicadas".

"Pediatras não entendem de vacinas e reações adversas"

Pode haver pediatras pouco informados, mas a generalização é um exagero. Em geral, o pediatra é a pessoa certa a ser consultada para decidir se vale à pena ou não vacinar uma criança.

 "A vacina contra a febre amarela pode causar perda da visão"

Circulou nas redes sociais um texto atribuído a um médico do Instituto Estadual de Imunologia de Macapá (AP). A instituição não existe e nenhum dos efeitos colaterais da vacina tem relação com a visão.

"Como a vacina é feita com o vírus atenuado, ele está vivo e vai causar infecção"

A vacina é mesmo feita com o vírus atenuado e pode acarretar alguns sintomas em uma parcela pequena da população imunizada. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, a vacina é, de maneira geral, bem tolerada e a partir do terceiro ou quarto dia da imunização, observa-se em aproximadamente 2% a 5% dos vacinados sinais de febre, dor de cabeça e dores musculares.

"Após a imunização de milhares de pessoas, foi descoberto que a vacina contém mercúrio e é um veneno mortal".

De acordo com o  Ministério da Saúde, no entanto, todas as vacinas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde passam por um processo rigoroso de avaliação de qualidade, obedecendo a critérios padronizados pela Organização Mundial de Saúde. Cada lote de vacina é submetido à análise no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde. Desde 1983, os lotes por amostragem de imunobiológicos adquiridos pelos programas oficiais de imunização vêm sendo analisados, garantindo sua segurança, potência e estabilidade, antes de serem utilizados na população. Segundo a OMS, a vacina da febre amarela "é extremamente eficaz e segura".

"A vacina pode comprometer o desenvolvimento neurológico de crianças e até levá-las à morte".

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, raramente foram associados à vacina efeitos adversos graves como reações anafiláticas, doença viscerotrópica e doença neurológica. No Brasil, entre 2007 e 2012, foram relatados aproximadamente um evento adverso grave em cada 250 mil doses administradas. Nos Estados Unidos, entre 2000 e 2006, foi identificada uma taxa de 4,7 eventos adversos graves para cada 100 mil doses de vacina distribuídas".

"A vacina paralisa o fígado e a vacinação em grande escala vai produzir milhões de casos de pessoas com doenças crônicas".

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, são raros os relatos de efeitos secundários graves da vacina da febre amarela. As taxas de eventos adversos graves depois da vacinação , quando a vacina ataca o fígado, rins ou sistema nervoso, obrigando a hospitalização, estão entre 0,4 e 0,8 por 100 mil pessoas vacinadas.

"O perigo da febre amarela é invenção da indústria farmacêutica para vender vacinas"

As grandes empresas farmacêuticas não vendem a vacina de febre amarela no Brasil, quem produz a vacina no País é a Fiocruz. O perigo é real: o Ministério da Saúde divulgou na terça-feira, 30, um balanço dos casos e mortes causadas pela doença no Brasil: 213 casos confirmados da doença, sendo que 81 pessoas morreram devido à infecção desde julho de 2017.

"A dose fracionada não é suficiente para imunizar de fato, é uma forma de enganar o povo"

A própria Organização Mundial de Saúde recomendou o fracionamento da vacina quando há risco de expansão da doença em cidades grandes que não tinham recomendação para imunização antes. Os estudos mostraram que a proteção da dose fracionada, de 0,1 ml, é a mesma da dose padrão, de 0,5 ml. A primeira protege a pessoa por até oito anos, e a segunda, pela vida toda.  O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz fez um estudo com 315 pessoas e concluiu que, passados oito anos desde que foram vacinadas com a dose de 0,1ml, elas ainda tinham anticorpos contra febre amarela no organismo.

"Receita caseira com couve, maçã, alho, limão e mel é o suficiente para imunizar contra a febre amarela sem os efeitos adversos da vacina".

Esse tipo de receita não tem nenhum fundamento científico e nenhum efeito contra a febre amarela. Segundo a Organização Mundial de Saúde, "a vacinação é o meio mais importante para evitar a febre amarela".

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