Vacina contra gripe aviária da OMS funciona mal

A única vacina contra gripe aviária com o aval da Organização Mundial da Saúde (OMS) não está se comportando como deveria. Estudo feito pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos com doses do laboratório da Sanofi-Pasteur, testadas em pesquisa clínica, mostrou que a capacidade de imunização é seis vezes menor do que o normal. O trabalho analisou a reação do produto em 451 pessoas saudáveis. Foram analisadas doses de 7,5, 45 e 90 microgramas. As únicas que atingiram um nível de imunização aceito pela OMS foram as de 90 microgramas. Uma vacina de gripe comum tem 15 microgramas (0,5 ml), para se ter idéia. Resposta imunológica "O problema não é a matéria-prima, mas a resposta imunológica do organismo humano", explica Jessica Presa, gerente médica da Sanofi-Pasteur no Brasil. Os motivos de o corpo humano não ter respondido à vacina são desconhecidos. João Toniolo, coordenador do Projeto de Vigilância Epidemiológica da Gripe (VigiGripe), da Universidade Federal de São Paulo, complementa: "Se a cepa não fosse boa, os problemas teriam aparecido antes de se chegar às primeiras doses." A cepa representa a semente de uma vacina. Além dela, outros produtos compõem o produto, como cloreto de sódio, potássio, magnésio e hidrogênio. "Isso certamente não era esperado", afirma Isaias Raw, diretor da Divisão de Desenvolvimento Tecnológico do Butantã. O Instituto Butantã, em São Paulo, é um dos cerca de dez fabricantes mundiais que receberam a mesma cepa com o aval da OMS e produzida pelo laboratório britânico Biological Standards and Technology. O material chegou em janeiro e ainda não começou a ser testado. Brasil Mundialmente, o laboratório Sanofi-Aventis, o maior produtor de vacinas contra a gripe comum do mundo - são 160 milhões de doses por ano, inclusive as utilizadas pelo governo brasileiro - , foi pioneiro no teste da vacina contra gripe aviária em humanos. No Brasil, a idéia é que os testes em camundongos comecem em junho e, em humanos, em setembro. O plano brasileiro inicial é produzir 20 mil doses. De acordo com Raw, o número seria adequado para um primeiro plano de ação, o de imunizar quem tiver contato com pessoas contaminadas em outros países. "Mas, do jeito que está, somos incapazes de produzir uma quantidade suficiente", diz ele. Potencialização Com a comprovação em estudos clínicos de que a vacina é seis vezes mais fraca do que deveria, o próximo passo mais aceitável entre os infectologistas é potencializar o produto com aditivos - eles só podem ser testados a partir dos ensaios clínicos. O mais comum deles é o hidróxido de alumínio, já usado em muitas outras vacinas, principalmente em países pobres, que estão, de certa forma, acostumados a turbinar vacinas. "Sempre cantei isso nas reuniões em Genebra, na OMS. Poucos me davam atenção", diz Raw. A Sanofi-Aventis vai usar o hidróxido de alumínio. "A substância age de forma `fisicamente' na vacina, fazendo com que o antígeno seja liberado aos pouquinhos no organismo humano", explica Raw. O Butantã, no entanto, vai também usar um aditivo inédito, assim que os testes em humanos começarem em setembro. Trata-se do monofosforil de lipídio A, com ação direta no organismo humano. A substância foi retirada da vacina da coqueluche. Nela, o monofosforil de lipídio A tem ação tóxica, capaz de provocar convulsões. Em outras vacinas, ele é potencializador, mas de um jeito diferente do hidróxido de alumínio. "Ele liga receptores das células do sistema imunológico", conta Raw. "Vamos ver se dará certo usar os dois aditivos. Se der, o Butantã terá a melhor vacina de todas." O Instituto Butantã aposta num produto pronto para ser disponibilizado, caso haja uma pandemia, a partir do fim do ano. A Sanofi-Aventis prefere não apostar em datas.

Agencia Estado,

05 de abril de 2006 | 09h16

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