Vacina contra rotavírus cria polêmica entre médicos

Mesmo com todo o investimento do Ministério da Saúde, a vacina contra rotavírus, introduzida em março no calendário oficial de imunização, não é unanimidade entre médicos e pacientes. São muitos os argumentos contra a vacina para evitar essa doença viral que provoca infecção intestinal com fortes diarréias e pode levar à morte por desidratação, sobretudo crianças de até 5 anos. Um deles é a eficácia em grande escala. "Não posso indicar um produto sem conhecer seus efeitos e a real capacidade de imunização em grande escala", diz Eloisa Corrêa de Souza, pediatra do Hospital Universitário da USP. "Índices de imunização abaixo de 90% são considerados apenas razoáveis. Essa vacina chega a ter 70% em alguns casos. A tetravalente (contra coqueluche, tétano, difteria e meningite) e a tríplice (para sarampo, rubéola e caxumba) têm 95%." A vacina foi comprada da GlaxoSmithKline a US$ 7 a dose - foram 8 milhões de doses. São necessárias duas para a imunização, em gotas, uma aos 2 meses de idade e outra até os 4. Os estudos de eficácia e segurança do produto feitos com 63 mil crianças de 11 países da América Latina e Finlândia comprovam imunização de 85% para formas graves de diarréia e de 70% para as menos graves. O Brasil participou com 3.218 crianças recrutadas pelo Instituto Evandro Chagas, em Belém, de outubro de 2003 até o fim de 2005. "Não há dúvidas sobre a capacidade da vacina", diz Alexandre Linhares, virologista do Evandro Chagas "É recomendável que autoridades de saúde fiquem atentas a possíveis reações, mas isso é um procedimento normal para qualquer vacina nova." A da Glaxo é monovalente, ou seja, feita só com um sorotipo. Nesse caso, o G1, mais especificamente o G1P8, tipo de combinação de rotavírus de maior prevalência mundial (cerca de 50%). Mas, de acordo com Lúcia Ferro Bricks, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, há mais de 40 combinações de vírus. Mesmo sendo monovalente, pelas características do rotavírus, a vacina acaba imunizando indiretamente contra outros tipos. "A segunda dose protege contra os tipos G2, G3, G4 e G9", afirma o virologista Linhares. Polivalentes - Duas novas vacinas vão chegar em breve ao País. Em setembro, o laboratório Merck Sharp & Dohme entrou com pedido na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para vender no Brasil uma tetravalente, ou seja, eficaz contra quatro tipos de vírus - G1, G2, G3 e G4. A vacina aplicada gratuitamente pelo governo também deverá mudar. Está previsto para o ano que vem o lançamento de uma versão tetravalente do Instituto Butantã. O acordo de transferência de tecnologia para a fabricação foi assinado com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. "Uma polivalente (feita com mais de um sorotipo) abre muito mais o leque de proteção", diz a pediatra Eloisa, do HU. "E também diminui as chances do surgimento de vírus resistentes, aqueles que não são combatidos pela vacina." O histórico de imunização do rotavírus também faz com que alguns médicos estejam com o pé atrás em relação à vacina. Em 1998, o laboratório Wyeth lançou no mercado americano uma vacina contra a doença que teve de ser retirada logo depois por ter causado obstrução intestinal - interrupção da passagem do alimento pelo intestino. A vacina da Wyeth, feita de uma combinação de vírus atenuado do homem e de macacos, não tem relação com a atual, feita com vírus humano. "Elas são diferentes, mas não dá para esquecer que a antiga foi aprovada FDA (órgão americano que regula medicamentos). Vou esperar pelo menos um ano antes de indicar a nova para meus pacientes", conclui Marcelo Reibscheid, pediatra do Hospital São Luiz e professor-assistente da Santa Casa de São Paulo. "Ainda prefiro correr o risco de ter uma criança internada com soro." No laboratório Fleury, a vacina contra rotavírus é a única comercializada só com a apresentação de receituário médico. "É uma vacina com pouco tempo de uso. E o rotavírus traz em sua história outra vacina com efeitos graves. Tudo indica que ela é segura, mas ainda vamos esperar um pouco antes de deixar de exigir o receituário", diz o infectologista do laboratório Fleury, Jessé Reis Alves. A pediatra Silvia Balieiro, do Hospital Samaritano, passou a indicá-la desde o primeiro dia da aprovação do Ministério. "É normal que uma vacina nova provoque esse tipo de desconforto. Mas minha recomendação é baseada em estudos internacionais sérios. Além do mais, é um sofrimento para a criança." A doença é responsável por 30% das internações causadas por diarréias fortes em crianças de até 5 anos. A agente de viagens Andréa Inaimo viu a filha Sofia, de 1 ano, ficar internada por quatro dias. "Ela não correu risco de morte, mas foi um tormento. Sofia teve de receber soro e chegou a usar 30 fraldas por dia. Sem dúvida, se ela tivesse idade para isso, teria tomado a vacina", dia a mãe, que acabou pegando a doença também. Susto - A empresária M.H, que não quis se identificar, levou o filho a uma clínica particular para tomar a primeira dose - o preço médio é R$ 200 - , mas desistiu da segunda. Cinco dias depois da primeira vacina, o bebê J. teve sangramento nas fezes. O sintoma durou 45 dias. "Não dá para afirmar que foi da vacina. Pode ter sido causado por uma alergia alimentar. Mas foi pontual e fiquei com medo. A vacina anterior retirada do mercado dava uma reação parecida, mas de forma mais violenta", diz a mãe. Outra questão é a diferente forma de encarar a doença. "O rotavírus é controlável e tem mortalidade baixa", conclui o pediatra Reibscheid. A pediatra Heloisa Murr Sabino, do HU, complementa, com cautela: "O rotavírus é realmente grave em crianças desnutridas e com imunidade baixa." O vírus é transmitido pelas secreções das vias respiratória e fezes. Como ele pode sobreviver por horas, uma das formas mais comuns de contágio é por meio das mãos. "Quem tem acesso a médicos e tem condições normais de saúde passa bem pelo rotavírus", acredita Paulo Olzon, infectologista da Universidade Federal de São Paulo. Norberto Freddi, chefe da UTI pediátrica do Hospital Santa Catarina, complementa: "O risco de morte do rotavírus é menor em relação a qualquer outra doença do calendário oficial do governo." Segundo nota do Ministério da Saúde, "a vacina preencheu todos os requisitos exigidos para ter a aplicação iniciada na rede pública, como eficácia, disponibilidade no mercado e perspectiva de impacto positivo na redução de óbitos e internações pela doença".

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