Kamil Krzaczynski/AFP
Kamil Krzaczynski/AFP

Vacina da Janssen oferece proteção tão completa quanto imunizantes da Pfizer e Moderna

Dados acumulados oferecem uma garantia considerável às pessoas que receberam a vacina e, se confirmados, têm amplas implicações para sua aplicação em outras partes do mundo

Apoorva Mandavilli, The New York Times

17 de março de 2022 | 15h00

Cerca de 17 milhões de americanos receberam a vacina da Janssen, braço farmacêutico da Johnson & Johnson, contra a covid-19 e, tempos depois, souberam que era a menos protetora das opções disponíveis nos Estados Unidos. Mas novos dados sugerem que a vacina agora está prevenindo infecções, hospitalizações e mortes pelo menos tão bem quanto as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna

As razões não estão claras e nem todos os especialistas estão convencidos de que a vacina se redimiu. Mas os dados acumulados oferecem uma garantia considerável às pessoas que receberam a vacina e, se confirmados, têm amplas implicações para sua aplicação em outras partes do mundo.

Na África, por exemplo, a distribuição de uma vacina de dose única que pode ser refrigerada por meses é de longe a opção mais prática.

A Johnson & Johnson fechou pelo menos temporariamente a única fábrica que produz lotes utilizáveis da vacina. Mas a Aspen Pharmacare, com sede na África do Sul, está se preparando para fornecer grandes quantidades ao resto do continente. Apenas cerca de 13% dos africanos estão totalmente vacinados e apenas cerca de 1% recebeu uma dose de reforço.

“No cenário da África, onde temos a necessidade de distribuir vacinas rapidamente, a dose única é muito animadora”, disse Linda Gail-Bekker, diretora do Desmond Tutu HIV Center da Universidade da Cidade do Cabo, que estudou a eficácia da vacina na África do Sul.

A vacina Johnson & Johnson foi anunciada como uma opção mais interessante para comunidades com acesso limitado a cuidados de saúde, incluindo algumas nos Estados Unidos, devido à sua facilidade de entrega e efeitos colaterais leves. Mas teve um caminho acidentado.

A injeção parecia produzir uma resposta imune inicial mais fraca, e mais pessoas que receberam a vacina de dose única tiveram infecções graves, em comparação com aquelas que receberam duas doses de Pfizer ou Moderna, as vacinas de RNA mensageiro.

Em abril, autoridades federais de saúde nos Estados Unidos e na África do Sul interromperam a distribuição da vacina J&J enquanto examinavam relatos de um raro distúrbio de coagulação do sangue em mulheres. Embora os dois países tenham retomado a vacinação logo depois, a reputação da vacina nunca mais se recuperou totalmente.

Mas a noção de que a vacina é inferior ficou ultrapassada, disseram alguns especialistas. Dados mais recentes sugerem que ela tem se mantido à altura das concorrentes.

“Estamos cientes de que a J&J foi meio que rebaixada na cabeça das pessoas”, disse Gail-Bekker. Mas “ela supera as expectativas para uma vacina de dose única”.

Até junho, os dados cumulativos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) mostraram que a imunização com a vacina Moderna resultava nas taxas mais baixas de infecções graves; as pessoas que tomaram Johnson & Johnson tiveram as taxas mais altas, com a Pfizer-BioNTech em algum lugar no meio.

Durante os meses de verão, as diferenças – particularmente entre a J&J e a Pfizer – começaram a diminuir. Até agora, todas as vacinas parecem estar funcionando igualmente bem contra infecções por coronavírus; na verdade, a Johnson & Johnson parece estar se saindo um pouco melhor.

Em 22 de janeiro, segundo os dados mais recentes disponíveis, as pessoas não vacinadas tinham 3,2 vezes mais chances de serem infectadas do que aquelas que haviam tomado a vacina de dose única da Johnson & Johnson. Elas tinham 2,8 vezes mais chances de serem infectadas do que as que haviam recebido duas doses da vacina Moderna e 2,4 vezes mais do que as pessoas com duas doses de Pfizer-BioNTech. No geral, a vacina da Johnson & Johnson parecia ser um pouco mais protetora contra a infecção do que as duas alternativas.

Entre os americanos que receberam doses de reforço, todas as vacinas pareciam ter aproximadamente a mesma eficácia contra a infecção. A dose de reforço não acrescentou muito ao nível anterior de proteção da Johnson & Johnson (embora os dados não indiquem quem recebeu qual tipo de dose de reforço).

Os dados foram coletados pelo CDC em 29 jurisdições, representando 67% da população.

“Os dados do CDC se somam ao crescente corpo de evidências que indicam que a vacina Johnson & Johnson contra a covid-19 fornece proteção durável contra infecções e hospitalizações”, disse a empresa em comunicado.

Os resultados indicam que a vacina J&J merece um olhar mais atento, disse o Dr. Larry Corey, especialista em desenvolvimento de vacinas no Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle.

“Esta plataforma de vacinas pode ter algumas características surpreendentes que não havíamos previsto”, disse ele. Os dados “são interessantes, instigantes e precisamos dedicar mais tempo para entendê-los”.

Corey disse que os resultados coincidem com sua experiência na pesquisa de HIV, com o adenovírus que forma a espinha dorsal da vacina Johnson & Johnson. “Tem durabilidade muito maior do que quase qualquer outra plataforma com a qual já trabalhamos”, disse ele.

Os cientistas estão apenas começando a entender por que o perfil da vacina está melhorando com o passar dos meses.

Os níveis de anticorpos disparam nas primeiras semanas após a imunização, mas depois diminuem rapidamente. A vacina J&J pode produzir anticorpos que declinam mais lentamente do que os produzidos pelas outras vacinas, sugerem algumas pesquisas. Ou esses anticorpos podem se tornar mais sofisticados ao longo do tempo, por meio de um fenômeno biológico chamado maturação de afinidade.

Talvez, sugerem alguns pesquisadores, a vacina tenha oferecido uma defesa mais robusta contra a variante Ômicron, responsável pelo enorme aumento de infecções nos últimos meses. E estudos mostraram que a vacina treina outras partes do sistema imunológico pelo menos tão bem quanto as outras duas vacinas.

Nem todo mundo está convencido de que a vacina Johnson & Johnson está se recuperando. Talvez esteja parecendo mais eficaz agora apenas porque muitas das pessoas que a receberam tiveram infecções precoces, ganhando imunidade adicional, disse Natalie Dean, bioestatística da Emory University. “Talvez eles tenham um perfil de imunidade diferente”, disse ela.

A taxa de infecção agora está menor entre as pessoas que receberam a vacina Johnson & Johnson, mas não receberam reforço. Ainda assim, a taxa de mortalidade é um pouco maior, em comparação com aqueles que receberam as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna, observou Dean.

Mas as diferenças não são grandes e desapareceram entre os que receberam doses de reforço. As estatísticas do CDC sobre mortes só vão até 1º de janeiro, e a vantagem da vacina Johnson & Johnson só se faz aparente em dados de fevereiro ou março, disse Dan Barouch, especialista em vírus do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, que colaborou com a Johnson & Johnson no desenvolvimento da vacina.

As mortes tendem a se registrar semanas ou até meses depois das infecções, “porque muitas mortes ocorrem após internações hospitalares prolongadas”, disse ele.

Dean disse que, para uma comparação mais clara das vacinas, ela gostaria de ver dados com informações sobre fatores individuais, como infecções anteriores e outras condições de alto risco, em vez dos números gerais ajustados por idade fornecidos pelo CDC.

“É uma pena que não tenhamos um estudo mais direto dos resultados entre as pessoas que receberam J&J”, disse ela. Isso ocorre em parte porque menos pessoas receberam esta vacina do que as vacinas de RNA mensageiro, disse ela, mas também “porque estamos contando com a geração de dados de outros países”.

Algumas dessas informações vieram da África do Sul. Em um estudo, chamado Sisonke, Gail-Bekker e seus colegas avaliaram uma dose da vacina Johnson & Johnson em quase 500 mil profissionais de saúde e duas doses em cerca de 240 mil desses indivíduos.

Na primeira parte do estudo, os pesquisadores combinaram os receptores com um grupo de controle por idade, sexo, fatores de risco para covid, status socioeconômico e infecção anterior por covid. Quando a variante Delta era dominante no país, eles descobriram que a vacina tinha uma eficácia de cerca de 67% contra a hospitalização e cerca de 82% contra a morte. A proteção contra a variante Beta era semelhante.

“Com certeza, durante as ondas Beta e Delta, a dose única funcionou muito bem para doenças graves e morte”, disse Gail-Bekker.

Quando a variante Ômicron começou a circular na África do Sul, os pesquisadores ofereceram um reforço da mesma vacina aos participantes do estudo. Menos da metade deles concordou.

“O nível de recusa foi extraordinário”, disse Gail-Bekker. A essa altura, a percepção era de que as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna eram superiores. “Havia novamente a sensação de que estávamos oferecendo uma opção de segunda categoria”, lembrou ela.

Ainda assim, os dados até agora sugerem que duas doses da vacina J&J tiveram uma eficácia de cerca de 75% contra a hospitalização com a variante Ômicron, comparável à proteção da vacina Pfizer-BioNTech. Os pesquisadores apresentaram as descobertas no mês passado na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas em Denver.

Embora tenha analisado apenas pessoas que receberam duas doses da vacina Johnson & Johnson, o estudo sugere que a vacina pode ser um excelente reforço para pessoas que inicialmente receberam duas doses de uma vacina de RNA mensageiro, disseram especialistas.

Mas em dezembro, o CDC recomendou as vacinas de RNA mensageiro em vez da Johnson & Johnson para todos os adultos, citando o risco de efeitos colaterais raros, como coágulos sanguíneos e síndrome de Guillain-Barré. A agência encontrou 4 casos de coágulos sanguíneos por milhão de pessoas que receberam a vacina; mulheres de 30 a 39 anos tiveram a maior incidência, cerca de 11 por milhão.

As vacinas de RNA mensageiro também têm sido associadas a efeitos colaterais incomuns. Acredita-se que causem cerca de 11 casos de miocardite, uma inflamação do coração, para cada 100 mil homens de 16 a 29 anos vacinados.

Mais dados sobre diferentes combinações de vacinas podem esclarecer qual é a mais segura e eficaz a longo prazo, disse Dean. A chegada de novas variantes também pode dar a algumas vacinas uma vantagem sobre outras, disse ela.

“Fico com a mente muito aberta sobre o que pode acabar sendo o melhor regime de vacinas para o futuro”, disse ela.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.