Reprodução/Wyss Institute for Biologically Inspired Engineering
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Vacina de Harvard contra tipo mais agressivo de câncer de mama tem 100% de eficácia em camundongos

Técnica que combina quimioterapia e imunoterapia já é utilizada, mas foi aplicada diretamente no tumor e atuou para também criar 'memória imunológica' ao ter resposta mais duradoura

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 12h13
Atualizado 13 de novembro de 2020 | 21h10

Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, anunciaram os resultados iniciais de um estudo que pode desenvolver a primeira vacina contra o câncer de mama triplo negativo, tipo mais agressivo da doença. O objetivo da pesquisa era unir o potencial da quimioterapia e da imunoterapia, dois dos tratamentos mais comuns para o câncer, para criar um tratamento com dupla ação. Os primeiros testes, realizados em camundongos com câncer de mama triplo negativo (TBNC), tiveram 100% de eficácia em destruir as células cancerígenas e gerar imunidade para possíveis relapsos da doença. 

"O câncer de mama triplo negativo não estimula fortes respostas do sistema imunológico e as imunoterapias existentes têm falhado nesses tratamentos. No nosso sistema, a imunoterapia atrai várias células imunes para o tumor enquanto a quimioterapia produz um grande número de fragmentos de células cancerígenas mortas que as células imunes podem captar e usar para gerar uma resposta específica e eficaz para o tumor", disse Hua Wang, pesquisador de Harvard e professor da Universidade de Illinois, co-autor do estudo publicado na revista científica Nature

Desenvolvida desde 2009, a vacina injetável contra o câncer tem apresentado resultados promissores no tratamento de vários tipos da doença em camundongos. Os pesquisadores esperam avançar o estudo para entender melhor como a vacina funciona, iniciar testes pré-clínicos e, eventualmente, submeter o tratamento a testes com humanos.

Antonio Buzaid, diretor médico geral do Centro Oncológico da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, esclarece que, embora se use o termo 'vacina', não se trata de uma medida preventiva, como ocorre com imunizantes para doenças infecciosas. “É uma vacinação in vivo, in situ, onde está o câncer. O termo é simplesmente uma extrapolação que tem a conotação de dizer que estou estimulando o sistema imune”, afirma.

Segundo ele, essa estratégia não é nova e cita como exemplo o T-Vec, droga aprovada desde 2015 nos Estados Unidos e em uso na Europa para tratar melanoma (câncer de pele). O método também injeta no câncer o vírus da herpes que foi modificado geneticamente, tirando a agressividade.

A técnica descrita no estudo de Harvard usou um gel que, no final do processo, reprogramou o sistema imunológico para rejeitar as células cancerígenas. "Eles puseram o câncer (células cancerígenas) embaixo da pele de ratos e injetaram ao redor e dentro do tumor um gel especial que tinha uma proteína que produzia poros nas células cancerosas e liberava uma droga quimioterápica, doxorrubicina, que estava dentro do gel. Também tinha outra substância estimuladora do sistema imune" explica Buzaid. Os poros fariam com que as substâncias entrassem nas células mais facilmente.

O resultado foi uma poderosa estimulação no sistema imune, vista nos gânglios perto do tumor e no sangue. Segundo o médico da BP, os pesquisadores ainda fizeram o experimento de tirar o câncer após o processo e jogar células cancerosas na veia dos ratos. "Mesmo tirando o tumor, essa estimulação do sistema imune foi duradoura porque se tentou injetar o câncer de novo e o corpo rejeitou. A conclusão é que isso é promissor, porque se poderia estimular tumores de mama antes de tirá-los e ver se isso protege as pessoas e destrói metástase que poderia ter."

De acordo com o comunicado da universidade, a vacina é implantada debaixo da pele, próximo a um linfonodo aumentado pela doença, e é produzida para liberar rapidamente uma proteína que atrai células dendríticas, parte essencial do sistema imunológico, até o local do tumor. Essas células são reprogramadas com fragmentos das células do tumor junto de um sinal que imita uma infecção.  

Já reprogramadas, as células se espalham e se aproximam do linfonodo mais próximo, prontas para treinar outras células do sistema imunológico para reconhecer as células cancerígenas como algo perigoso, que precisa ser destruído. No linfonodo, as células dendríticas ativadas fazem com que fragmentos de células cancerígenas entrem em contato com células-T do sistema imunológico. Logo depois, as células-T se proliferam e circulam pelo corpo para destruir possíveis outras células afetadas pelo tumor. 

Dessa forma, além de combater as células cancerígenas já presentes no corpo, a vacina gera uma “memória imunológica” que pode proteger o indivíduo por um longo tempo. “A capacidade desta vacina extrair potenciais respostas imunes sem precisar da identificação específica dos antígenos do paciente é um enorme avanço, assim como a habilidade da injeção local de evitar efeitos colaterais severos da quimioterapia, único tratamento disponível atualmente para a doença”, disse David Mooney, professor de bioengenharia de Harvard e um dos autores do estudo.

Mesmo tratamento, outra estratégia

Buzaid explica que a combinação de quimioterapia com imunoterapia para tratar o câncer de mama triplo negativo já é usado atualmente, mas de forma tradicional, com os quimioterápicos sendo injetados nas veia, não diretamente no câncer, como o estudo apresentou. "A ideia é a mesma. Quero que a quimioterapia libere antígenos e com a estimulação do sistema imune faz funcionar melhor. Trinta anos atrás, se achava que dar quimioterapia com imunoterapia era errado. Hoje, a quimioterapia mais correta ajuda a estimular o sistema imunológico", diz.

O médico afirma que o resultado não é tão satisfatório como se desejaria, uma vez que a maioria dos pacientes não são curados, mas o câncer reduz mais rápido, há controle da doença por mais tempo e aumento da sobrevida. "[O estudo] é um bom começo, mas temos ainda muito chão. A maior parte das coisas que usam em ratos não funcionam em humanos e é difícil curar o ser humano. É provocador, esperto, mas vamos ver se resolve em pacientes." Até que tenhamos resultados em seres humanos, muitos anos ainda vão se passar, mas é por meio de estudos como esses que a medicina tem avançado e proporcionado tratamentos cada vez mais personalizados.

"Por que o câncer ocorre? Porque ele não é visto pelo sistema imune, escapa e ataca o organismo do paciente. Só que os cânceres diferem entre si na forma de escapar ao ataque do sistema imune. Alguns paralisam as células, outros atraem. As células cancerosas produzem múltiplas substâncias, então vamos ter de aprender melhor os mecanismos de evasão ao ataque e tentar bloqueá-los. O remédio ajuda, mas vários não respondem", diz Buzaid.

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