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Vacina de Oxford: após confusão sobre dados, Brasil continua sem imunizante  

Essa foi a semana mais frustrante da pandemia. Começou com o anúncio que a vacina da AstraZeneca/Oxford, a escolhida pelo governo brasileiro, teria eficácia de até 90%.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2020 | 05h01

Essa foi a semana mais frustrante da pandemia. Começou com o anúncio que a vacina da AstraZeneca/Oxford, a escolhida pelo governo brasileiro, teria eficácia de até 90%. Esse resultado levou a Fiocruz a anunciar que em 2021 o Brasil vacinaria 130 milhões de brasileiros, o suficiente para acabar com a pandemia por aqui. E a semana acabou com a aceitação pela AstraZeneca que os dados até agora indicam que a vacina tem somente 62% de eficácia e que será necessário fazer um novo ensaio clínico para determinar qual a dose que deve ser usada na vacinação. Esse novo estudo, que deve levar alguns meses, pode atrasar o início da vacinação no Brasil. Vale a pena entender o imbróglio em que o consórcio AstraZeneca/Oxford se meteu.

Logo depois do anúncio, a AstraZeneca divulgou que na realidade a eficácia de 90% havia sido obtida em um pequeno grupo de voluntários (2,8 mil) que haviam recebido metade da 1ª dose e a 2ª dose completa. A grande maioria dos voluntários (8,9 mil) recebeu as duas doses completas, e nesse grupo a eficácia da vacina foi de somente 62%. No dia seguinte, a empresa revelou que o pequeno grupo que recebeu meia dose não estava no plano original de pesquisa da fase 3, mas que um erro na fabricação das doses levou essas pessoas a tomarem metade da 1ª dose. 

Além disso, as pessoas que receberam meia dose não eram uma amostra significativa da população, pois só incluía pessoas com menos que 55 anos e sem comorbidades. Na quinta feira, a AstraZeneca admitiu que os dados somente sugeriam (e não provavam) que a meia dose aumenta a eficácia da vacina de 62% para 90% e anunciou que vai fazer um novo ensaio clínico de fase 3 para tentar comprovar se a administração da meia dose realmente aumenta a eficácia. Esse estudo adicional vai durar alguns meses. Nele, os voluntários serão divididos em dois grupos, metade vai receber meia dose e metade vai receber a dose inteira. E foi assim que terminou a semana.

De fato, o que temos de sólido hoje (se os dados a serem publicados confirmarem as afirmações de empresa) é o resultado com os 8,9 mil voluntários que receberam duas doses completas. E nesse grupo a vacina da AstraZeneca confere 62% de proteção. O problema agora é saber o que a AstraZeneca vai fazer nas próximas semanas. Há duas hipóteses. 

A primeira é que a Astrazeneca peça aos órgãos regulatórios a aprovação da vacina com a aplicação de duas doses inteiras e uma eficácia de 62%. A segunda é que a AstraZeneca retarde o pedido de aprovação até ter os resultados desse novo estudo de fase 3 na esperança de que no futuro ela possa pedir e aprovar uma vacina com 90% de eficácia. Se ela esperar vai atrasar a distribuição da vacina, mas pode ter daqui uns meses uma vacina competitiva com as da Pfizer e Moderna (eficácia de 95%), com custo menor, e mais fácil de usar. Lembre que a vacina da AstraZeneca não precisa ser congelada. Se ela pedir o registro agora, ele tanto pode ser negado, por causa das falhas no estudo (ficou menor que o esperado, 8,9 mil voluntários, ante 30 ou 40 mil das outras vacinas), ou pode ser aprovado com uma eficácia de 62% e a recomendação do uso de duas doses na vacinação.

Essa decisão seguramente vai afetar nosso futuro. Se a AstraZeneca adiar o pedido de registro no Brasil, a vacinação por aqui vai atrasar. Por outro lado, se ela pedir a aprovação no Brasil com 62% de eficácia, as estimativas da Fiocruz de vacinar 130 milhões de brasileiros em 2021 será reduzida para 100 milhões. Nesse cenário, se o governo realmente conseguir vacinar os 100 milhões ao longo dos 12 meses de 2021 com uma vacina cuja eficácia é 62%, somente 62 milhões ficarão imunizados. Ou seja, somente 29% dos 210 milhões de brasileiros ficarão imunes por causa da vacinação em 2021 (um número desconhecido já é imune por ter contraído o vírus; oficialmente são 6,2 milhões). É claro que isso vai ajudar a controlar a pandemia, mas não vai fazer o problema desaparecer.

É por isso que uma semana que começou com a perspectiva de ter o problema do coronavírus solucionado em 2021 terminou com o Brasil ainda sem perspectiva de vacinar sua população. Nas próximas duas semanas todos os olhos da comunidade científica estarão nos resultados da Coronavac, a vacina chinesa que foi a escolhida pelo Instituto Butantã e bancada pelo governador do Estado de São Paulo. Por enquanto, o Brasil ainda está sem vacina.

* BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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